sexta-feira, 18 de abril de 2008

Acordo Ortográfico: não dói nada e não é bicho-de-sete-cabeças

vallera, conforme o prometido, vai aqui umas linhas sobre o Acordo Ortográfico.

Ao contrário do que acontece em Terras Brasilis, o Acordo Ortográfico da língua oficial portuguesa tem gerado muita polêmica em Portugal, com alguns fazendo dele um bicho-de-sete-cabeças. Da minha parte, não defendo esta como sou favorável a uma reforma ortográfica bem mais radical, de maneira tal que venha a reduzir a sua enorme dificuldade de aprendizado [#], passando pela abolição quase total dos grafemas e a uniformização gráfica de sons rigorosamente iguais.... Bem, mas este não é o objetivo deste post.

Miminimalista, o Acordo Ortográfico pretende apenas aproximar tanto quanto possível a língua portuguesa escrita dos países lusófonos, eliminando as diferenças entre a norma brasileira e a de Portugal (e africana), mas preservando e respeitando a sua essência: o falar e o vocabulário de cada país ou região. Esta revisão é fundamental à medida que aproxima a língua escrita da língua falada (no caso lusitano, com a eliminação das consoantes mudas que não funcionam como diferencial). Não vejo qualquer sentido lógico que uma língua secular mantenha duas (ou mais) diferenças ortográficas quando elas não correspondem a uma divergência real na sua oralidade.

Na história da Liguística, não existe nenhuma ortografia que tenha se consagrado pela tradição e se mantido intacta por seculus seculorum. Ao contrário. Ao longo dos tempos, todas as formas escritas das línguas ocidentais passaram por inúmeras reformas. Portanto, não faz qualquer sentido acusar esta reforma de ser apenas uma renuncia ao “português de Portugal” em favor do “português tupiniquim”, mesmo porque o Acordo é bilateral. A língua não deve ser tratada como um dogma ou como um objeto-de-uso-pessoal deste ou daquele cidadão.

Creio que a oposição portuguesa mais ferrenha ao Acordo vai além dos “puristas” de plantão e/ou conservadores. Ela reside fundamentalmente no mero capricho de uns poucos e, principalmente, no desinteresse dos editores portugueses, que não desejam reeditar seus títulos e temem, sobretudo, a concorrência brazuca no mercado de livros didáticos e técnicos, tanto em Portugal como na África, uma vez que a grafia africana obedece à norma portuguesa. aqueles que o criticam apenas pela dificuldade que as pessoas terão em se adaptar à nova ortografia não têm muita razão, pois as muitas mudanças feitas (no português e noutras línguas) demonstram o contrário. No final, dá tudo certo e não dói nada.

Do lado brasileiro, a coisa é bem mais maquiavélica: o seu uso político na África lusófona como fonte potencial de bons negócios. O argumento em defesa de intercâmbios cultural, artístico e acadêmico não passa de pura retórica demagógica - para não dizer hipocrisia. Na verdade, o interesse do Brasil não vai além da busca de novos mercados para seus livros, seus softwares e outros ponto.com. Detalhe: se hoje há essa diferença na ortografia lusófona é porque o Brasil não cumpriu com o que foi acordado em 1945, pois sempre se considerou o verdadeirodono” da língua e fez dela o que bem entendeu. É no mínimo estranho que agora se empenhe tanto pra que este Acordo entre em vigor em todos CPLPs (?).

Repito mais uma vez: não sou contra o Acordo em questão apesar dessas lamentáveis manobras ardilosas. A minha crítica fundamental gira em torno dos interesses velados que estão por detrás dele. A língua portuguesa (ou qualquer outra) não pode e não deve ser um mero instrumento que vise apenas as relações comerciais como quer o governo brasileiro, ou como propriedade de um dono como desejam alguns portugueses. Qualquer revisão da língua portuguesa deve estar sempre acima de quaisquer interesses escusos e vaidades. A língua é como umorganismo vivo” e como tal está sujeita a transformações. Impedir este processo é ir contra a própria natureza. Se não fosse essa "evolução", estaríamos nos comunicando agora em galaico-português.
.....................

[#] Desde sempre, o ensino da língua portuguesa não vem atingindo seu objetivo mais elementar: levar o aluno ao domínio da norma culta e dar-lhe condições de atender às exigências formais de um texto escrito. Oras bolas, será então que todos os professores são assim tão despreparados? Ou será que não é a falta de coerência da gramática normativa a grande vilã do aluno e do professor ? Bem, ficam aqui estas duas perguntas.


quinta-feira, 17 de abril de 2008

O mundo no sofá

Caros amigos,

já aqui expressei a minha defesa acérrima das virtudes epistemológicas do sofá. Como dizia aquele grande filósofo (chamado Ruy... espera, sou mesmo eu afinal! Mas que grande filósofo que me saí! Não se esqueçam de me citar), "eu tenho grandes ideias quando estou a adormecer no sofá; é pena não me acordar delas quando acordo".

Penso, aliás, que o assunto é merecedor, no mínimo, de um debate público em local apropriado. Sim, porque o governo, uma vez mais, está a atropelar os nossos direitos ao obrigar-nos a trabalhar em cadeiras, bancos e outros derivados. Já não basta ter de percorrer distâncias a pé e tal.

Não preciso de recordar a importância histórica desta peça de mobiliário - o que é , no fundo, o trono real se não um protótipo de sofá? Pelo menos, lá estavam os braços acolchoados, e as almofadinhas (outro elemento merecedor do meu mais profudo respeito). Muito sangue se derramou por esse antepassado mobiliárquico (e não nobiliárquico).

Pois bem, a partir deste momento, é com prazer que partilho que deixei de ser Dom Quixote e já não sou o único a lutar por esta causa - que, confesso, parecia perdida.
Um grupo de amigos, colegas e visionários levou esta ideia para a frente e produziu aquilo que os ingleses chamam de cornerstone, ou seja, pedra no canto.

Ok, a analogia não foi a melhor. Vou tentar outra: é a primeira peça a avançar no jogo de xadrez. Ou outra: produziu a primeira página da próxima revolução intelectual:


A Globalização no Divã, 2008, Tinta da China


Recomendação: comprem este livro e deitem-se nos vossos divãs, sofás, vá lá, cadeirões. Verão o mundo com outros olhos (epá, devia ter vendido esta à editora, mas pronto). Não tentem é jogar xadrez ao mesmo tempo.

Um minuto de silêncio


























Aimé Césaire (1913-2008)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ainda as imagens mentais II

Continuando o post de ontem. O debate anda à volta do artigo publicado na revista Nature pela equipa de Jack L. Gallant, da U. C. Berkley. O artigo começa logo por declarar "A challenging goal in neuroscience is to be able to read out, or decode, mental content from brain activity." (um desafio central em neurociências é ser capaz de apreender, ou descodificar, conteúdo mental a partir da actividade cerebral), sem dúvida ambicioso. O artigo demonstra ser possível a partir de imagens de ressonância magnética funcional (fRMI) do cérebro de um indivíduo deduzir que tipo de imagens ele está a visualizar (isto numa determinada situação experimental). Dois indivíduos visualizaram uma série de imagens enquanto eram observados por fRMI, e a partir deste primeiro conjunto de observações elaborou-se um algoritmo que estabelece um padrão. Num segundo tempo os mesmos indivíduos são observados novamente por fRMI enquanto visualizam imagens que não tinham visto antes. Com o algoritmo tenta-se determinar que imagens estão a ser visualizadas. A eficiência, para um conjunto de 120 imagens foi de 92% num caso e 72% no outro, a probabilidade de acertar por acaso era de 0,8%. Isto quer dizer que com uma eficiência apreciável o algoritmo, analisando o fRMI, consegue determinar que tipo de imagem um indivíduo está a ver, sem ter que lhe perguntar (o que é, tanto quanto sei, um resultado muito inovador). Ou seja é possível olhando para um padrão de actividade cerebral deduzir as imagens que esse cérebro está a processar. Será isto uma imagem mental? Segundo a notícia no Público, de Ana Gerschenfeld, trata-se de facto de imagens mentais (e, a meu ver, bem).

Fernando Belo discorda:
"(...) não é possível dizer desta experiência que se trata de ‘fotografar imagens mentais’, só há imagens fotográficas exteriores e imagens de ecrã da actividade neuronal. E por conseguinte também não é possível, nem creio que fosse o intento dos autores, provar com ela que ‘há’ imagens mentais."
"(...)no cérebro o que há são células, química e electricidade iónica (que interage com a química). Palavras, músicas, imagens, tudo isso é exterior e ‘percebido’ por certos órgãos periféricos que os transformam em electricidade neuronal."

Sem querer transformar o debate numa mera questão semântica, parece-me que o significado da palavra imagem é central nesta discussão. Convém definir claramente o que se entende por imagem. Se entendermos por imagem uma representação visual de um objecto, então as imagens mentais existem. Uma fotografia de uma bola é uma imagem, a bola é o objecto. A fotografia, seja ela uma película de negativo, uma impressão em papel, ou um ficheiro JPEG é sempre uma imagem, é sempre uma representação do objecto. Então e se forem sinapses em vez de grãos de prata em película ou bytes em JPEG, é menos imagem por isso? Como Fernando Belo refere há a percepção do objecto que é exterior, até dada altura. A luz que é emitida pela bola e captada pela retina é exterior até precisamente ao momento em que é captada pela retina, mas até aí não há representação do objecto, apenas a primeira fase (por assim dizer) da percepção. E de cada vez que evocamos a imagem da bola sem que ela esteja à nossa vista, mas que conseguimos visualizá-la mentalmente há uma imagem (por maioria de razão) mental que se forma, tal como se fizermos duplo-clique no icon do ficheiro JPEG há uma imagem digital que se forma.

Sem surpresa a única coisa que Castro Caldas diz de interessante (cf. o post de ontem) é quando se digna argumentar: "Quando Fernando Belo diz que no cérebro só há células, química e electricidade, está a ser extraordinariamente reducionista." De facto a imagem de que no cérebro só há células, química e electricidade é algo redutora. É como dizer que o motor de um carro é só cilindros, porcas, parafuso, cambotas, óleo e gasolina. Sim é tudo isso, mas um motor parado é só isso, e um motor parado não nos interessa muito. O que nos interessa é perceber como funciona o motor, quando está em movimento. Assim também o cérebro é células, química e electricidade, mas é também os seus processos: a transmissão sináptica, a formação de sinapses, os potenciais de acção, etc... É isso que o artigo de Gallant consegue demonstrar pela primeira vez: que determinados padrões de actividade neuronal correspondem a determinadas imagens. Por isso o título da notícia de Ana Gerschenfeld "Cientistas fotografam imagens mentais" é tão certeiro. Uma fotografia, ou um padrão de actividade cerebral, podem ser uma imagem e um objecto ao mesmo tempo. Pode obter-se portanto uma imagem duma imagem (fotografar imagens). O artigo da equipa de Gallant mostra imagens de fRMI de imagens mentais, como muito pouca resolução obviamente (por enquanto). É como se se fizesse uma radiografia de uma máquina fotográfica para perceber como ela funciona, enquanto ela própria gera imagens fotográficas.

A argumentação de Fernando Belo é estimulante, e espero ter dado alguma resposta. Já este post de João Galamba, ainda sobre o mesmo tema, é-me mais difícil perceber. Parece-me uma recusa liminar de uma abordagem científica do estudo da mente, apenas porque sim. E porque não? Quais mistificações? Por que raio não há-se ser a mente passível deste tipo de abordagem? É um objecto de estudo como outro qualquer. Parece-me aliás bastante plausível que a actividade neuronal seja bem mais do que suficiente para explicar a mente humana, sem recurso a explicações metafísicas (sim, sou profundamente materialista).

Nota: A imagem é retirada do artigo da equipa de Gallant.

Palavras de desconforto

Asked if he had competed in any sport for his College, Waugh famously replied "I drank for Hertford."

Algumas das frases que sempre me acompanham pertencem a Evelyn Waugh, um dos meus autores favoritos. A sua escrita, cómica e cruel ou sentimental e nostálgica, nunca é, como o próprio não foi, pacificadora.
Agora, a British Library, seguindo a sua interessante política de verdadeira divulgação e ao mesmo tempo conservação do que aos livros e autores diz respeito, editou, em CD, uma entrevista radiofónica de Waugh à BBC em 1953. O disco faz parte de uma colecção de registos da BBC rádio, publicada pela biblioteca.
Ao visitar o maravilhoso edifício da British Library, «guardado» por Newton de William Blake, fica-se tão impressionado com a exposição de manuscritos e livros, como com o arquivo sonoro que vai desde o registo de dialectos à audição de grandes escritores e poetas.
As próximas edições serão de Ted Hughes e Edith Sitwell e os bibliotecários prometem continuar as suas pesquisas nos arquivos da rádio.
Imagem: Henry Lamb (1883-1960) - Evelyn Waugh, aged 26.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Ainda as imagens mentais I

Não é todos os dias que o público tem a oportunidade de ver um diálogo interessante entre filósofos e cientistas, sobre importantes avanços da Ciência. O filósofo Fernando Belo, que se interessa em particular por questões científicas, escreveu um artigo de opinião (que se pode ler aqui) no passado 14 de Março, no 'Público' com o título "O que são isso das imagens mentais?". Em questão está uma peça da jornalista Ana Gerschenfeld, de dia 6 de Março (que transcrevi no lado b), que por sua vez reporta um artigo científico publicado na revista Nature. Na minha opinião Ana Gerschenfeld faz um excelente trabalho jornalístico, a notícia faz jus ao artigo.

Fernando Belo contesta a existência de imagens mentais, e por consequência considera que o artigo da Nature não demonstra a existência de imagens mentais. A. Castro Caldas respondeu a Fernado Belo num artigo de opinião, também no 'Público'. O artigo de Castro Caldas, embora sobre a questão científica estejamos provavelmente de acordo, parece-me bastante infeliz e mesmo deselegante. Começa por nos lembrar que os leigos têm em geral uma visão disparatada dessas coisas das Neurociências, de onde se deduz que provavelmente não vale a pena discutir estes assuntos com leigos. Depois sugere a Fernando Belo que os filósofos se devem dedicar à Filosofia e os cientistas à Ciência, concedendo que "não são graves as incursões pontuais nos campos e metodologias uns dos outros" (esta é um primor, o negrito é meu). Este tipo de atitude é antes de mais de uma lamentável pequenez, é fácil esquivar-se ao debate e ao escrutínio escudando-se atrás de uma autoridade académica/científica. Quando alguém, seja quem for, nos interpela para debater uma assunto, qualquer que seja, tentar remeter esse alguém para um acantonamento de posições é deselegante, mais ainda se a pessoa em questão tem bagagem e argumentos suficientes para um debate de qualidade. Antes de mais faz parte do trabalho do cientista, não apenas produzir conhecimento mas difundi-lo, e não apenas no domínio da sua especialidade mas para todos quantos o queiram. É um dever ético. E não chega uma declaração de intenções, não chega afirmar "os neurocientistas estão cientes disso [a má informação do público], desenvolvendo trabalho para corrigir esses erros" quando o resto do que escreve pouco faz para o demonstrar. Castro Caldas exibe também um profundo desprezo pela pluridisciplinaridade, erro típico de uma tradição científica e académica arcaica. Nem é necessário estar a lembrar a quantidade de avanços na ciência moderna apenas possíveis graças ao diálogo entre disciplinas diversas. Mais ainda, é esquecer que todas as questões (realmente importantes) a que os cientistas se dedicam foram formuladas primeiro por filósofos (o que é a vida?, o que é Universo?, o que é a mente?, etc...). Fernando Belo fala da filosofia espontânea dos cientistas, eu vou mais longe, os cientistas limitam-se (e eu incluo-me) a recuperar as questões já formuladas pelos filósofos. Mas permita-se-me uma provocação, e puxo a brasa à minha sardinha, serão sempre os cientistas a dar resposta a essas perguntas. Quando se coloca uma questão sobre determinado objecto, para se encontrar resposta não basta pensar, debater, discutir, divagar, ou opinar, é preciso manipular o objecto e testar hipóteses, sem o que nunca se terá uma resposta digna desse nome. É aí que os cientistas entram em acção.

E eu que queria discutir 'imagens mentais' e expor as razões porque discordo de Fernando Belo, e acho que as imagens mentais de facto existem... O post já vai longo, e desviou-se ligeiramente. Fica para a próxima.

Nota: Fernando Belo tem um blogue onde apresenta resumidamente a sua mais recente obra: "Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida", uma obra em dois volumes em que debate a Ciência moderna de forma aprofundada, do seu ponto de vista de filósofo. Tem um capítulo dedicado precisamente à questão neurológica.

Uma proposta: o iberismo europeu



Mais um espinho cravado na história da esperança do povo de esquerda. Berlusconi venceu de novo, acumulando mais material para mais um filme obsessivo de Nanni Moretti. Sempre o mesmo. Já não se esperava muito, apenas que vencesse por pouco e que o seu governo fosse fraco. Mas venceu destacado, e ainda por cima devendo a maioria absoluta a um reforço da extrema-direita xenófoba em versão italiana: a Lega Nord.

Mais um espinho na já tão maltratada história da esperança. Como se a história tivesse deixado de andar para a frente em Itália, tivesse deixado de renovar as gerações políticas. Como se a história não fosse mais do que uma cirurgia plástica, um novo implante capilar, e o Velho aparecesse como sempre novo.

A esquerda da esquerda desaparece do parlamento e do senado. Apenas o Centro-Esquerda fica representado. A sensação é de claustrofobia democrática. Berlusconi venceu, o povo é soberano, o povo é sereno, não se pode mudar de povo. O povo italiano é assim, sempre foi assim. A luta armada não é solução. A emigração não é solução (já emigrámos).

A minha proposta, para não ficar aqui a lamber feridas (sem ser italiano, sou um patriota italiano), é progressista e reaccionária ao mesmo tempo: todos com a Espanha. A Espanha por toda a parte, em todos nós. Neo-habsburguismo. 1580 outra vez e em todo o velho continente, mas sem império. Um Z de Zapatero rasgando a Europa das nações, essa velharia.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O batuque de Feliciano dos Santos ganha o “Nobel” ambiental

O cantor moçambicano Feliciano dos Santos ganhou o prêmio Goldman Prize, considerado o “ Nobel” do ambiente. Feliciano é reconhecido pelo seu trabalho na divulgação dos problemas da saúde, água e Sida (Aids) que tanto assolam Moçambique e a África em geral. Em 1992, depois de ter formado a banda Massukos, ele promoveu em conjunto com a Unicef um projeto para incentivar a construção e o uso de latrinas em seu país. Em 1996, ele criou a ONG “Estamos”, que tem por objetivo promover melhores condições de vida através de melhores condições sanitárias. Veja vídeo aqui.

domingo, 13 de abril de 2008

Ele há vinhos do Carvalho!

Este post da série Vinhos ao Domingo (é uma série de posts que resulta episodicamente na publicação de posts sobre Vinho aqui no Peão, geralmente ao Domingo) não é para falar de um Vinho em particular mas de um fenómeno que me preocupa de sobremaneira. É que algo de desagradável me acontece de quando em vez quando ando nas minhas pesquisas de novos vinhos. Pode ser má vontade minha mas acho que a epidemia começou com os vinhos de Bordeaux, e contagiou outros vinhos um pouco por todo o lado. Não, não estou a falar do Cabernet Sauvignon, embora me pareça haver uma forte correlação (o Cabernet Sauvignon é uma cepagem infestante que anda a invadir vinhas de onde não é autóctone um pouco por todo o lado). O fenómeno que me atormenta é a serradura de Carvalho no vinho. Alguma coisa está errada quando se tenta degustar um copo de vinho e é mais fácil identificar a qualidade do Carvalho cuja serradura foi utilizada para o "aromatizar" do que a cepagem de que foi feito esse vinho. Não me interpretem mal, eu sei que o casco de Carvalho é bom para o vinho, mas há limites. Sistematizemos da maneira mais clara possível: Envelhecer vinho em barris de casco de Carvalho é bom, fermentar vinhos em cubas de aço inoxidável com serradura de Carvalho lá para dentro é que já é mais duvidoso. E não é que eu seja um desses conservadores que é contra as modernices da tecnologia (acho que os meus posts sobre transgénicos o demonstram*). Acho muito bem que se utilize todo o tipo de tecnologias possíveis na produção do vinho, como no resto. Apenas exijo uma condição: que o produto final seja de melhor qualidade e/ou mais barato (na pior da hipóteses apenas a segunda, e sempre sem prejuízo da primeira). Vinho com serradura de Carvalho não é de melhor qualidade que um vinho tradicional envelhecido em cascos de Carvalho, pelo contrário. Lanço aqui um apelo aos produtores de vinho que abusam da serradura: Deixem-se dessas merdas, pá!

* Falando em transgénicos, espero que ninguém tenha a ideia de pôr uma cepa a expressar os genes do casco de Carvalho nas uvas... e daí talvez nem fosse assim tão mau.

sábado, 12 de abril de 2008

...e assim foi criado o logotipo de Pequim 2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

ZP é reeleito com maioria simples

Ufa! Com 169 votos a favor (todos dos socialistas), 158 contra (154 do PP, 3 do ERC e um do UPD) e 23 abstenções (PNV, CiU, IU, ICV, BNG, CC y NaBai), Zapateiro foi reeleito para presidir o governo espanhol por mais 4 anos. O primeiro deputado a felicitar o socialista foi o líder de oposição, Mariano Rajoy (PP). Esta é a segunda vez nos 31 anos da democracia espanhola que se recorre à segunda volta para confirmar o nome do presidente de governo. A primeira vez foi em fevereiro de 1981 (depois da tentativa de golpe militar), quando Calvo Sotelo também não obteve votos necessários na primeira, mas conseguiu maioria absoluta na segunda volta. A Constituição espanhola determina que o candidato deverá obter a maioria absoluta da Câmara na primeira votação. Se não conseguir, deverá esperar por uma segunda 48 horas depois. E foi isso que aconteceu com Zapatero na última quarta-feira.

Paradoxos

Uma aluna no 9° ano em Portugal desrespeita de forma inaceitável a professora numa saula de aula e um colega põe um vídeo no YouTube. Meio mundo mobiliza-se para opinar, nos blogues e nos jornais, sobre a escola, o ensino, os jovens de hoje, etc...

Já há mais de uma semana um movimento de protesto dos alunos do ensino secundário em França mobiliza dezenas de milhares de estudantes, um movimento que parece por enquanto independente de partidos políticos. Os estudante reivindicam - imagine-se - melhores condições de ensino, e preocupam-se em particular - pasme-se - com a redução do número de professores. Isso mesmo, os alunos querem mais professores porque acham que isso melhora a qualidade do ensino. E eu que pensava que esta juventude não tinha respeito nenhum pelos professores. Nem em Portugal, nem em França, ninguém, nos media, parece estar a dar atenção a este movimento de estudantes, apesar a sua dimensão.

Foto roubada aqui.

Maio em Abril

O Colóquio Internacional «Maio '68. Política, Teoria, História» começa hoje e acaba amanhã. Decorre no Instituto Franco-Português (Lx.), numa parceria com o Diplô e o IHC-UNL.
O programa completo vem aqui, deixo-vos com a respectiva apresentação:
«Maio de 1968. Em Paris anuncia-se o início de uma luta prolongada. Quatro décadas depois, este colóquio internacional reúne um conjunto de reputados intelectuais cujas investigações permitiram voltar a olhar para 1968 nas suas mais variadas dimensões. Levando o debate mais além das repetidas alusões ao cariz geracional e estudantil da revolta, mapeando 1968 para lá das fronteiras da França, o colóquio confronta a importância de 1968 na emergência de novas subjectividades políticas, analisa a dimensão de luta de classes que atravessa o período e discute a persistência de Maio’68 nos conflitos políticos contemporâneos.»
Coordenadores:
Bruno Peixe (NÚMENA), Luís Trindade (IHC), José Neves (ICS-UL), Ricardo Noronha (IHC).

Nanni Moretti sobre as eleições italianas de 13 e 14 de Abril

Para quem consegue perceber o italiano, aqui têm o vídeo de uma entrevista de Nanni Moretti sobre as eleições legislativas de domingo e segunda que vem. Moretti apela ao voto no Partido Democrático — o novo partido de Centro-Esquerda herdeiro do governo de Prodi — e dirige-se aos indecisos da esquerda que hesitam em votar em Veltroni (o candidato a primeiro-ministro do PD). A entrevista vale a pena pela análise política e pela denúncia, bem conhecida em Moretti, dos impasses da ética política no espaço público em Itália.

Todas as sondagens dão a maioria à coligação "Popolo della Libertà" liderada (pela quinta vez consecutiva!) por Silvio Berlusconi. Mas o centro-esquerda tem vindo a subir nas intenções de voto e há uma possibilidade forte de que da maioria de direita saia um governo frágil. Resultados de uma lei eleitoral abstrusa, feita por Berlusconi, quando no governo, para impedir a esquerda de ganhar. Talvez venha agora a provar do seu próprio veneno...

Médicos catalães receitarão analgésico a base de cannabis

Apesar de haver indícios de que a cannabis era empregada no tratamento de doenças reumáticas em 2.700 a.C, foi somente no século 19 que ela se transformou em uma das substâncias que a Medicina recorreu como anticonvulsivo, analgésico ou antiemético. Entretanto, o surgimento de fármacos sintéticos, no século passado, e a pressão social e política conseguiram torná-la ilegal para qualquer fim.

O uso terapêutico da cannabis voltou a ganhar força no mundo em abril de 2005, quando o Sativex, primeiro remédio a base de maconha, começou a ser vendido no Canadá, que aprovou o seu uso com restrições. A aprovação foi para o tratamento auxiliar das dores provocadas pela esclerose múltipla. O medicamento foi criado pelo laboratório britânico GW Pharmaceuticals e é distribuído pela Bayer.

As autoridades médicas canadenses permitiram que a GW venda o Sativex como um analgésico sob prescrição médica, mas exigiram que a empresa faça estudos clínicos adicionais do medicamento para confirmar os resultados dos estudos iniciais com a droga até 2.010.

Assim, depois de vários testes clínicos conduzidos pelo Departamento de Saúde do Governo Autônomo da Catalunha, os médicos catalães poderão receitar o Sativex como analgésico aos doentes em estado grave ou crônicos que não consigam alívio com outros medicamentos tradicionais. Apesar da decisão, a venda do Sativex ainda não foi autorizada na Espanha.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Onde Vamos Morar

O Zé Maria e os Artistas Unidos vão estrear mais uma peça. É já amanhã e fica em cena até dia 11 de Maio.
No dia 22 de Abril o José Maria Vieira Mendes irá estar presente para conversar com o público. Eu lá estarei.

A dar barraca

Não sendo Lisboa uma cidade particularmente agradável, sempre melhora por alturas de Maio com a Feira do Livro (e a chegada dos caracóis nas esplanadas). Só que todos os anos, os lisboetas vivem o sobressalto da Feira poder não se realizar.
Desta vez, a discussão está centrada nas barracas (pavilhões para não ofender editores e livreiros): os grandes grupos querem escolher o design das barracas/pavilhões à sua vontade, os pequenos sentem-se complexados. Desconheço se o caso dos «megalómanos X complexados» que tem colocado a Câmara de Lisboa como psicóloga já está resolvido, mas este drama anual tem sempre um toque de ridículo e expõe os grupos profissionais em questão ao descrédito.
Por uma vez podiam estar de acordo e poupar a angústia aos lisboetas.
P.S. - A imagem é do cartaz do ano passado. No site a informação para este ano estará «brevemente disponível».

Madri faz ato de solidariedade aos sequestrados das Farc

A Casa da América de Madri cobriu hoje as janelas da sua fachada com as fotos de 10 reféns em poder das Farc. Este ato de solidariedade foi acompanhado por uma leitura pública de cartas dirigida aos quase 1.000 inocentes que se encontram prisioneiros e submetidos a condições sub-humanas na selva colombiana.

Bush comemora a queda do "Paraíso" com lágrimas de crocodilo

exatos 5 anos (9/4/2003), soldados norte-americanos derrubaram em Bagdá, na praça Al Firdus (por ironia do destino, Al Firdus significa o Paraíso), a estátua de Saddam Hussein. O evento se tornou o símbolo do fim do governo do ex-presidente iraquiano. “Emocionado”, George W. Bush comemora a data com as suas conhecidas lágrimas de crocodilo.

Nb: Fotos da EFE

Daniel Sempre

Na matéria da atitude perante a participação nos jogos olímpicos, concordo muito com o que diz Daniel Cohn-Bendit que sempre me pareceu um político muito lúcido.
"Foutre le bordel" em Pequim, parece-me a postura mais proveitosa na perspectiva duma melhoria das condições de vida dos próprios chineses e dos habitantes do Tibet (e claro da Sousa Pires e irmãos de Vila Nova de Famalicão que iniciou o boicote para lutar contra a concorrência chinesa).
O boicote "simples" não serve para nada. Os outros boicotes (Moscovo e Los Angeles) não mudaram grande coisa. Mas a participação de atletas (alguns deles, apesar dos treinos e dos produtos que devem ingerir, devem ter uma opinião sobre a democracia e os direitos do homem), a presença de centenas de jornalistas, de turistas, etc. na China pode, sim, causar muitos calafrios à ditadura chinesa e quebrar um pouco o ambiente liberticida. Imagino que é de isso que os democratas chineses estão à espera.

E o discurso da autonomia do desporto perante a política, é uma treta. Escolher Pequim foi político. Pequim quis os jogos por razões políticas. E até cá no nosso burgo, o desporto é política. E há muito tempo. Lembra-o o selo que foi sobre o SLB campeão europeu. Lembra-o o uso do Eusébio pelo Estado Novo no tempo das guerras coloniais.

Aqui fica uma parte do discurso do Cohn-Bendit

"Il faut foutre le bordel pendant les jeux olympiques à Pékin"
Discours en séance plénière à propos du comportement de l'UE face à la Chine
26. mars 2008
Le fait que les jeux olympiques aient lieu en Chine est indiscutablement un acte politique et nous ne devrions pas l'ignorer. C'est pourquoi Dany Cohn-Bendit demande de saisir cette occasion pour établir un grand débat sur la démocratie et la situation des droits de l'homme en Chine. Il invite le monde entier- que ce soit les sportifs, les politiques, les journalistes ou le grand public à "foutre le bordel", un désordre promulguant la liberté d'expression, de pensée et d'information, un premier pas vers un régime plus démocratique en Chine. Car c'est seulement en cette liberté que "courir, sauter et nager valent la peine."

Aqui fica o discurso do DCB

terça-feira, 8 de abril de 2008

Hiding in the light



roubado aqui.

Boicotar ou não boicotar?

Em 1968 atletas negros norte-americanos, do Olympic Project for Human Rights, quiseram boicotar os Jogos Olímpicos da cidade do México, em protesto contra a participação da África do Sul do Apartheid e em defesa dos direitos civis nos EUA. O Boicote não se concretizou. Em vez disso, Tommy Smith e John Carlos, membros do OPHM, receberam as suas medalhas com os pés descalços, um punho erguido calçado de uma luva negra e a cabeça baixa. Foi um dos actos de protesto de maior impacto que me consigo lembrar, fizeram mais pelas causas que defendiam do que qualquer boicote.
Imaginem o que seria se Pequim, este ano, fosse invadida por dezenas ou centenas de Tommys Smiths e Johns Carlos.

Emily

Um espectáculo de Gerardo Naumann na Culturgest.
Quinta 10, Sexta 11, Sábado 12 e Domingo 13 de Abril de 2008
21h30 (17h00 dia 13) · Tergom Studio · Duração 1h00 · 12 Euros (Jovens até aos 30 anos: 5 Euros. Preço único)

Olá, sou o Juan, diz o Juan. Esse lápis é do Pedro, diz o Carlos e aponta para um lápis. O que farias se fosses milionário?, pergunta Gabi. Fala-se assim? A Emilia fala assim. Na realidade, todos falam assim. Todo o espectáculo foi escrito a partir de cenas de livros de ensino de línguas. Como se fosse mais importante manter isso do que outra coisa. Como se fosse mais importante voltar a representar o que esses livros fazem, que é representar. E aí está Emilia que vai à escola e diz que quando for grande quer ser bailarina e cantora e um dia se muda para Londres. Ali chama-se Emily. Traduz-se o nome. E a personalidade? Emily cresce mais e mais como os actores quando estão a actuar. Um dia apaixona-se. O amor é um lugar comum ou um terramoto? A sua vida é trágica como em toda a representação. No final, Emily é uma senhora idosa que vai viver para o campo. Muuuu.
Gerardo Naumann

O espectáculo estreou em Lanús, subúrbio de Buenos Aires, na loja de cozinhas e casas de banho Imhotep em Abril de 2006. Integrou a programação do Festival Internacional de Buenos Aires 2007. Em Lisboa decorre na loja de cozinhas e mobiliário Tergom Studio.

Gerardo Naumann trabalha em Buenos Aires. Estudou filosofia e letras na UBA. Encenou e fez a dramaturgia de Cosas (2002, Festival del Rojas). Em 2003 fez a dramaturgia de ¡Sentate! El zoostituto com conceito e encenação de Stefan Kaegi (ciclo Biodrama, Complejo de Buenos Aires). Em 2006 recebeu duas bolsas para o desenvolvimento do guião de longametragem Uruguay. Participou no Theaterforum do Berlinerfestspiele 2007 (sobre teatro político). Deu aulas na Akademi for Scenekunst (Noruega). Está a realizar duas séries documentais em DVcam: Trabajo e Quemado. Publicou textos literários em várias revistas e participou em leituras com outros escritores. Dá um seminário de escrita de argumento na UBA e aulas particulares de dramaturgia e montagem.

Com Marianela Impaglione, Rita Carou, Carolina Guareschi, Diego Jalfen, Eusebio Fava
Conceito, encenação e dramaturgia Gerardo Naumann (versões de diálogos/cenas de livros de ensino de línguas)
Assistência de encenação Natalia Barry
Espaço Gerardo Naumann e Catalina León
Movimento Leticia Mazur
Arte electrónica Martín Fernández
Espectáculo falado em castelhano (com legendas) e inglês
*texto da Culturgest

Sem vintém

E foi esta canção que, por momentos, me animou o dia.
P.S. - Uma vez no site da Ala dos Namorados, é preciso clicar em media.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Beijo na boca, um fenômeno também ecológico? Para os espanhóis, sim.

Segundo a Filematologia (como se pode ver, beijar é uma questão de ciência), o beijo na boca é uma injeção de energia, capaz de fortalecer o sistema imunológico e diminuir o estresse urbano do dia-a-dia, o que o torna extremamente saudável. Investigações realizadas nos EUA comprovaram, por exemplo, que casais que se beijam na boca ao amanhecer (depois de lavar a boca, é claro) têm mais êxito na carreira profissional, provocam menos acidentes e raramente vão ao médico. Em outras palavras, além de facilitar a mobilidade social, ele poderá contribuir com o Estado na economia com gastos com saúde públicabem melhor que pagar impostos, pois não?). O beijo na boca movimenta 12 músculos dos lábios e 17 da língua e transmite apenas 250 tipos de bactérias e vírus (que a ASAE não saiba disto). Sem pânico, pois ao falar pelo telemóvel ficamos expostos ao ataque de mais de mil bichinhos bem mais sanguinários e ninguém deixa de se comunicar por isso. Ou seja, além de fazer bem à saúde econômica do poder público, ele contribui para a saúde física e mental de seus praticantes mais fervorosos. Além desses benefícios, os espanhóis (ah, esses espanhóis que, ao contrário do que se pensa, não vivem de touradas e do "El Baile del Chiki Chiki", hostias) descobriram também que o beijo na boca é ecologicamente correto, porque a energia que se consome é facilmente renovável. E para tato criaram a Festa do Beijo.

Veja aqui o vídeo da festa espanhola (Media Player).

domingo, 6 de abril de 2008

Labirinto de máscaras

No blog Provas de Contacto, João Lisboa escreveu um post fantástico sobre o mais recente filme de Todd Haynes, I'm Not There.

sábado, 5 de abril de 2008

Os Inúteis

Foi recentemente e em DVD que descobri I Vitelloni/Os Inúteis (parece que no Brasil o título é Os Boas Vidas) de Fellini. O filme data de 1953, do início da carreira do mestre italiano, que com ele ganhou um prémio no Festival de Veneza. Passa um pouco despercebido numa filmografia em que brilham obras primas: La Dolce Vita, Fellini 8 ½, Amarcord, etc. Mas é um grande filme, onde a memória do neo-realismo se mistura com o humor anárquico e a liberdade do olhar de Fellini.
Em Os Inúteis não há um argumento sólido ou tese visível – a narrativa vai construindo-se em volta de cinco personagens, das histórias e da inacção de cinco homens com trinta e tal anos, que vivem em casa dos pais, numa pequena vila italiana, e passam o tempo em festas, errâncias, seduções e quimeras. O líder do grupo, Fausto, engravida a namorada, é obrigado a casar e arranja um emprego medíocre que não tarda a perder. É uma história que não faz sentido nos dias de hoje. Ao mesmo tempo, a ideia de uma adolescência que se prolonga até ao absurdo, a inquietação, a dificuldade de levar uma vida a sério e satisfatória, parecem bem actuais. São os paradoxos da aldeia global, que tanto abre horizontes inconcebíveis numa pequena povoação dos anos 50, como recria condições de dependência e fragilidade social, psicológica, económica que não constavam dos sonhos modernos das cidades do futuro. I Vitelloni é um filme a redescobrir.

Os soldados não gostam de planícies VII

A Library of Congress está a desenvolver um projecto intitulado The Veterans History Project, cuja finalidade é recolher e arquivar todo o tipo de items (histórias, memórias, fotografias, cartas, diários, mapas, filmes, etc..) que se relacionem com veteranos de guerra americanos.
Para quando cá?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

40 acres e uma mula. 40 anos de um crime

Quando a escravatura foi abolida nos EUA foi prometido a cada escravo libertado, como compensação, 40 acres de terra e uma mula. A promessa chegou mesmo a ser posta em prática. Logo após o assassinato de Abraham Lincoln (1865) a medida foi revogada, e a terra retirada aos negros que já a tinham recebido. Não foi atribuída qualquer outra compensação aos antigos escravos.

Faz hoje quarenta anos que Martin Luther King Jr. foi assassinado (1968), em Memphis.

(des)acordo ortográfico

Excelente texto que reflecte e não reflete sobre o acordo ortográfico.
O que pensas, Manolo?

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Será só mais uma teoria da conspiração?

Ao que tudo indica, o que até agora era uma teoria conspiratória começa a ganhar corpo e credibilidade. O zunzunzum que corre à boca pequena pelos lados da gringolândia é de que milhares de republicanos e independentes estão se registrando no Partido Democrata na Pensilvânia e outros estados. O objetivo seria votar na senhora Clinton, supostamente mais fácil de ser derrotada em novembro do que Obama. A idéia repugnante partiu de Rush Limbaugh, que tem o programa de rádio mais popular dos Estados Unidos, e conquista outros radialistas de direita. Vamos ver.

Do uso da lógica II (para uma (re) leitura do excelente post do Zèd)


Do uso da Lógica

Há de facto uma curiosa coincidência entre o pensamento reaccionário e o uso bárbaro das regras do raciocínio e da lógica.

Pego na frase certeira de Miguel Vale de Almeida, retirada de um post todo ele excelente. Pensava eu, na minha inocência, que um dos pilares do adquirido civilizacional do ocidente (o tal que está ameaçado de morte pelo relativismo), era o uso da razão, herdado do iluminismo, particularmente de Descartes, isto para não ir mais atrás, até à Grécia antiga.
O uso da razão, tal como é concebido actualmente no nosso contexto particular de mundo ocidental, é indissociável das ciências empíricas e da lógica. É baseado numa observação tão objectiva quanto possível da realidade, e de um tratamento lógico da informação recolhida. Ora aí está uma das coisas mais importantes que aprendi na escola, que se aprende ainda hoje na escola, e que ouso dizer se aprende melhor hoje na escola do que há 40 ou 50 anos (falando particularmente da escola em Portugal). E quando aprendi na escola a lógica formal ficaram-me dois símbolos no espírito que nunca mais saíram: ∃ (quantificador existencial) e ∀ (quantificador universal), o primeiro quer dizer "existe pelo menos um" e o segundo "é verdade para todos". Escusado será dizer que são dois conceitos completamente diferentes, diria mesmo opostos. Por exemplo (escolhido completamente ao acaso): Se visionarmos uma aluna no YouTube a degladiar-se com uma professora por um telemóvel concluímos que ∃"aluna que luta com professora por telemóvel". Se escrevermos um texto inteiro, com base nesse acontecimento, a discutir o estado actual da educação no país, a escola, esta juventude de hoje em dia que já não é como antigamente, etc..., estamos a partir do pressuposto que ∀"aluna que luta com professora por telemóvel". ISTO É OBJECTIVAMENTE UM ERRO DE LÓGICA!
É um erro de lógica, que muita gente ainda comete (como se pôde ver nos últimos dias, semanas, meses, anos, desde sempre). Aqueles que andam para aí a bradar contra tudo e todos, anunciando o fim do mundo, sem o mínimo respeito das regras básicas da lógica, a tal nebulosa reaccionária, afinal ou não aprenderam nada na escola, ou a escola no tempo deles não ensinava tão bem quanto nos querem fazer pensar.

P.S. - Outro exemplo de utilidade prática para quem lê jornais: se ocorreu um crime violento quer dizer ∃"crime violento", falar em onda de criminalidade é mais ∀"crime violento", mais ainda se o crime for cometido por um negro ou um cigano quer dizer que ∃"negro ou cigano que comete crime" não quer dizer que ∀"crimes são cometidos por negros e ciganos" muito menos quer dizer ∀"ciganos e negros são criminosos" (curiosamente quando um crime é cometido por um branco, i.e. ∃"branco que comete crime", a mensagem que passa é ∃"alguém que comete crime", o que nos levaria a outro pressuposto da lógica: a coerência).
É uma questão de lógica, e de aplicar no quotidiano as (poucas) coisas realmente importantes que se aprende na escola.

terça-feira, 1 de abril de 2008

E como a maré é bíblica

A notícia que nos claustros da Sé Velha de Coimbra vai surgir um pequeno jardim bíblico. O projecto será feito em colaboração com a Universidade.
E o livro A Bíblia contada pelos sabores, editado pela Assírio & Alvim. Com um interessante prefácio de José Tolentino Mendonça, as receitas são apresentadas por Albano Lourenço, Chef na Quinta das Lágrimas (mesmo perto do jardim bíblico).
Só duas receitas, para não nos cair nenhum meteorito em cima:
Cabra em vinho e mel (Antigo Testamento)
1, 2 kg de cabra; 5 folhas de louro; 3 cebolas; 1 cabeça de alho; sal q.b.; 2 litros de vinho tinto; 4 colheres de sopa de mel; azeite q.b.; salsa q.b.
Corte a cabra em pedaços e marine os restantes ingredientes durante pelo menos 2 horas. Leve a lume brando até cozinhar completamente, o que pode levar algumas horas. Sirva com caldo.
Figos com queijo e azeite (Antigo Testamento)
500 g de figos frescos; 360 g de queijo de cabra; 240 g de melão; azeite q.b.; grãos de mostarda q.b.; 12 folhas, ramos de levístico
Corte os figos em gomos. Corte fatias de melão muito finas e disponha-as em forma de rosas. Corte o queijo de cabra em rodelas. Salteie a mostarda em grão sem gordura, numa frigideira quente. Componha o prato e decore com levístico.

Meteorito põe fim à festa de Sodoma e Gomorra

Segundo a Bíblia, foi a ira de Deus que acabou com a festa de Sodoma e Gomorra como vingança aos atos imorais praticados nas cidades. Nada disso. Pra variar, ela está errada. Utilizando técnicas computadorizadas que simulam a trajetória de objetos celestes e reconstroem o céu observadomilhares de anos, investigadores britânicos da Universidade de Bristol conseguiram decifrar as inscrições cuneiformes de um bloco de argila datado de 700 a.C. e descobriram que foi a queda de um meteorito desavisado e mal-humorado o responsável pela destruição das cidades. E vão mais além, pois datam o fenômeno com muita precisão: na noite de 29 de junho de 3123 a. C. Mais informações aqui.

Adendo:O Zéd enriquece o post ao fornecer link com mais informações diretas da fonte.