sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os generais ou o caos

É assim que os opinion makers conservadores tugas estão a descrever a actual encruzilhada egípcia. Não sei se é papaguear dalguma cassete alheia (tipo Fox News), mas a coisa torna-se irritante, se tivermos em conta que 1) hoje é dia de festa para todos os amantes da liberdade e da democracia, 2) o dualismo não tem correspondência com nenhuma realidade histórica.

Primeiro, louva-se o povo nas ruas, corajoso e legítimo; uma vez deposto o poder fora de moda, dá-se o salto no discurso: o poder não pode cair na rua, senão é o caos. Mas o que é a rua? Simples: é a sociedade civil que tanto confusão faz a ditadores, militares e... opinion makers conservadores!

É preciso dizer que a oposição egípcia foi a votos em 2009, ao fim de 29 anos de poder autárcico e que, apesar dos resultados terem sido distorcidos por Mubarak, essa oposição foi assim reconhecida politicamente pela própria ditadura. Depois, dizer que um dos líderes oposicionistas, El Baradei (com uma frase memorável no seu twitter: «Egypt today is a free and proud nation»), é justamente reconhecido como um dos grandes quadros saídos da ONU. E a Irmandade Muçulmana, movimento islâmico, foi tão moderado no apoio à insurreição popular que passou despercebida! Os jovens adultos foram um (não o único) dos grupos sociais mais dinâmicos, como sucede em muitas mudanças políticas, nem mais nem menos, e não é a hipótese de não estarem organizados que lhes retira legitimidade e impacto.

Portanto, a questão não é a sociedade civil, mas sim o que os militares farão. Não esquecer que foram eles que apoiaram esta ditadura durante 30 anos. Resta agora saber que papel estão dispostos a representar: imporão a sua solução governativa ou serão a instituição que assegurará a transição do poder para novas elites políticas legitimadas pelo povo? Através do voto, claro, antes de Setembro, de preferência. Em eleições limpas, participadas e justas.

Há um problema no meio disto, que é o futuro da relação com Israel e EUA, mas isso não está no cerne da urgência de mudança exigido pelo povo egípcio, a julgar pelos múltiplos indícios difundidos pelos media, incluindo os árabes. Que o cinismo não vingue: não se misturem as coisas.

Tudo o resto, «caos», «poder na rua», é conversa bota-de-elástico. E para bota-de-elástico basta o Mubarak. By the way, onde pára o cromo?

5 comments:

jrd disse...

A conversa da treta já está a ser alimentada pelos que, por razões diversas, ou "combatem" até ao último egípcio ou querem "moderar" a esperança do povo.

Paula Tomé disse...

Concordo, hoje é dia de festa para todos aqueles que acreditam na liberdade. O resto é uma malta da Fox que não tá com nada! O cromo está numa das resortes, dizem... a coisa foi tão civilizada que talvez nem tenha que sair do país... Lindo!

Daniel Melo disse...

Sim, jrd, combatem com o telecomando e moderam com o teleponto.

Ok, Paula, deve ser o tal resort donde ele governava à distância, impávido, sereno e bronzeado. Já ouvira falar, parece que é bem isolado, para uma elite restrita.

Entretanto, foram congeladas as contas do ditador na Suiça, o que é bom, caso ainda haja algum por lá...

Virando página, o que me parece revelador agora é o impacto internacional imediato da coisa: celebrações nocturnas nas ruas na Jordânia, Líbano e Gaza (pelo menos). Pode ser indício de algo mais, mas se for só isto já é um feito muito importante.

Paula Tomé disse...

LOL, mesmo assim deve sobrar... virando página de facto... tens razão, eu li algures hoje que houve pequenas manifestações até em Marrocos: acredito que isto seja imparável. O Tariq Ali diz acreditar que o nacionalismo árabe secular que tinha sido esmagado em 67 estava agora a renascer. Está aqui http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/feb/11/egypt-cairo-hosni-mubarak.

Rogério Pereira disse...

Não sei porquê, estou numa de alegria contida.
Acho que aquele exército vai pregar a partida.
(ando com uns pensamentos...)