terça-feira, 8 de abril de 2008

Boicotar ou não boicotar?

Em 1968 atletas negros norte-americanos, do Olympic Project for Human Rights, quiseram boicotar os Jogos Olímpicos da cidade do México, em protesto contra a participação da África do Sul do Apartheid e em defesa dos direitos civis nos EUA. O Boicote não se concretizou. Em vez disso, Tommy Smith e John Carlos, membros do OPHM, receberam as suas medalhas com os pés descalços, um punho erguido calçado de uma luva negra e a cabeça baixa. Foi um dos actos de protesto de maior impacto que me consigo lembrar, fizeram mais pelas causas que defendiam do que qualquer boicote.
Imaginem o que seria se Pequim, este ano, fosse invadida por dezenas ou centenas de Tommys Smiths e Johns Carlos.

8 comments:

vallera disse...

semi boicotar. Afinal os atletas não têm culpa, e andam a treinar e a ingerir substâncias dopantes há anos, só para esta competição.

xatoo disse...

Deixemo-nos de hipocrisias, a verdadeira razão do "boicote" é esta: "por cada hora a Europa perde 45 milhões de euros que vão parar à China" segundo diz Orlando Lopes da Cunha, o presidente da Associação do Têxtil - assim sendo, já nos esquecemos de quem foi a ideia de subcontratar em regime de outsourcing à China a maior parte daquilo que se consome no Ocidente?

Manolo Piriz disse...

depois desse episódio, eles foram expulsos da delegação americana (por determinação do COI) e retornaram aos EUA como párias, acusados de introduzir a política no olimpismo. só que a política faz parte dos Jogos deste 1936, em Berlim, quando todos os atletas alemães fizeram a saudação nazista e ninguém contestou.
agora, sobe o boicote, acredito que o interesse econômico falará mais alto.

Zèd disse...

Xatoo, o que mais se vê é industriais do têxtil nas ruas de Paris e Londres a protestar contra a chama olímpica. A questão económica funciona ao contrário, é pelo poderio económico e político que a China conseguiu a organização dos JO, e que os políticos ocidentais não ousam afrontar a China, e têm inclusivamente a polícia francesa a proteger a chama olímpica a mando dos ditames chineses. E mesmo que haja uma questão económica, em que é que isso nos impede de falar de direitos humanos? Onde é que está a hipocrisia? Quem defende os direitos humanos deve ficar calado porque há outros que defendem os seus interesses económicos?

Manolo, é verdade que eles Smith e Carlos foram banidos dos JO, e foram tratados como párias por alguns, mas como heróis por outros. De qualquer modo a acção teve imenso impacto, e ainda hoje 40 anos depois, são activistas cívicos empenhados, respeitados, e receberam já várias homenagens. Nada como deixar passar um tempo para avaliar os actos de cada um.

Sim Vallera, os atletas não têm culpa e não se devem sacrificar. Mas podem fazer qualquer coisa se acharem por bem.

xatoo disse...

Zed
O vício de analisar parte por parte sem atender ao todo:
a estrutura macro-económica determina e sustenta todas as opções politicas, tanto local como globalmente.
Mas concentre-se na minha pergunta (para ver se descobre quem está por trás da decisão do boicote): de quem foi a ideia de subcontratar em regime de outsourcing à China a maior parte daquilo que se consome no Ocidente?
(eu dou-lhe uma pista: google aí "Nixon in China")
e porque seria que a desregulamentação monetária que pôs fim a Bretton Woods foi feita justamente nesse momento?
quem ganha com isso?

kermit disse...

Não faltará tecnologia para ocultar os protestos. Os novos activistas terão que ser ainda mais audazes e imaginativos.

Zèd disse...

Xatoo,
OK o Ocidente subcontratou em regime de outsourcing à China parte daquilo que consome. Daí se conclui que os atletas que quiserem protestar em favor dos direitos humanos são hipócritas. Confesso que não percebo essa lógica. Que se deve fazer então? Nada? Ir aos JO de Pequim e assobiar para o lado como se nada fosse?

xatoo disse...

"que fazer?" já foi a famosa pergunta feita pelo outro. Não faço a menor ideia. Não sou chinês, nem americano; não fui ouvido nem achado para a tomada das decisões que referi.
Agora o que sei é que devemos fazer um esforço para entender que a hipócrita palhaçada bushista encomendada à CIA não tem nada a ver com o espirito dos Jogos Olimpicos