sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Não percebo nada do que dizem os cientistas, nem quero, prefiro acreditar no que me diz a minha ignorância, afinal sou juíz do STJ, eu é que sei!

Pois é Ana, é de facto muito grave. Claro que os juízes não têm que ser competentes para avaliar determinadas questões técnicas/científicas, para isso há pareceres técnicos e especialistas. O que o juízes têm é obrigação de tomar decisões racionais. Rejeitar a opinião de especialistas quando não se tem competência na matéria manifestamente não é racional, e tem um nome: Preconceito.
É preciso também que os especialistas percebam que (infelizmente) excesso de honestidade intelectual é contraproducente. Claro que pode dizer-se que existe uma possibilidade teórica de uma gota de sangue dar numa de MacGyver e ir infectar uma mucosa ferida de um cliente, mas não há registos de que semelhante coisa tenha alguma vez acontecido. Por vezes as possibilidades teóricas, são apenas isso mesmo, teóricas. Também existe uma possibilidade teórica do novo acelerador de partículas do CERN se transformar num buraco negro e engolir o sistema solar. Também existe um possibilidade teórica de um relâmpago sair do céu azul que vejo da minha janela acertar-me em cheio na cabeça antes de eu publicar este post. Das três, a última é seguramente a mais provável, e mesmo assim pouco. Acontece que muita gente, e pelos vistos juízes do STJ incluídos, não percebe a diferença entre plausível, possível, improvável e impossível. Só existem os dois extremos, a realidade só é compreensível a preto e branco. Só são aceitáveis certezas acabadas. E com gente como esta a aversão que os cientistas têm à palavra "impossível" (ou à "certeza absoluta") torna-se um empecilho. É triste mas é assim mesmo.

3 comments:

Ana Matos Pires disse...

Muito, muito triste, Zèd.
Um abraço,
ana

Opus Night disse...

É uma vergonha, sim. E que faz perder completamente o respeito pelas Instituições que deviam zelar pelos nossos direitos. Por mais pormenores técnicos que rondem este problema, ele continuou a ser possível. Quero dizer, se o Supremo Tribunal não pôde contestar o que tinha sido dado como provado (erradamente) na primeira instância, então de que serve recorrer ao Supremo Tribunal? Mais vale guardar os euros do recurso e ir a Fátima rezar por um milagre. O resultado é o mesmo.

Zèd disse...

Concordo inteiramente. Um Supremo Tribunal deveria servir para corrigir os erros das instâncias inferiores, sejam eles quais forem. O recurso é afinal uma fraude.
Também tenho dúvidas que se possa considerar um hipotético risco, de uma potencial contaminação de um eventual cliente como matéria de facto. Matéria de facto é que há uma pessoa infectada com o HIV que foi despedida pelos seu empregador. O resto é, ou devia ser, interpretação jurídica (envolvendo questões técnico-científicas).