quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Não é só Carnaval. É arte acima de tudo.


O Carnaval brasileiro tem sua origem no Entrudo português, onde, entre os s
éculos 15 e 16, as pessoas encontraram uma maneira muito estranha de se divertirem. Depois de se empanturrarem de comida e bebida, jogavam umas nas outras água, ovos e farinha. Os mais agressivos e de mentes diabólicas, no entanto, iam mais além: injetavam no interior de laranjas e limões substâncias mau-cheirosas e as utilizavam como verdadeiro arsenal de “guerracontra os mais incautos. E foi exatamente este Entrudo, com influência das festas carnavalescas da Itália e França, que desembarcou em Terras Brasilis quase dois séculos depois.

No final do século 19 e início do 20, começam aparecer no Brasil os primeiros blocos carnavalescos [1], cordões [2] e os corsos. Este último se tornou mais popular em 1907 e foi o que deu origem aos carros alegóricos dos desfiles de Carnaval. Ao contrário dos componentes dos blocos e cordões, os participantes dos corsos eram da elite econômica carioca que desfilavam em seus automóveis jogando confetes, serpentinas e esguichadas de lança-perfume (proibido na década de 1960 por ser considerado entorpecente) nos pobres mortais, que tinham como única diversão o direito de serem meros espectadores das excentricidades burguesas da época. Foi justamente deste contraste que nasce a primeira Escola de Samba [3], criada pelo sambista carioca Ismael Silva (1905 - 1978), em 1928 – a Deixa Falar, que anos mais tarde leva o nome de Estácio de Sá. A partir dai, o Carnaval de rua brasileiro começa a ter um novo formato. Surgem novas escolas no Rio de Janeiro e em São Paulo. E é este o tema de meu post. O desfile das Escolas de Samba, não como um evento festivo, mas, acima de tudo, como manifestação artística, criada a partir da cultura popular.

Ao contrário do mau gosto e aquela coisa caótica que é o Carnaval brasileiro, o desfile das Escolas de Samba é o resultado final da eficiência, da organização e da disciplina. É, sobretudo, a maravilhosa fusão de diferentes linguagens artísticas, o que lheum conceito estético bem peculiar. O desfile das Escolas de Samba se apóia no enredo e seus temas são dramatizados pelos integrantes das alas através da música (samba-enredo), dança (sambistas e passistas [4]), fantasia e carros alegóricos. Bateria, samba-enredo e harmonia são quesitos essencialmente musicais. Alegoria, fantasia e adereço pertencem à estética visual. Em outras palavras, a amálgama de todos estes elementos artísticos dão forma a um imenso teatro-visual surrealista a céu aberto. Por ser mais perceptível, o componente visual ganhou muita força no decorrer dos anos, dando à figura do carnavalesco [5] papel de relevante importância na hierarquia da escola.

Na realidade, o desfile das Escolas de Samba é uma expressão plástica tanto para quem assiste como para quem dele participa. É um turbilhão de símbolos, formas, cores e sons, que deixa fluir harmoniosamente em nosso intelecto e retinas o imaginário e o real, onde os sambistas tornam-se verdadeiras esculturas-vivas, que bailam ao ritmo da sedução e do encanto, dando aos seus corpos um intenso movimento de elegância, provocação e rara beleza. Em suma, a matéria-prima desta arte não é a tela e as tintas do pintor, nem o barro e o metal do escultor ou a palavra do poeta. A sua matéria-prima é essencialmente o ser humano. O ser humano metamórfico e efêmero que viverá em pleno êxtase por apenas 80 minutos. Depois disso, ele se desfaz.

Para entender o que é avaliado num desfile

Bateria - A bateria sustenta com sua marcação a cadência indispensável ao desenvolvimento do samba, do canto e da evolução. Cada bateria possui identidade própria e liberdade quanto ao ritmo e a distribuição dos instrumentos. Veja aqui os principais instrumentos de uma bateria, que poderá ter até 400 ritmistas. Aqui vai um vídeo.

Harmonia Harmonia em desfile de Escola de Samba é o entrosamento entre o ritmo (bateria), a melodia (canto) e a dança.

Samba-enredo - É a ilustração poético-melódica do enredo. Sua letra se refere ao enredo apresentado pela escola. Deve, portanto, haver compatibilidade entre o tema e a letra do samba. O samba-enredo possui estilo característico e versejar próprio e não deverá ser julgado como composição erudita, mas como expressão de linguagem popular. Ouça aqui um áudio.

Evolução - Aqui reside o ponto alto do conjunto e seus movimentos de dança. Devem ser observados em sua avaliação o vigor, a empolgação, a vibração, a agilidade, a precisão, a espontaneidade, a elegância e a criatividade dos sambistas das alas, que em movimentos progressivos e contínuos, produzirão a beleza do conjunto do desfile, garantindo sua unidade.

Mestre-sala e porta-bandeiraO mestre-sala e porta-bandeira têm a honra de conduzir a bandeira, o símbolo maior da agremiação. A função do mestre-sala é cortejar a porta-bandeira durante toda a apresentação, através de gestos e posturas elegantes que demonstrem a reverência a sua dama, respeitando e protegendo o pavilhão. O casal apresenta uma dança com passos e características básicas próprias, que vem sendo enriquecida em seus maneios e mesuras, através do tema.

Enredo - Enredo é o tema central de um desfile. Pode-se compará-lo a um roteiro de cinema ou teatro. A Escola de Samba desenvolve e transmite o seu enredo através de seus elementos dramáticos, musicais e visuais. A criatividade é um fator de fundamental importância neste quesito. E o tema pode ser o mais variado possível: histórico, folclórico, político, abstrato e tudo mais que a nossa imaginação permitir.

Fantasia - As fantasias devem retratar a época se o enredo girar em torno de acontecimentos históricos, ou os elementos tradicionais, regionais e etc... de acordo com o tema. O critério mais importante a ser observado neste quesito é o perfeito entrosamento ao tema e ao enredo propostos, não importando o material a ser usado e sim a criatividade, a originalidade, a graça e o belo.

Alegorias e adereços As alegorias são elementos cenográficos sobre rodas (os carros alegóricos) e os adereços são objetos carregados pelos sambistas. São recursos que devem contribuir para um melhor esclarecimento e leitura do tema, assim como as fantasias, com as quais devem estar integradas.

Comissão de frente A comissão de frente é um dos elementos tradicionais das escolas. Ela saúda os assistentes em nome da diretoria, dos componentes e pede passagem para a agremiação.

* Na média, uma Escola de Samba desfila com quatro mil componentes, dividida em 28 alas e seis carros alegóricos.
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[1] Grupo de foliões que durante o Carnaval dançam e cantam nas ruas ao som de bateria.
[2] Grupo de carnavalescos que saem juntos e muitas vezes com a mesma indumentária ou fantasia.
[3] Foi baseado na estrutura da Escola Normal Estácio de Sá (bairro do Rio de Janeiro) que um grupo de malandros cariocas criou o nome Escola de Samba. O compositor Ismael Silva, primeiro a usar o termo, dizia que esta é a verdadeira origem e que a expressão foi adotada por causa dos professores da escola. “Se havia uma escola com professores e normalistas, por que não poderia haver também outra de samba, com seus mestres de samba e alunos?”
[4] Pessoa que dança o samba com muita, técnica, agilidade e graça, destacando-se do conjunto dos sambistas das Escolas de Samba.
[5]
Geralmente um profissional de artes plásticas ou cenografia responsável pela concepção e desenvolvimento do enredo a ser apresentado, assim como a concepção, desenvolvimento e construção das alegorias e fantasias relacionadas ao enredo proposto.

Nb: Bem, como sou bem passional e nem um pouco imparcial com as coisas do futebol e Carnaval, as fotos (de Henrique Matos), vídeo e áudio aqui postados são da minha escola de coração: a Mocidade Independente de Padre Miguel. A única concessão feita foi a Ismael Silva. Assim, saravá, Mestre André (in memoriam). É a nossa bateria Nota 10 pedindo passagem.


10 comments:

samuel disse...

Se o carnaval fosse a única coisa que foi daqui para o Brasil e que os brasileiros e brasileiras se encarregaram de tornar bem mais interessante...

Zèd disse...

E eis que o Manolo regressa em grande forma. Terão sido as férias que serviram de repouso ou o Carnaval é inspirador?

Daniel Melo disse...

Viva o grande sambista Manolo (ou será passista?)!!
Excelente texto aqui para os enregelados dos nativos europeus, de fazer inveja...
Será que é desta que a Escola do Padre Miguel vence no sambódromo?
Bons preparativos, então,
Daniel.

PS: há uns anos atrás, escrevi um texto em que comparei o desfile das escolas de samba com as marchas populares de Lisboa, sobretudo em contexto ditatorial. Deu-me algum gozo, pois ainda ninguém tinha feito e ninguém acreditava que fosse possível fazer comparações de coisas que parecem tão longínquas. E não é que deu certo?

Manolo Piriz disse...

Olá, Samuel.

há coisas interessantes dos dois lados do atlântico.

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salve, salve Zèd.

o inspirador é o carnaval, pois um mês foi muito pouco pra desanuviar a cabeça depois de um ano turbulento. acho que preciso de mais um mês pra me recuperar. com certeza Paul Lafargue não se oporia

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Salve, salve Daniel.

não é loucura não. é plenamente possível o encontro da av. liberdade com av. marquês de sapucaí (sambódromo) e do pagão com o religioso. há coisas comuns entre as marchas populares de Lisboa e o desfile das escolas de samba do Rio, pois ambas têm basicamente os mesmos elementos: cênico, visual, poético e musical, frutos da cultura popular urbana. também têm a mesma idade, nasceram em 1932 (ano do primeiro desfile no Rio). o que desafinou neste "enredo" todo foi salazar de um lado e getúlio vargas do outro, ambos fascinados por mussolini.

já sobre ser sambista ou passista, digo que não sou nem uma coisa nem outra. sou o que por estas bandas chamam de "sambeiro", mas espero que a Mocidade desencante neste carnaval e saia de um jejum de 11 anos. Ufa! cá ficarei na torcida.

Sofia Rodrigues disse...

Grande post sobre o Carnaval que ainda hoje tentei festejar debaixo de um frio de rachar.

Manolo Piriz disse...

Oi, Sofia.

obrigado. agora, para que o frio não interfira na tua farra profana, dou-te um bom conselho (se me permitires, é claro): encare uns bons copos dum destilado que melhor te apetecer. de duas uma: ou o tal líquido dos deuses te aquecerá ou te dará coragem pra desafiar esse tal friozinho. tim-tim

José Reis Santos disse...

Manolo,
Excelente texto. Tão ewxcelente que o vou republicar no «Loja de Ideias».
Aquele abraço Daniel, deixaste-me curioso com o teu texto onde comparavas o carnaval às marchas... (está publicado?)

Manolo Piriz disse...

obrigado pelo elogio, José Reis. e também não tenho dúvidas que o post está em excelente companhia. já sobre o texto das Marchas, também cá estou curiosíssimo. Daniel, se não for inconveniente pra ti, que tal nos brindar com ele, hein?!

Daniel Melo disse...

José e Manolo, para já brindo-vos com a referência bibliográfica:
“Os desfiles das nações”, História, ano XXV, III série, n.º 57, Junho de 2003, Lisboa, História – Publicações e Conteúdos Multimédia, p. 50-57.
Se, por acaso, não tiverdes este n.º, posso enviar-vos uma cópia.

Manolo Piriz disse...

Olha, Daniel, não conseguirei encontrar esta publicação em terras tupiniquins. se me mandares o texto por email, ficarei agradecido.