quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Evocação breve de António Aleixo

Passaram anteontem 60 anos sobre a morte do poeta algarvio António Aleixo. Para evocar a efeméride e remover "certos preconceitos sobre a sua obra", a RTP transmitiu o documentário «António Aleixo, na terra acho, na terra deixo». Achei-o interessante, mas na parte que vi não houve espaço para a apresentação dessa mesma obra e era bem fácil fazê-lo, já que parte dela são quadras e versos ao jeito popular.
É verdade que este poeta nunca granjeou grande crédito junto de parte dos críticos e estudiosos da literatura lusa, o que é extensivo aos restantes poetas populares. Folheando-se a 13.ª ed. da História da literatura portuguesa (de António José Saraiva e Óscar Lopes), apenas se topará com uma fugaz alusão, e dentro duma ficha dedicada a outro poeta algarvio, João de Deus. Mas também é verdade que, desde 1974, a sua obra começou a ter a gradual atenção de vários estudiosos (breve lista de estudos na secção de «bibliografia» desta biografia).
Seja como for, vale a pena atentar no seu estilo directo, assertivo e irónico, plasmado em notas existencialistas avant la lettre, numas vezes, ou num olhar de crítica social, noutras, mesmo durante a ditadura, quando era bem difícil este tipo de expressão. Até por isso, pela raridade desta combinação e destes olhares, vale a pena revisitá-lo.
A sua vida, rica e tormentosa, é pendão de experiência para esse caleidoscópio de reflexões e impressões. Homem de várias profissões, cauteleiro, pastor, tecelão, polícia e servente de pedreiro, foi também cantor popular de feira em feira e emigrante em França. Morreu de tuberculose, aos 50 anos, após internamento de 7 anos no Sanatório dos Covões.
Embora tivesse tido uma alfabetização rudimentar, escreveu vários livros, o primeiro deles Quando começo a cantar…, recolha de quadras cuja venda se iniciou em 1943, por iniciativa do Circulo Cultural do Algarve. Seguiram-se-lhe Intencionais (1945), Auto da vida e da morte (1948), Auto do curandeiro (1949), Este livro que vos deixo (1969, obra completa) e Inéditos (1978). A sua obra foi redescoberta a partir dos anos 60, pelo trabalho de divulgação do dr. Joaquim Magalhães. Incompleto ficou o Auto do Ti Jaquim.
Em nome das suas preocupações sociais surgiu, em 1995, a Fundação António Aleixo, sediada em Loulé, onde viveu e faleceu. Actualmente esta entidade colabora em diversos projectos de desenvolvimento social, em múltiplas parcerias, com instituições públicas e particulares (vd. aqui).
Em homenagem ao poeta, o município de Loulé erigiu-lhe uma estátua defronte ao Café Calcinha, espaço outrora por si frequentado. Também o antigo Liceu de Portimão foi renomeado Escola Secundária Poeta António Aleixo e, no Liceu Católico de São Paulo, surgiu a Escola Poeta António Aleixo (vd. lista de homenagens nesta biografia).
Deixo-vos com um dos seus poemas (outros há, com análise crítica, aqui):
Co'o mundo pouco te importas
porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
quem só vê o seu proveito?

À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra.

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
q'rer um mundo novo a sério.

Nb: imagem retirada daqui.

3 comments:

Rufino Fino Filho disse...

http://batemtodos.blogspot.com/2009/11/um-blog-censura-pela-camara-municipal.html

Daniel Melo disse...

Caro Rufino Fino Filho:
a ser verdade que a edilidade penalvense obstruiu o acesso dos cidadãos ao seu blogue a partir da biblioteca municipal e doutros espaços municipais, então isso é grave e tem a minha solidariedade.

E deve ser denunciado, não só na blogosfera, mas junto do Provedor de Justiça ou doutras entidades julgadas competentes para a matéria em apreço.

Rufino Fino Filho disse...

Caro Daniel:

Grato pelo apoio e pelas informações, que seguirei.
Abraço
Rufino