terça-feira, 12 de abril de 2011

Leitura quaresmal

O livro de Herta Müller, Tudo o que tenho trago comigo, história de um sobrevivente de um campo de trabalho russo, guiou-me pela Quaresma. Narrativa sem Deus e que não procura um sentido, mas que remeti (talvez indevidamente) para o mais quaresmal dos livros, o do Êxodo.

Primeiro a partida, furtiva, triste, de quem não está preparado. De quem faz da caixa da grafonola uma mala, porque não tem mala, porque queria ficar. «Muita gente acha que fazer malas pertence ao rol das coisas que se exercitam, que se aprendem automaticamente como cantar e rezar. Nós não tínhamos exercício e também não tínhamos malas» (p.16).

Carregar a bagagem sem nexo para o sufocante percurso dos vagões, conduzidos pelo caminho mais longo, «longe da terra dos filisteus» (Ex. 13, 17-18). É a estrada do «deserto» que antecipa o combate, do qual não pode haver desertores.

Depois, os tijolos, o cimento. A opressão de um povo, mas sem uma sarça a arder sem Ninguém a ver (Ex. 3,7), só o medo «Eu acho que na nossa cabeça só uma coisa é ainda mais rápida que o cimento: o medo» (p.40).

E o cúmplice de tudo isto, «o anjo da fome» que fere todos os prisioneiros, marca o vazio. «Sou instruído pela fome e, por humildade, inacessível, não por orgulho.» (p.241). O tempo «da pele e do osso».

«Dou o campo de trabalho por encerrado. Desapareçam» (p.251). Uma notícia que não se sabe o que fazer com ela, o «anjo da fome» fica boquiaberto.

E outra vez, não os mesmos, nem o que resta deles, porque já são outros, vão fazer o caminho de volta, para um mundo ocupado pelos estranhos que os conheceram e amaram.

«TAMBÉM LÁ ESTIVE deve estar escrito nos tesouros […]. Sei entretanto que nos meus tesouros está escrito EU FIQUEI LÁ […] Nos meus tesouros está escrito DE LÁ NÃO CONSIGO SAIR. Quer num quer noutro há sempre exagero, mas TAMBÉM LÁ ESTIVE não existe em nenhum deles. E também não existe uma medida certa» (p. 284).

Para aqui, nos atira a Quaresma, para uma jornada, pelo caminho mais longo, para junto da incompreensão. E para aí permanecermos algum tempo. Depois vem a Páscoa. E o «anjo da fome» fica boquiaberto.