domingo, 6 de janeiro de 2008

Call Girl

Os filmes de António-Pedro Vasconcelos valem sempre a pena ser vistos e Call Girl não é excepção. O realizador/argumentista capta muito bem uma essência portuguesa, e, se é verdade, que o filme apresenta um ritmo e uma trama mais americanizada, também é certo que só podia ser português na sua ambiguidade entre as repartições, em que as personagens vivem (e o que pode haver de mais português que uma repartição?) e as pulsões que sentem, sempre de um glamour meio canhestro.
Call Girl é igualmente uma revisitação de O lugar do morto (1984), com o jornalismo substituído pela política e uma Lisboa mais modernaça, mas pela mesma estrada do Guincho desfilam a femme fatale e o seu tolo apaixonado (se Soraia Chaves e Ana Zanatti estão exactamente à mesma altura do conceito é que já é outro assunto…), num enredo policial bem conseguido e entrecortado por excelentes tiradas.
O elenco muito bem escolhido, conta excelentes pequenas aparições: a de Raul Solnado, como velho comunista de uma perspicácia alienada, a de Virgílio Castelo numa impecável personificação de José Sócrates, o político dos nossos tempos e a do próprio realizador à la Hitchcock.
As falhas do filme residem, como de costume, no som, pelo que por vezes, se torna complicado perceber o que as personagem dizem e na direcção artística que insiste em espalhar os mesmo livros das Selecções do Reader’s Digest por cenários diferentes, em caracterizar restaurantes populares com cartazes do Benfica e ambientes «cosmopolitas» com posters de Nova Iorque.
Há muito tempo que não sentia o público interagir tanto com um filme, a reagir às graças, a tentar identificar os locais das filmagens, a apreciar o trabalho dos actores e, também, a emitir expressões de choque perante cenas muito vagamente homossexuais, já depois de terem visto, sem qualquer interjeição, várias fantasias sexuais e ouvido um infindável número de palavrões… e não é, afinal, um filme sobre uma certa essência portuguesa?

2 comments:

Anónimo disse...

Não irei vê-lo nem com uma pistola apontada à minha pessoa...não me merece qualquer tipo de curiosidade, pelo contrário, afugenta-me!
Ana azevedo.

fili disse...

eu, pelo contrário, agora vou ver. talvez consiga descortinar essas coisas todas, sofia.