segunda-feira, 16 de julho de 2007

Lisboa ficou a ganhar

Olhando a quente para os resultados destas eleições, Lisboa ficou a ganhar (ao contrário do que disse Carmona em tom demagógico). Neste caso, por a esquerda estar melhor representada, é inegável.
Costa subiu a votação de Carrilho, mas não muito, c.3%, obtendo apenas mais um vereador. Para quem foi levado ao colo como edil pré-ungido, dá que pensar, não é? No seu discurso inicial, Costa começou a elencar o que iria fazer. Na tal lista omitiu-se o que causa maior gula a certos interesses: os controversos projectos urbanísticos atrás do biombo... Todavia, a cidade tem agora melhor capacidade de fiscalização, valha-nos isso. Costa deu ainda a entender que iria governar sem coligações pós-eleitorais. É melhor assim. Esperemos só que não se alie a Carmona (ou a Negrão) para fazer passar certas medidas… É que também consegue ter maioria à esquerda, com Roseta, Ruben e/ou Sá Fernandes. A ver vamos.
Para os liberais portugueses que tanto gostam de se mostrar apologistas do checks and balances, não se percebe a sua repulsa face à actuação de Sá Fernandes nestes 2 últimos anos e, prevê-se, de Roseta. É que isso é o coração da democracia no modelo anglo-saxónico. Enfim, idiossincrasias.
Roseta consegue ficar em 4.º lugar (com uns bons 10%) e obter 2 vereadores, logo atrás dos PSD’s, o mendista e o populista, o que é um feito. Fez o melhor discurso de hoje: abertura, responsabilidade e esperança.
Ruben e o PCP seguraram os 2 vereadores, mas descem. Julgo que, em parte, por culpa própria: quem era o 3.º candidato a vereador do PCP, alguém se lembra? Pois é.
O que é extensivo ao Bloco de Esquerda, aqui ainda mais flagrante. É que o BE só tinha um vereador, devia ter apresentado com mais força o 2.º. Fica a perder o BE, a esquerda e Lisboa, pois um 2.º vereador do BE (Pedro Soares, salvo erro) teria todas as condições para diversificar e aprofundar uma intervenção que teve de se ater em demasia, por força das circunstâncias, à questão da fiscalização nestes 2 anos, prejudicando um maior trabalho de contacto junto das comunidades e associações e de divulgação e debate das propostas concretas incluídas no seu extenso e alternativo programa político.
Nos 2 anos que medeiam até às próximas eleições autárquicas, haverá tempo para ponderar consensos programáticos e para trabalhar melhor as eventuais pontes à esquerda. Isto tanto no caso do mandato de Costa decorrer bem, como no caso de haver um balanço insuficiente e, portanto, de se revelar necessário uma coligação (pré ou pós-eleitoral) da restante esquerda.
Resta Marques Mendes, que marcou uns pontos: falou bem, com correcção e acerto, ao convocar um encontro extraordinário para clarificar se o seu partido lhe mantém a confiança política.
Para o fim, o melhor pedaço: vejam o post em baixo…

domingo, 15 de julho de 2007

Obrigado, lisboetas do Alandroal e Cabeceiras de Basto…

Já na recta final dos discursos pós-eleitorais, eis que o nosso PM assoma à varanda do Lux, perdão, do Hotel Altis, para dizer o seguinte:
[resumindo, e no tom m-a-r-t-e-l-a-d-o que pretensamente dá postura estatista] «Esta é uma grande vitória do Partido Socialista» (aludindo a um score de 29,5%, ou seja, o seu ex-braço direito teve apenas mais 3% do que o ostracizado Carrilho), «agradeço ao povo presente de Lisboa o vosso apoio entusiástico», etc. e tal. Péra aí. Parem a projecção. Quem era o vibrante povo lisboeta presente? Bom, meia dúzia de gatos pingados, onde talvez figurasse o porteiro do Largo do Rato… Já expilico melhor.
A seguir vem Costa, no seu segundo discurso da noite:
«Obrigado, lisboetas, pela vossa confiança». Muito poético, lindo de morrer, mas vamos lá verificar: quem eram os 43 figurantes desamparados no alcatrão desolador defronte ao Hotel Altis? Resposta [segundo as tv's]: apoiantes do PS oriundos das metrópoles minhota de Cabeceiras de Basto e alentejana do Alandroal, que vieram de camioneta em romaria até à capital, aproveitando para gozar um tour turístico e um bem fornecido repasto, ora bem!
É caso para dizer: então e a malta cá do burgo, não tem direito a nada? Tá mal!

Poesia por Lisboa

"Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
[...]
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma”

Excerto de "Lisbon Revisited (1926)", in Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos




(Imagem: Teresa Teixeira)

Outra vez te desejo – Desassossego e sonho e tudo.


Vinhos da margem esquerda


Actualmente proliferam dezenas de vinhos alentejanos produzidos por um sem número de herdades e quintas. Algumas estão na moda e começam a ter alguma visibilidade internacional, o caso mais conhecido é, sem dúvida, a Herdade do Esporão. No sector cooperativo a dinâmica tem sido impressionante destacando-se as de Borba, Reguengos de Monsaraz e Vidigueira. Mas não é sobre nenhum destes vinhos que vou aqui falar. Das oito zonas vitivinícolas do Alentejo existem duas que se localizam na margem esquerda (pois claro!) do Guadiana: Granja/Amareleja e Moura. São terras quentes e duras, marcadas por um relevo irregular que contraria a monotonia da planície da outra margem: a direita. São por isso vinhos fortes (13, 14 graus) e muito encorpados, que cruzam duas castas que aprecio particularmente: trincadeira e periquita. Não é vinho para se beber todos os dias e aconselha-se para acompanhar repastos prolongados, daqueles que perduram pela tarde e acabam ao final do dia envolto, se possível, por umas belas polifonias improvisadas. Gostaria de destacar a Casa Agrícola Santos Jorge que produz o vinho mais corrente Morgado da Canita vendido a um preço em conta (menos de 5 euros) e os mais apurados Santos Jorge Reserva e Colheita Seleccionada (que são um pouco mais caros). Para um dia eleitoral como o de hoje, recomenda-se uma digestão lenta e calma ao sabor destes apurados néctares que devagarinho vão abrindo os aromas únicos provenientes da outra margem (a que fica do lado esquerdo).

sábado, 14 de julho de 2007

São modas

Cartoon de GoRRo (c) 2007

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Ó ti Aurora, feche o portão que vêm aí os jacobinos, credo!

Pois é, o inefável VPV despertou hoje com um pico máximo de lucidez. E saca de mandar chumbada na libertinagem que grassa por aí, aos molhos. Então não é que há 12 candidatos a concorrer às eleições? E não é que eles têm ideias, ainda por cima ao quilo, "sobre tudo e sobre nada"?
Parece impossível. Isto só serve para deixar o "cidadão comum" ainda mais "desinteressado", "confuso", "inseguro" e "mal informado", ah pois é. Com grãos de areia, bejecas e tremoços à mistura a complicar? Desgraça das desgraças, "o «critério editorial» devia servir para evitar estas coisas".
Ai, que este país está perdido! Estava o VPV, enternecidamente, algures no século XIX e, zás, acabam com o doce rotativismo?!
Não pode ser! A culpa é desses doidivanas da comunicação social, tv, rádio e imprensa, por esta ordem. Quem lhes mandou dar cobertura aos jacobinos? Eu bem os avisei para não darem mais licenças, já cá nos bastavam os velhinhos Diário de Notícias e O Século, para quê complicar a vida, hum?
Eis a pêrola final: "Este extraordinário episódio de Lisboa enfraqueceu e desagregou os dois grandes partidos do regime. Falta saber se é um acidente ou uma tendência".
É caso para perguntar, com o coração nas mãos: e não se pode bombardear também Lisboa, para erradicar de vez estes jacobinos duma figa?

Peão levado de Arrasto!

Chega ao fim a semana, e foi aquela em que este vosso Peão foi o blogue da semana na escolha do Arrastão. Vindo do Daniel Oliveira, uma referência na blogosfera (um dos fundadores do primeiro verdadeiro blogue verdadeiramente interessante na blogosfera tuga, claro que estou a falar do Barnabé), é sempre agradável este tipo de reconhecimento. Ainda para mais depois de ter considerado o Peão uma das sete maravilhas da blogosfera (o que me parece no mínimo duvidoso, mas quem sou eu para contestar?). O Daniel Oliveira trouxe assim muitos leitores ao Peão nestas duas últimas semanas, esperemos que os leitores tenham gostado, e que voltem. Ao Daniel Oliveira fica um agradecimento: gratos pela preferência. Daniel, onde quer que estejas, se me estiveres a ler fica sabendo que és um gajo porreiro!

A vez dos lisboetas: balanço da campanha

É a hora dos balanços. Aqui fica um exame possível, a partir das leituras feitas, incluso os programas (estes um pouco na diagonal: imaginem que há programas com mais de 150 páginas!).
A má situação financeira foi admitida por todos.
Costa acenou-a amiúde como a única prioridade, quiçá para justificar a chantagem da maioria absoluta. Uma prioridade que, assim, justificaria o olvido de graves problemas como os da deterioração do parque escolar e da inacessibilidade do Arquivo Histórico Municipal, mas que, paradoxalmente, viabilizaria novas ofensivas urbanísticas, como a da frente ribeirinha de St.ª Apolónia a Pedrouços. As confusões com o arq. Manuel Salgado e a provável vereadora dos Transportes e Mobilidade fazem temer a continuação da lógica da construção e da especulação imobiliárias. Nem o Pq. Mayer se salva: onde devia ficar só o cinema Capitólio e uma ligação ao Jardim Botânico, agora tb. haverá mais edificação, contrariando o preconizado (e bem) por Carrilho. Nem a proposta dum parque verde na Portela convenceu: ninguém acredita que Costa esteja à frente da CML quando houver essa possibilidade, se houver. Não esquecer que há um diferendo entre Governo e CML quanto a quem é o detentor desse terreno, que não foi resolvido quando Costa era ministro. A propósito: todos os restantes candidatos fizeram demagogia sobre o aeroporto, excepto Quartim Graça (MPT), que pôs em 1.º lugar a qualidade de vida dos munícipes.
Negrão, embora denunciando o corte de 5% feito por Costa-ministro nas transferências para a CML, aposta tudo num cavalo controverso: o da empresarialização da governação. Tudo se resume a uma boa gestão. Sabemos onde já conduziu esse caminho, à duplicação de estruturas e ao descontrolo com a multiplicação das empresas públicas. A nota positiva é a postura contra a existência dum Porto de Lisboa atentatório dos interesses da cidade. Em contrapartida, uma “via de ciclo-turismo da Expo até Algés” parece tão truque de magia como o parque verde de Costa na Portela. Fala na “renovação do parque escolar” muito laconicamente, deixando tudo para outra mirífica parceria público-privado.
Carmona, por sua vez, insiste em esburacar Lisboa até à exaustão, agora com o túnel das Colinas (uma obra baratucha: de Alcântara a Oriente) e outros desmandos similares. É mais do mesmo.
Outros candidatos, porém, preferem pensar nos problemas dos bairros já existentes, casos de Roseta, Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Quartin Graça.
Julgo que é aí que está o problema: não podemos continuar a sacrificar a qualidade de vida dos munícipes em prol duma concepção predadora das cidades, só a pensar na maximização do lucro com a construção, a densificação urbanísticas e o reforço de redes viárias favorecedoras do transporte particular e do êxodo populacional. Nesse sentido, recomendo o texto de Rui Tavares no Público de 3.ª feira. Não repitamos os erros das megapolis, busquemos antes ser uma capital cosmopolita de média dimensão.
Roseta tem trunfos fortes: a reabilitação do edificado (incluindo uma “via verde” para os proprietários aderentes) e a qualidade urbanística como novo paradigma; a “tarifa familiar” nos transportes; uma inovadora “rede de ruas amigas do peão”; a eficiência da aplicação do IMI; o apoio à salvaguarda de certos edifícios a que atribui valor patrimonial, como o ex-cinema Paris (Cp. Ourique) e a Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz (Lumiar). Em contrapartida, Roseta insistiu em aparentar equidistância com os restantes candidatos, caindo no risco de despolitizar o seu próprio programa político. Também na questão do direito ao sossego foi contraditória: apela à aplicação a sério da Lei da Ruído, mas depois é a favor da permanência do aeroporto da Portela.
Sá Fernandes tb. tem propostas valiosas: aposta nos transportes públicos, optando pela rede menos custosa, a dos eléctricos rápidos, em detrimento do metro, bem mais dispendiosa; reabilitação, mais casas para arrendar em Lisboa e maior taxação dos edifícios devolutos; reforma das empresas municipais; plano verde (com o arq. Ribeiro Telles); e o reforço da política social, nomeadamente no auxílio aos mais velhos (no que foi secundado por Telmo Correia, que propõe um passe da 3.ª idade). Se não fossem as suas acções judiciais seria menor a segurança rodoviária no túnel do Marquês e as negociatas com trocas de terrenos e especulações imobiliárias continuariam ainda mais impunes. Deu 2 tiros no pé ao dizer que ninguém quer ir viver para bairros como S. Domingos de Benfica e Cp. Ourique, dando-os como exemplos de desmazelo urbanístico. Tomara a muitos poderem viver em Cp. de Ourique. Ou mesmo em certos sítios de S. Domingos…
Ruben de Carvalho parece estar mais preocupado com os funcionários municipais, que julga terem sido desconsiderados e nos quais diz estarem as energias que poderão reanimar a cidade. Tal como Sá Fernandes, advoga a melhoria dos transportes públicos (defendendo mais mini-bus e a reordenação de percursos), defende a extinção de empresas municipais e a reforma da EPUL. Propõe combustíveis ecológicos na frota municipal e alertou contra o perigo de privatização de certas piscinas municipais (Olivais, Roma, Cp. Grande).
Pedro Quartin Graça tb. tem um programa interessante, embora muito lacónico. Portagens, deslocação do aeroporto, hortas sociais, plano verde e turismo cultural são as apostas. Não se percebe como uma candidatura destas não aproveitou para se coligar com uma força de esquerda.
Sobre a questão da valorização patrimonial e sócio-cultural de várias zonas da cidade, também o Fórum Cidadania Lisboa avançou com 16 propostas concretas. Só tenho um reparo a fazer: discordo de se nomear determinada associação para ocupar certo edifício entretanto recuperado pela CML (casos do ex-cinema Paris e da Casa Almeida Garrett). Julgo que, a ser entregue a uma associação voluntária (ou várias), deveria ser por concurso público transparente, para dar igualdade de oportunidades a todos e, assim, possibilitar mais participação e melhores soluções. Embora não estando ligado a nenhuma candidatura, estas propostas são válidas e deveriam ser estudadas pelos políticos, tal como outras entretanto lançadas na imprensa e na blogosfera (para as quais tb. contribuímos: vd. etiqueta Propostas por Lisboa).
Nb: na imagem, a proclamação da República nos paços do concelho lisboeta (foto de Joshua Beloniel, AFML).

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Gajo que é gajo é Garganeiro

Diz a Laura Abreu Cravo indignada que "Quando uma miúda quer “provocar os rapazes” não cita os clássicos russos, não se dá ao trabalho de construir aforismos e não perde horas em exercícios metafóricos. Limita-se a pôr o melhor decote que encontrar no roupeiro lá de casa e um par de sapatos muito altos.", a indignação leva-nos a pensar que preferia que fosse ao contrário. Fernada Câncio - que até gosta de ler Laura Abreu Cravo - chama-lhe negacionista, o que nos leva a pensar que acha muito bem que o decote prevaleça sobre os clássicos russos.
Meninas, permitem que me intrometa? Eu parece-me que vocês não percebem muito de gajos. Ora acontece que, mais por força das circunstâncias (que é o eufemismo para dizer que tenho um cromossoma Y em cada uma das minhas célulazinhas) do que por escolha, percebo alguma coisa de gajos. Posso garantir-vos o seguinte: Gajo que é gajo é garganeiro, é lambão, quer tudo e mais umas botas. Porquê ter que optar entre o sexy e o intelecto? Quem disse que as duas são mutuamente exclusivas? Há lá coisa que dê mais tesão a um gajo do que uma gaija sendo podre de boa que cita clássicos russos (e gregos)? Uma gaija que usa metáforas e aforismos (e hipérboles, e parábolas) com um decote até ao umbigo? Porquê algodão quando se pode ter algodão e seda?
P.S. - Já os sapatos muito altos não sei...

Novas aventuras de Zé Socas: Vitorinox, o bombeiro de serviço

Cartoon de GoRRo (c) 2007

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Le Cool Lisboa é boa onda

Ainda na maré de Lisboa, aqui vai a referência a uma charmosa agenda cultural, a Le Cool Lisboa, disponível na Internet, e gentilmente fornecida por e-mail para quem assim o desejar.
Tem periodicidade semanal (a última acabou de me chegar agora), é muito diversificada, e tem hiperligações para a maioria dos eventos que noticia.
Faça um desejo e deixe-se ir na brisa suave da madrugada...

E a Memória da Cidade?

A UNESCO criou, em 1992, um programa chamado Memória do Mundo que tem como objectivos a preservação, o acesso e a divulgação global de documentos de arquivo e colecções bibliográficas com valor para a história da humanidade. A herança documental reflecte a diversidade de línguas, povos e culturas que existem no mundo, mas essa memória é frágil e perecível. Com o programa Memória do Mundo, a UNESCO procura salvaguardar o património documental de situações de catástrofe, guerra e incúria, bem como lutar contra a amnésia colectiva.
Portugal dispõe de três inscrições no Registo da Memória do Mundo: desde 2005, a Carta de Pêro Vaz de Caminha; e desde o final do mês passado, o Corpo Cronológico (colecção de manuscritos de natureza muito diversa, que abarcam o período que vai do século XII ao século XVII, destaca-se pela riqueza das suas fontes para o conhecimento da História da Europa, da África, da Ásia e da América do Sul, nomeadamente, do Brasil) e o Tratado de Tordesilhas. O património arquivístico português registado como Memória do Mundo faz parte do acervo da Torre do Tombo, o nosso Arquivo Nacional.
Para quando o programa municipal Memória da Cidade de Lisboa?
Imagem: Folha do livro, Primeiro Foral dado a esta Cidade, existente no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa (fot. Armando Serôdio, 1960, AFML).

Crónicas do Brito Aranha, um lisboeta à antiga

Apareceu, fulgurante, em 2005. Desapareceu fulminante, que nem um cometa. Reapareceu entretanto, sorrateiramente, sem dizer nada a ninguém...
É isso mesmo, falo-vos do impagável Brito Aranha e das sua crónicas infalíveis.
Com a sua erudição e eloquência de muita experiência e cogitação, Brito Aranha é único e imbatível!
O último lote contempla os seguintes temas: túnel do Marquês, regionalização e nuclear. Nada mais actual, se nos lembrarmos as crónicas veranis de Helena Matos.
Tudo num vlog próprio, o Crónicas do Brito Aranha, com óptima captação de som. Ora vão lá ver.

Parabéns à Alice @Memorex!

A blogosfera tem destas coisas. Escrevi uma vez um post sobre implantes cocleares, porque acompanhei de perto alguém que fez um implante (o implante coclear é uma tecnologia que hoje permite a muitos surdos deixarem de o ser, com uma eficácia bastante apreciável). E vai dai alguém assinando como @Memorex deixa lá um comentário: "Interessante de facto, estou a ponderar na operação do Implante Coclear... mas as incertezas turbulentas molestam a minha paz de espirito!". Entrámos em contacto, e a (Alice) @Memorex, que não ouve desde muito pequena, quis saber mais da experiência de quem passou pelo processo. A Alice @Memorex também é bloguer, e tem um lindíssimo blogue sobre o silêncio, como vê o mundo quem vive no silêncio (forçado). Entretanto dissiparam-se as dúvidas e a Alice decidiu-se a optar pelo Implante Coclear. Eu - espero não ser só eu -, que tenho uma admiração ilimitada por quem tendo verdadeiras dificuldades se desenrasca melhor que bem no nosso mundo (nosso, daqueles para quem a vida é fácil), fico contente por a Alice ter esta oportunidade de voltar a ouvir. A Alice está prestes a acabar a licenciatura, o que, como devem imaginar, para alguém que não ouviu nada nos últimos vinte anos não é propriamente fácil. A Alice tem também outro blogue para escrever sobre o implante coclear, e para divulgar "a causa", porque quer que outros surdos tenham a mesma oportunidade. A propósito, a operação foi um sucesso. Agora vai começar um longo (ou talvez nem tanto) processo de adaptação e aprendizagem, com muitas afinações, mas em que cada passo é uma melhoria. Alice, "Now this is not the end. It is not even the beginning of the end. But it is, perhaps, the end of the beginning." (Churchill)
Parabéns Alice (@Memorex)!

P.S.- Ainda para mais os implantados tem uma vantagem que invejo muito, é que se não lhes apetecer ouvir qualquer coisa podem sempre desligar o aparelho. Têm a escolha :-).

Nota: A ilustração é da autoria da própria @Memorex, roubada no "A Inspiração do Silêncio"

terça-feira, 10 de julho de 2007

A vez de Lisboa

A campanha eleitoral está de regresso às ruas de Lisboa e aos media do país. Aproveitando a boleia, deixo-vos aqui novas notas, agora num registo sério.
É que vale a pena continuar a reflectir sobre estas eleições. Desde logo, para elogiar a campanha: talvez nunca tenha havido tantas propostas e candidatos de qualidade. Só é pena terem tido pouco tempo. Mas terão 2 anos pela frente para se aperfeiçoarem umas, testarem outras, para se tentarem consensos e convergências possíveis. Lisboa e os seus habitantes merecem.
Também aqui temos vindo a avançar ideias e propostas há vários meses a esta parte. Destaco 6 ideias, pela sua importância e por recear poderem vir a cair no saco injusto dos assuntos «não prioritários».
Em 1.º lugar, a salvaguarda física dos infantários e escolas, tanto públicas como particulares: deve ser criado um programa especial único, concertado com o governo, para este tipo de equipamentos colectivos, pois o RECRIA manifestamente não serve.
Em 2.º lugar, tornar novamente acessível o Arquivo Histórico municipal, fechado há 4 anos. É uma prioridade absoluta na área cultural. Para isso, e enquanto se espera pela construção do edifício do futuro Arquivo e Biblioteca Central no Vale de St.º António (se for adiante esta opção), devia-se proceder à adaptação dum dos muitos edifícios da CML para Arquivo provisório. Apesar da relevância do tema e da existência de soluções, é com surpresa que se constata a sua ausência nos programas dos candidatos. A insistência certamente dará frutos.
Em 3.º lugar, é necessário actualizar o Museu da Cidade, cuja exposição permanente fica-se por 1910.
Em 4.º lugar, urge salvaguardar certos edifícios municipais para equipamentos públicos que possam funcionar como pólos dinamizadores a nível comunitário (por ex., o Museu da Criança e do Brinquedo na Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz). Também a Alta do Lumiar carece de equipamentos colectivos.
Em 5.º lugar, estabelecer modelos transparentes de contratualização com as associações sócio-culturais da cidade, com vista a desenvolverem actividades úteis à comunidade.
Em 6.º lugar, e enquanto não houver bibliotecas públicas em todos os bairros, devia-se reforçar as bibliotecas itinerantes, pois actualmente só existem 2 carrinhas.
Nunca será demais apostar nestas áreas.
Num próximo post, falarei das propostas dos candidatos.
Nb: foto do Palácio da Quinta de N.ª Sr.ª da Paz, pelo fotógrafo Arnaldo Madureira, 1961 (AFML).

O prodígio da Ponte da Lezíria, segundo o nosso PM

Cartoon de GoRRo (c) 2007

Um contrato para a segurança

Este debate com o Hugo sobre a flexi-segurança demonstrou em certo sentido que existem dois tempos distintos para a aplicação de cada uma das partes que compõem esta nova palavra. No que concerne à segurança o tempo é longo. Por exemplo, podemos enumerar uma série de medidas avulso: uma rede de pré-escolar generalizada com horários compatíveis com a vida moderna, a reforma para a democratização no acesso à justiça, o aumento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, a existência de um plano de actividades extracurriculares de qualidade que ocupe os alunos do básico e secundário até às 18 ou 19 horas, uma rede pública de lares e de centros-dia que se coadune com as necessidades actuais.
Estas e outras medidas estão ainda a anos-luz da realidade vivida neste presente concreto. Contudo, quando se aborda a questão da desregulamentação da contratação laboral e da flexibilização do despedimento esse futuro já nos parece mais imediato. É-nos apresentado como algo eminentemente presente. Mais, dizem-nos que dessa desregulação depende o incremento das políticas de segurança. Ou seja, para aumentar a protecção social é necessário elevar o nível da produtividade e tal só se consegue por intermédio da flexibilização do mercado de trabalho. Uma flexi-segurança a dois tempos: será essa a especificidade portuguesa? Para as populações nórdicas a segurança não era uma promessa a longo prazo mas uma concretização no imediato.
Não tenho uma visão conservadora de que tudo deve ficar na mesma. Acho que a mobilidade profissional e até residencial não é um mal em si. Pelo contrário, entendo que a cristalização nos mesmos lugares (físicos e sociais) não propicia a inovação.
Portugal precisa, por isso, de um contrato social, na sua clássica acepção. Não se trata de um mero contrato assinado no parlamento ou nos corredores da concertação. Precisa de um contrato público e participado. Que defina objectivos e metas a atingir tanto pelo Estado, como pelas empresas e cidadãos. Um contrato que não pereça ao fim da legislatura e que seja monitorizado por uma entidade independente dos governos (com condições financeiras para o fazer). Não vejo outra forma de sedimentar a confiança.

SLB, versão SÁDica


Cartoon de GoRRo (c) 2007

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Só, só, só mais um:

Garcia Pereira tem modelo PCTP-MRPP para resolver o excesso de funcionários na CML: uma cara, um candidato, sempre o mesmo funcionário, ele-próprio, o mono-volume!!!

Gira o disco e toca o mesmo...

Resumindo: dar a responsabilidade da recolha de lixo ao dr. Telmo Correia e amigos.

Manel & Karmona:

(juntos, com camisa azul e gravata encarnada):
bora lá criar os forcados vereadores de Lisboa! Olé!

Sá Fernandes arremata:

Acabar com a Bragaparques e a EMEL, abrir a Zéparques e a ZÉMEL.
Mudar o túnel do Marquês, fica Túnel do Zé.

Manel Monteiro adverte:

A importância dos táxis como transporte integrado.
Mais táxis, já, devemos saber integrar os táxis no transporte urbano da cidade.

Pedro Quartin mostra 3 gráficos fantásticos:

Por muito espantoso que isto seja...
Há capacidade de janelas na Portela! O éroporto de Lisboa nã está esgutado.
Zona ribeirinha: não à volumetria, somos defensores do grande estuário do Tejo, sobretudo da pesca. E do lavapés. Ah, e sempre contra o éroporto à beira-rio!

Garcia Pereira comicia:

Os barcos deviam aportar onde há bons ventos. O Ponta Delgada está atolado no Poço do Bispo, como o Tolan.
O caixote do lixo está no Cais do Sodré há anos.
(Apagaram-nos os murais indecentemente!)
Estão a mandar-nos os morais abaixo, assim não dá!!
É preciso dizer, com toda a clareza, k'hoje fica mais barato a um empresário trazer as mercadorias por Vigo do que por Lisboa.
Deixe-me só mais um ponto. Exprimir sobre o éroporto. Um grande éroporto internacional, dá-me licença, na margem sul, concerteza.

Karmona Rodrigues disserta:

Nós, neste mandato, fizemos acordos com entidades em que durante a semana há 5 mil lugares livres no Sporting, SLB e Gare Oriente; o passe, há mais de um ano que espera pela decisão do governo; passa por esperar pelo passe.
Há umas atitudes que não podem continuar a existir.

Ruben de Carvalho obsta o seguinte:

O relacionamento é muito importante!

Fernando Negrão anota no relatório e contas:

Isto tem que ter consequências.
Acabe-se com o IPPAR, e o Porto de Lisboa assente-se à mesa.
Corredores shopping, do Amoreiras ao Porto de Alcântara, já!

António Costa aconselha:

O Porto de Lisboa deve fazer o que sabe fazer, que é ser o melhor ibérico.
Tem que se saber utilizar bem os passageiros dos cruzeiros.
Os contentores é um elemento importante...
«A carga posta,
Adeus ó contentores,
que me vou,
p'ra outro mundo.»

Manel Monteiro dixit:

Deixem-me dizer mal do vereador Paulo Portas!

Helena Roseta admoesta:

Melhorar profundamente as coisas: as escadas rolantes tá bem, agora o elevador... [discurso interrompido pela jornalista pivot para dar a palavra a um despique sobre panificadores do CDS/PP]

Manel Monteiro apregoa:

A Panificadora do Chiado está há imensos anos à espera de fermento para recuperação.

Sá Fernandes faz falta...

... como um raminho de salsa [remoque ao seu fatinho pimpão].

Gonçalo da Câmara Pereira comenta:

Lisboa é linda, é melhor ficar tudo como está!
Tem-se qui devolveri o Tejo.

Comentários de campanha (a propósito do debate conjunto na RTP1):

Um quartilho de graça!

O cosmopolitismo começa no estômago (em jeito de adenda)

Em jeito de adenda ao meu post anterior:
O que dizer de uma Tapenada de Anchovas (receita vagamente italiana) comprada no mercado de domingo (na banca do vendedor aparentemente magrebino) à qual se junta um pouco de piment das Antilhas e se barra numa faita de Pão Saloio?

Adenda à adenda:
E o que dizer daquela Crèperie da rue Mouffetard que de bretã tem muito pouco? O patrão é sul-americano, os empregados falam todos espanhol excepto uma senegalesa. Os recheios dos crepes variam entre a Ratatouille (que sendo francesa é mediterrânica), o Salmão fumado do Mar do Norte, e o Chilecito (que do pouco que sei parece ser um guisado da Argentina). Para que o desrespeito pela tradição bretã não seja total, pode sempre beber-se uma cidra.

Flexi-exploração

A propósito das polémicas em torno da flexi-segurança, é fundamental recuperarmos um outro conceito na qual se baseia uma determinada perspectiva sobre a constituição das desigualdades sociais no sistema capitalista, refiro-me ao conceito de exploração. Já uma vez discutimos aqui no Peão a pertinência em utilizá-lo para a análise da sociedade contemporânea. Contudo, parece-me que em todo este debate sobre a necessidade de flexibilizar o emprego com mais protecção social, faz todo o sentido questionar se estas medidas não contribuirão para um acréscimo de exploração.
Em termos muito gerais o objectivo da flexi-segurança é, por uma lado, tornar a contratação laboral menos regulamentada e, por outro, aligeirar a possibilidade de poder despedir mais facilmente, ao mesmo tempo que se investe na generalização e facilitação do acesso aos diversos sistemas de protecção social. Contudo, no que concerne à aplicação dos princípios à sociedade portuguesa, o ênfase é posto sobretudo na primeira parte deste neologismo, a flexibilidade, e não tanto na segunda, a segurança.
É certo que o mercado de trabalho em Portugal é muito rígido, e que isso provoca entraves à mobilidade profissional e à renovação dos quadros das empresas. É certo que alguma precarização profissional nas gerações mais jovens deriva, em parte, dessa inflexibilidade do mercado de trabalho. No entanto, também é certo que em Portugal os vários sistemas de protecção social não só deixam muito a desejar como estão a regredir em termos da universalização dos direitos. A ‘taxação’ dos serviços, o encerramento de escolas, das urgências nos centros de saúde e das maternidades. A inexistência de uma rede de pré-escolar digna desse nome. O mau funcionamento dos transportes públicos e das respectivas ligações entre as várias redes, o tempo que se leva entre trabalho e casa. O péssimo funcionamento do sistema de justiça e o nível de desconfiança que este fomenta, etc. Todos estes exemplos e muitos outros levam a que legitimamente o cidadão desconfie da flexi-segurança.
Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Devido a este facto, o acesso aos melhores serviços (incluindo os públicos) é muito diferenciador. Esta situação é potencialmente conflitual na medida em que os interesses que dela decorrem não resultam simplesmente daquilo que «os indivíduos têm, mas, também, daquilo que os indivíduos fazem com o que têm». Neste sentido, o conceito de exploração permite evidenciar «que os exploradores não somente têm interesse em limitar as oportunidades de vida dos explorados, mas que deles dependem para a realização dos seus próprios interesses. Esta dependência dos exploradores em relação aos explorados confere a estes últimos uma capacidade inerente de resistir» (Queiroz, 2005: p.41*). Ou seja, ao se tentar aplicar a tal flexibilidade com maior segurança num país fortemente desigual onde os indivíduos das classes menos privilegiadas se sentem discriminados e desconfiam de quase tudo o que deriva dos sistemas públicos, correr-se-á um forte risco de criar um ambiente propício para o incremento das relações de exploração.
Não ponho de lado a importância da flexi-segurança, mas a estratégia política deveria primeiro aprofundar os mecanismos de segurança e garantir que os cidadãos confiem no Estado. Aos dinamarqueses foi-lhes primeiro garantida essa confiança!

*Maria Cidália Queiroz (2005), Classes, Identidades e Transformações Sociais, Porto, Campo das Letras.

domingo, 8 de julho de 2007

A frescura única dos Alvarinhos


O melhor Alvarinho, afinal, não é o galego mas sim o minhoto! Quem no-lo recordou foi João Paulo Martins, com a audácia do saber de experiência feito, espaldado num júri de 12 peritos, i.e., a 1.ª Prova Ibérica de vinhos Alvarinhos, realizada em Pontevedra em Junho de 2006 (+info aqui). Não sei se o Daniel Lanero me vai perdoar esta ousadia…
Deixemos de lado os mitos que caem por terra, e vamos lá às ‘notas’ de provas.
O vinho verde com melhor relação qualidade-preço é, sem dúvida, o Muralhas de Monção (c.3,80€ no Jumbo). Todos os grandes críticos o dizem, desde o José A. Salvador ao João Paulo Martins. Este vinho tem um acídulo muito acentuado, um ‘pico’ forte compensado com muita frescura, sendo por isso bom de beber com um arroz de marisco um pouco picante, choco frito ou comida japonesa. Ao Alvarinho predominante é juntado um pouco de Trajadura, que lhe acentua a tal frescura, a exemplo do que fazem na Galiza (é o que nos diz José A. Salvador, Os 100 melhores vinhos portugueses 2000, p.30).
É feito com os lotes menos nobres da Adega Cooperativa de Monção, sendo que os melhores são destinados ao Deu-la-Deu ou Danaide.
O Deu-la-Deu (c.5,80€) é o seguinte melhor em conta (ficou em 2.º no concurso), e, para nossa sorte há em todo o lado também. É menos ácido do que o anterior, mais equilibrado.
Se calhar por o ter bebido menos vezes, o meu preferido agora é o galego Pazo de Señorans 2005 (3.º lugar ex-aequo), muito cremoso e elegante.
Ainda na 1.ª Prova foram destacados outros excelentes verdes: o vencedor (Quinta do Regueiro Vinho Verde Alvarinho 2005, só provei uma vez, na altura gostei mas não tenho grandes recordações), o Alvarinho Touquinheiras (3.º lugar ex-aequo) e o Muros Antigos (7.º).
E sem esquecer o Muros de Melgaço (c.15€), que desconheço mas que é tido por um bom vinho, embora não figure nos 10 mais daquela lista.
Enfim, para o fim a melhor parte: segundo João Paulo Martins, neste momento qualquer alvarinho é bem feito, por isso, nada de delongas. Mas, atenção, será preferível guardar-se por 1 ano a colheita entretanto saída. Por isso, agora dever-se-á beber um vinho de 2005 (“Alvarinho: melhor ao segundo ano”, Público, 23/VI, p. 13-Fugas).
Nb: sobre o Deu-la-Deu vd. tb. aqui; sobre o que é o vinho verde (que não se resume às castas Alvarinho e Trajadura, havendo ainda pelo menos a Loureiro) vd. aqui.

Entre o Atlântico e o Mediterrâneo



Devo confessar que não sou grande apreciador de vinho verde, normalmente prefiro um bom branco seco bem fresquinho. Mas quando se trata de Alvarinho a coisa pia mais fino. Para além das iguarias recomendadas pelo Daniel aconselho este belíssimo petisco para acompanhar o 'vinhito': carapaus alimados. Manjar tipicamente algarvio e confeccionado com uma simplicidade divinal. Este é o mistério da cozinha tradicional mediterrânea, com sal, cebola e azeite se inventam pequenas delícias que nem sequer pesam muito no estômago (ver aqui a receita). Entre um néctar produzido em terras atlânticas e um pescado bem prateado içado em mares mais quentes, se servem os sabores para este início de Verão. A seguir só um belo mergulho nas ondas de uma destas águas marítimas para retemperar as energias.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Acabem lá com a preguicite, mas é

"O secretário de Estado da Segurança Social esclareceu hoje que o Governo não pretende aumentar a idade da reforma, mas sim prosseguir a política de "envelhecimento activo", que é um caminho para o aumento da idade média de reforma, mas «voluntário»." (in Diário Económico de hoje).
Ó malta, sim, vocês aí da foto, entonces? Toca a mexer esses rabos, mas é.



Então, ainda aí?

Na lorpice?

Ah, assim, sim! Assim é que é! Muito bem!

E o voluntariado brilhará para todos nós!

Cosmopolitismo: Os Libaneses e as Sanduíches

Uma nota prévia: Como já foi referido algures aqui no Peão, Cosmopolitismo e Multiculturalismo não são a mesma coisa (encontrei uma boa explicação da diferença aqui). Eu próprio confundi os dois em posts anteriores, fica aqui o esclarecimento, entre um e outro prefiro sem hesitações o Cosmopolitismo. O Cosmopolitismo cria pontes onde o Multiculturalismo ergue barreiras. Aliás, até mais do que pelo Cosmopolitismo sou mesmo é pela Misturas, pela Miscigenação.

E nas minhas deambulações (sobretudo por Paris, mas não só) cheguei à conclusão que o Cosmopolitsmo começa pelo estômago, ou se quiserem pelas papilas gustativas. Não conheço maneira mais fácil de começar a criar pontes entre comunidades do que a gastronomia. Veja-se o exemplo das Sanduíches Libanesas no Quartier Latin. Há várias casas que se dedicam ao negócio, mas a mais aconselhável é "Au Vieux Cèdre" (187 rue St. Jacques, ou 2 rue Blainville). Como quem não quer a coisa as sandes são baratinhas. Kefta ou Mahkaneke, ou melhor ainda Chiche Taouk (frango marinado em alho e lima), enrolado em pão tipo pita com salada e molho, e para quem quiser - o que é definitavamente uma boa ideia - um complemento de batata à la Libanaise. A sandes é depois tostada tipo panini - uma delícia! Em momentos de não rara simpatia o cliente tem o direito a um chá libanês - com menta e tomilho e mais alguns ingredientes, estamos em negociações para obter a receita - oferta da casa para compensar a espera (que é, em média, de 3m42s). Há ainda sobremesas como a irresitível Balohria, à base de flor de laranjeira. "Au Vieux Cèdre" é também um local de encontro com um pouco, por pouco que seja, da cultura libanesa, pelo menos a música, que toca em permanência. Mas pode ser também um ponto de contacto com a vida política do Líbano. Durante a Guerra do ano passado fez-se circular muita informação sobre as acções de solideriedade para com o Líbano decorridas em França, e blogues libaneses. Rentemente o "Au Vieux Cèdre" lançou uma nova sanduíche, a Fajita. E agora pergunta o leitor: Fajita? Mas isso não é mexicano? E responde este vosso bloguer: é mexicano, mas numa sandes libanesa é daqui (e aperta o lóbulo da orelha direita entre o polegar e o indicador), uma maravilha!

Sendo a concorrência na área das sanduíches libanesas díficil, uma outra família de libaneses decidiu diversificar. Abriram o "Pains, Salades et Fantesies" (22 rue Gay Lussac, mesmo ao pé do Jardin du Luxembourg). O nome diz tudo quanto ao tipo de comida que servem. Não se pode é dizer que seja um tipo de gastronomia calssificável pelos padrões canónicos. Não é libanês, nem francês, nem outra qualquer etnicidade, é uma misturada, e da boa. Paninis de salmão fumado, ou frango, ou vegetariano à base de beringela. Saladas "Californianas" ou de marisco, ou "Tropical". Uma variedade de escolha apreciável, e a confecção muito boa (só é pena ser tudo muito saudável). Nas sobremesas é absoulutamente imperdível o "Fraicheur", iogurte natural, com folhas e menta e passas. Tudo isto num ambiente muito tranquilo onde se ouve um Jazz muito "select" a décibeis reduzidos, numa decoração neo-eco soft vegi-friendly e onde se podem ler jornais escritos em árabe. Os preços são mais do que acessiveis, e o serviço é rápido (excepto quando a clientela bcbg exagera na especificações pós-modernas da condimentação; é um risco real), a degustação essa convém que seja lenta e "sur place".

Leitura para o fim-de-semana

Para uma diferente visão sobre a União Europeia sugere-se a leitura dos textos que compõem o dossiê português da edição de Julho.



Hot

Finalmente chegou a onda!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

E porque hoje se comemoram 32 anos da independência de Cabo Verde:

Aos amigos cabo-verdianos

São elas, as mães.
A sépia desenham-se
sobre os rios do mundo;
quando errantes asas
se acolhem ao repouso
desta página. Assim,
perto de nós, fica o eco
dos seus rostos; descendo
por um secreto desvão de nuvens.

À beira da água, rezam ainda;
perenes como a terra.
Sobre as colinas da manhã
são o mais alto nome do amor.

(in Paraíso apagado por um trovão,
2.ª ed., Cidade da Praia, Spleen Edições, 2004, p. 31)

Finalmente se fala aqui de vinhos, já não era sem tempo

Sempre na vanguarda artística, tenho o grato prazer de vos anunciar a estreia neste blogue duma rubrica, e logo dedicada a vinhos!

Diz que é costume este tipo de prosa sair aos domingos, por isso, há que saber aguardar uns diazitos.
Entretanto, aqui ficam uns rabiscos, à guisa de intróito.
Confirma-se: a vinhaça lusa está em alta, em termos de produção, qualidade e reconhecimento, tanto nacional como internacional. Já não é só o vinho do Porto que os críticos estrangeiros elogiam. Para isso ajudou a melhoria do produto e a crescente participação e reconhecimento em concursos internacionais. A crítica inglesa Jancis Robinson foi uma das primeiras a reconhecê-lo. Agora, até o papa dos críticos americanos, Robert Parker, deu o braço a torcer e já elogia os vinhos portugueses sem se limitar a uns quantos e sem tentar impor o rolo compressor do gosto fácil e de 2-3 castas que vende no seu mercado nativo.
Isto significa também um reconhecimento das próprias castas nacionais, a começar na Touriga Nacional e na Antão Vaz.
Disso nos dá conta um dos melhores críticos de vinhos nacional, David Lopes Ramos, no seu artigo "Vinhos portugueses, o desafio do mercado mundial" (Público de hoje, p. 3, secção «destaque»).
Por mim, podíamos também falar na Castelão (também chamada de Castelão francês, Periquita ou João Santarém, consoante as zonas de cultivo) e na Baga, no que toca a castas tintas, e no Arinto, Encruzado, Bical, Malvasia-fina e outras, no que toca a castas brancas.
Alcemos, portanto, o copo ao Baco das vinhas nativas.
Uma nota só de reparo: apesar dos bons ventos, o preço deste néctar está um pouco inflaccionado para as bolsas nacionais e os principais críticos de vinhos portugueses não desistem de condenar esta situação (vd. DLR, João Afonso e João Paulo Martins). Há, portanto, que saber escolher, vendo os guias que trazem as melhores relações qualidade-preço, comparando preços em vários estabelecimentos, indo às feiras e às adegas, falando com amigos, etc..
No domingo falarei de alvarinhos, ides ter uma surpresa...
PS: já me ia esquecendo: as dicas básicas sobre como saborear um vinho vêm todas no site da Jancis Robinson.

Réplica a José Reis Santos, a propósito do Arquivo Municipal de Lisboa

Caro José Reis Santos,
Respondo-te como munícipe, historiadora e arquivista ao teu post de comentário ao meu anterior.
Ponto prévio: ao contrário do que afirmas, entendo que, nas políticas cultural e da informação da CML, a reabertura do Arquivo Histórico Municipal é uma prioridade absoluta. Trata-se da memória organizacional do Município e social da cidade, é o acesso público a um dos mais importantes arquivos do país que está em causa.
Pegando no teu repto, ultimamente não temos assistido a grande interligação entre a Universidade e a História Local de Lisboa e percebe-se porquê. A maioria do acervo do Arquivo Municipal de Lisboa (AML) está inacessível ao público (estudantes, professores e investigadores das universidades incluídos) há quase cinco anos. Podem fazer-se trabalhos de pequeno fôlego só com base em fontes impressas, mas trabalhos de maior envergadura exigem a consulta de fontes de arquivo. A impossibilidade de aceder às fontes primárias do AML tem impedido a realização de estudos académicos sobre a História Local de Lisboa.
Há cerca de dois anos encontrei num Congresso um historiador da Faculdade de Letras que costumava participar nos colóquios temáticos organizados pelo Arquivo Municipal de Lisboa; disse-me que já não sugeria aos alunos temas de trabalho ligados à história de Lisboa porque o Arquivo estava fechado e os colóquios nunca mais se tinham realizado.
Uma melhor interligação entre a Universidade e a Autarquia no que toca aos estudos sobre Lisboa passa primeiro pela resolução do problema do acesso à documentação. É com espanto e tristeza que vejo que os historiadores mais influentes da nossa praça, em vez de exigirem a reabertura do Arquivo, desistiram de estudar Lisboa.
Depois, há que apostar no estabelecimento de parcerias e protocolos. A definição de prioridades no que respeita ao tratamento documental, à disponibilização de descrições e reproduções online, etc., poderia tomar em linha de conta as agendas de investigação. Lamento que não haja em nenhuma universidade lisboeta um centro de investigação interdisciplinar sobre questões transversais à Cidade.
Quanto ao financiamento, já em diversas ocasiões afirmei que “tal como os químicos, os físicos, os biólogos, etc. necessitam de laboratórios bem apetrechados para desenvolver a sua investigação científica, também os historiadores (e outros cientistas sociais) dependem da existência de arquivos em boas condições de conservação, acesso e comunicação. A salvaguarda, a descrição e a divulgação de milhões de documentos do nosso passado exigem, à semelhança dos laboratórios científicos, financiamentos avultados. Sem arquivos acessíveis aos investigadores não há conhecimento histórico. Sem conhecimento histórico não haverá cidadania plena”. Concordo plenamente que as Universidades e a Autarquia, no caso em análise o AML, podiam apresentar projectos conjuntos à FCT e a programas europeus.
A pós-graduação da UAL foi, de facto, uma ideia feliz. Assisti com gosto a grande parte das aulas da primeira edição. Hoje, no quadro do processo de Bolonha, o modelo da pós-graduação já não faz sentido. Mas um Mestrado em Estudos Olisiponenses, numa perspectiva multidisciplinar, faz falta e teria procura. Tal como uma “escola” de formação contínua.
Por motivos profissionais, não me pronuncio sobre o trabalho desenvolvido por serviços da CML. Digo apenas que o futuro está na cooperação entre todos, tendo sempre em vista o interesse do cidadão.

Paciência de Zèd

Via Womenage, encontrei este post de Patrícia Lança que tece considerações acerca das reacções que os seus textos provocaram na blogosfera.
"Como eu tinha que ser desqualificada inventaram culpas que não existem. Em vez de provar que as práticas citadas não provocam doenças, foram efectivamente os críticos que procuraram argumentos moralistas, reivindicando a bondade das suas praticas."
Obviamente, a Patrícia Lança não leu o texto que o Zèd publicou. Um post claro e aberto vindo de uma pessoa com duas qualidades inegáveis: Educação, e, sobretudo, paciência.
A Patrícia Lança não pode esperar, depois de tudo o que afirma nos seus intermináveis e variados textos (sendo a última, "Devido à aliança entre a extrema-esquerda e o lobi (gay)") que os leitores por essa blogosfera fora tenham a paciência de Zèd!

Globalização: uma oportunidade



Passou por cá o director do Le Monde diplomatique, Ignacio Ramonet, que deu uma palestra ontem em Lisboa. De uma forma geral o seu discurso não acrescentou muito aos seus escritos. Contudo, gostaria de pegar em dois pontos (um positivo o outro negativo) salientados pelo jornalista francês. O positivo tem a ver com a sua concepção sobre a União Europeia, para Ramonet a UE é uma brilhante invenção que une diferentes países em torno de um projecto de paz. Terá os seus imensos defeitos, é certo, mas apresenta-se como um projecto solidário em termos do empenhamento mútuo para o desenvolvimento. Este princípio, de que a EU é uma construção intrinsecamente boa, parece-me ser muito inovador no contexto de uma certa esquerda mais ortodoxa.
O aspecto mais negativo que retive da conferência de ontem relaciona-se com a sua concepção sobre a globalização da cultura. Para Ramonet esta representa uma espécie de consequência da globalização económica, na medida em que juntas tendem a impor aos quatro cantos do mundo um determinado modelo que deriva do modo de vida ocidental (ou seja, americano). Ora bem, penso que já foi relativamente demonstrado pelas ciências sociais que não se pode encarar a globalização cultural como um mecanismo essencialmente hegemónico. Pelo contrário, esta constitui-se cada vez mais por formas diferenciadas de apropriação e de produção de novos conteúdos e de novos estilos de vida. Em muitos contextos locais não se verifica uma formatação modelar vinda de uma qualquer esfera global, mas uma interconexão, muitas vezes híbrida, entre culturas e modos de ver e estar no mundo. Por exemplo, a Internet é um excelente palco onde se cruzam e se atropelam diariamente milhões de trajectos individuais, comunitários… É impossível olhar para a Internet como uma plataforma de hegemonia cultural.
Entendo que a esquerda, aquela que ainda mantém uma réstia de utopia (outros dirão alienação), deveria autonomizar as causas e os efeitos da globalização económica face aos processos que imanam da globalização da cultura. Em vez de reduzir tudo na mesma amalgama deveria encarar esta última como um recurso no qual se esboçam e se concretizam alternativas capazes de potenciar movimentos mais amplos. Já tivemos inúmeros exemplos disso. Em meu entender a emancipação social e cultural emerge e é constituída pela globalização.

A imigração como problema

Desde algumas semanas, pesquisadores franceses protestam contra a criação dum ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Co-desenvolvimento. Para eles, juntar imigração e identidade nacional é afirmar que a imigração põe em perigo a identidade nacional; é afirmar que os imigrantes são uma ameaça para essa mesma identidade nacional. Esse amalgama foi criado pela extrema-direita e Sarkozy, para recuperar um parte do eleitorado da Frente Nacional, recuperou essa forma de ver a imigração e inscreviu-a no organigrama do governo. É pena que os ministros e secretários de Estado de esquerda, como o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, não parecem lutar contra esse problemático ministério.
Esses investigadores criaram um site.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Aos candidatos à Câmara Municipal de Lisboa

Em Outubro de 2006 passaram 4 anos sobre o encerramento das instalações do Arquivo Municipal de Lisboa, situadas no Alto da Eira. A documentação ali instalada (a maioria com valor histórico) está, desde então, inacessível ao público. Perante esta situação, gravosa e sem fim à vista, impõe-se uma pergunta: a quem/para que serve um arquivo fechado? Certamente não serve a instituição que o produziu, nem a comunidade envolvente, nem as gerações vindouras. Ao não assegurarem condições de acesso à documentação, os responsáveis da Câmara Municipal de Lisboa têm (voluntariamente ou não) fomentado a amnésia organizacional e social. Dão, assim, razão ao sentimento difuso de que os arquivos são uma área subsidiária no seio das políticas públicas portuguesas, seja no sector da informação/documentação, seja no sector do património cultural.
Enquanto não for resolvido o magno problema do acesso público (e dos próprios utilizadores internos) à documentação encerrada no depósito do Alto da Eira, o Arquivo Municipal de Lisboa continuará a não cumprir a sua missão arquivística, a violar o direito de acesso dos cidadãos à informação e a desprezar o avanço e a renovação de estudos científicos e outros sobre Lisboa. Julgo que se devem criar condições para que a documentação seja provisoriamente disponibilizada noutro espaço da CML, sob a supervisão técnica da Divisão de Gestão de Arquivos. Paralelamente, deverá ser feito um esforço suplementar de digitalização e disponibilização on-line da documentação com valor histórico, seguindo aliás as recomendações da Comissão Europeia.
Aproximando-se as eleições para a CML, impõe-se igualmente saber o que pensam os candidatos desta situação. Como pretendem, se forem eleitos, resolver a breve trecho o problema do acesso do público aos documentos históricos que se encontram nas instalações do Alto da Eira? Comprometem-se a dar continuidade ao projecto do edifício novo para o Vale de Santo António? Em caso afirmativo, qual o prazo de conclusão da obra? Em caso negativo, que alternativa exequível propõem? A adaptação a Arquivo de um edifício municipal ou estatal? Qual? Em que moldes? Quanto tempo levará?
Aguardam-se tomadas de posição públicas. O futuro agradece.

A arte de bem receber

"Le Portugal, comme c’est souvent le cas des petits pays, a mis les petits plats dans les grands pour accueillir les cinquante journalistes qu’il a choisi d’inviter"

It takes two to Tango

Caro Renato, começar uma frase por "A pior maneira de se..." qualquer coisa é sempre um enorme risco, pode sempre encontrar-se algo pior. A mim dicotomia da argumentação, mesmo se por vezes levada ao extremo do maniqueísmo, parece-me apenas humana. Todos sistematizamos as questões e os debates, separamos o que concordamos do que discordamos, é assim a vida e é preciso viver com isso. O pluralismo é o resultado do debate entre várias pessoas com sensibilidades diferentes, não podemos esperar encontrar o pluralismo dentro de uma mesma pessoa. Que as correlações apontem sempre no mesmo sentido é apenas uma questão de coerência. Todos temos as nossas correlações coerentemente apontando no mesmo sentido, e é uma chatice que os outros não percebam que o nosso sentido faz mais sentido que o deles. Ele há-os mais obstinados que outros, e isso é normal e aceitável. Mas convém nunca esquecer que os argumentos se combatem com argumentos, os argumentos concretos com argumentos concretos. A obstinação dos outros, o sentido sempre constante das suas correlações, a dicotomia dos seus argumentos é irrelevante. Não me parece que o problema esteja aí.
O que eu lamento é quando se desiste do debate. Quando se acha que não vale mais a pena a troca de ideias. O tal problema tão endémico da esquerda, apregoa a diversidade mas é incapaz de viver com ela.
Quanto ao "Peão" se "com o tempo o blogue vem perdendo brilho", se "As ideias tornaram-se baças e esquivas", depende apenas do "Peões" que por cá andam, que são muitos, alterar isso.
A pior maneira de debater ideias é esquecer-se que ideias estão a ser debatidas.

Blogofrase da semana

Prazer anal contra o capital, prazer clitoriano contra o vaticano. Fantástica palavra de ordem no Europride de Madrid, descrita no blog Panteras Rosas e descoberta via Os tempos que correm.

Férias à vista!

Van Gogh - Noon: rest from work (1889-90)

Democracia digital

Agora que entrámos em campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, e para ajudar ao debate e reflexão dos cidadãos-eleitores, aqui ficam os sites e blogues das candidaturas, por ordem alfabética. Incluí também blogues de apoiantes, os quais vêm devidamente indicados.


António Carmona Rodrigues himself:
Lisboa com Carmona [site]

Bloco de Esquerda
- José Sá Fernandes:
Gente de Lisboa [blogue]
Lisboa é gente [site]

CDU- Ruben de Carvalho:
CDU Lisboa [site]
LisboaLisboa [blogue do apoiante José Carlos Mendes]
LisboaLisboa2 [id.]

Cidadãos por Lisboa- Helena Roseta:
Cais das Colunas [blogue do apoiante Lourenço Durão]
Cidadãos por Lisboa [blogue]
Cidadãos por Lisboa [site]

MPT- Pedro Quartim Graça:
Lisboa que te quero verde [site]

PCTP/MRPP- António Garcia Pereira:
Salvar Lisboa! [site]

CDS/PP- Telmo Correia:
CDS/PP: Concelhia de Lisboa [blogue]
Telmo Correia [site]

PPM- Gonçalo da Câmara Pereira:
PPM [site]

PND- Manuel Monteiro:
Lisboa merece [site]

PS- António Costa:
Costa do Castelo [blogue de um conjunto alargado de apoiantes da candidatura]
Lisboa Desgovernada [blogue dos vereadores socialistas na CML]
Unir Lisboa [site]

PSD/ Fernando Negrão:
Lisboa a sério [site]

PS: quem quiser links para canais de vídeo é ir ao youtube, pois a maioria dos candidatos está lá. Só não figura aqui a candidatura do PNR por não a considerar democrática.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Outras portas


A pior maneira de se debater ideias é reduzir os argumentos a um maniqueísmo insuportavelmente dicotómico que rotula o outro como se este se tratasse de uma entidade homogénea de uma só cor. Sempre fui contrário a esta espécie de fundamentalismo argumentativo e penso que isso tem sido demonstrado nos meus posts e comentários que fui fazendo aqui no 'Peão'. Aliás, o objectivo deste blogue sempre foi, como referiu o Daniel, de constituir uma base heterogénea para o debate entre diferentes posicionamentos da esquerda. Entendo que qualquer projecto político digno desse nome se vai construindo a partir de contributos diferenciados e, por vezes, contraditórios. Sempre me fizeram espécie os modelos lineares e unívocos… as correlações elevadas que apontam para uma só direcção. Quando propus a várias pessoas avançar com o 'Peão' pensei, talvez por ingenuidade, que se podia engendrar uma plataforma inovadora de troca de ideias. Mas com o tempo o blogue vem perdendo brilho. As ideias tornaram-se baças e esquivas.
Recuso-me a acreditar que só há duas vias para a esquerda: a dogmática que não quer ser governo e a que é governo e ilude o seu dogmatismo. Há mais esquerda para além destas ‘esquerdas’! Não me interessa entrar nesse jogo de xadrez em que a única jogada possível vai no sentido de demonstrar ao outro a inevitabilidade de uma só alternativa. Esse não é de todo o tabuleiro deste peão. Chega uma altura em que algumas portas deverão fechar-se… Outras se abrirão e espero que sejam mais luminosas. Cá estaremos para as abrir!

Cinematologia Chinesa comparada (to vallera with luv)

Dos poucos filmes chineses que vi nos últimos tempos ficaram-me particularmente na memória dois, por serem muito bons: "2046" de Wong Kar Wai, e "Sanxia haoren" ("Still life" no título internacional) de Jia Zhang-Ke. Achei os dois filmes completamente diferentes. "2046" pareceu-me um filme baseado nos diálogos, muito bons, de onde sai uma enorme poesia. O cenário cria um ambiente de época, romântico, que suporta muito bem a trama e os personagens. Os personagens, esses pareceram-me bem construidos, e perfeitamente credíveis no seu contexto. Já "Sanxia haoren" os diálogos pareceram-me estranhos, os persongens inverosímeis, o argumento no limite, e o cenário vagamente surreal. Pareceu-me tudo de uma excelente concepção, para construir no extremo do real, ou para lá disso, uma espécie de metáfora sobre uma qualquer transformação social na China de tempos recentes.

Entretanto conheci recentemente, por razões profissionais, um chinês radicado há poucos anos na Europa. Um cinéfilo convicto, amador e conhecedor do cinema chinês (e não só). Entre outras coisas aconselhou-me a ver o filme original em que Scorcese se baseou para fazer "The Departed (Entre Inimigos)", (ao que parece no original o filme tem um verdadeiro final, ao contrário da versão Scorcese). Falando de "2046" e de "Sanxia haoren" achou-os também completamente diferentes. Em "2046" achou os diálogos estranhíssimos (ele tem a vantagem de perceber a língua original), o ambiente vagamente surreal, a trama e os personagens inverosímeis, mas tudo muito bem construído, de uma grande beleza e poesia, mas longe da realidade. Quanto a "Sanxia haoren" (pelo qual pareceu ter alguma preferência) achou o filme um quase-documentário. Um retrato perfeito de uma certa China que existe hoje, com diálogos e personagens realistas e credíveis, e um enredo bem conseguido. Aconselhou-me aliás a ver os outros filmes recentes de Jia Zhang-Ke, para ter uma imagem da China de hoje. Esses filmes vão na linha quase-documental de "Sanxia haoren", em que o realizador tenta até inserir o próprio espectador na tela.

Afinal é tudo relativo não é? Até a maneira como se vê os filmes...

teatro do bom e do melhor

No dia 27 de Junho estreou a peça do Zé Maria, Avarento (com Teatro Praga) no Teatro Nacional S. João, no Porto. Fica em cena até 8 de Julho, matiné de Domingo.
Dia 5 de Julho estreia em Lisboa, no Instituto Franco-Português a encenação do Zé de uma peça de Jean-Luc Lagarce, intitulada História de Amor (Últimos Capítulos) .
A não perder!

segunda-feira, 2 de julho de 2007

O sexo anal e os riscos para a saúde: uma perspectiva técnica (à atenção de Patrícia Lança)

Patrícia Lança escreve este post a alertar para os riscos que a prática da sodomia representa para a saúde. Trata-se de um excelente exemplo de como se pode distorcer a informação na tentativa de justificar "cientificamente" uma posição cuja única justificação é moralista. Um verdadeito "caso-estudo" que se poderia aproveitar para os manuais, e aulas de faculdade. Este post vai ser longo, mas vale a pena desmontar a argumentação pseudo-científica de Patrícia Lança.

Comecemos pelas fontes. Para procurar fontes científicas imparciais e objectivas eu pessoalmente uso a Pubmed, eu qualquer investigador em Biologia ou Medicina. Será necessário explicar o porquê da necessidade fazer uma pesquisa objectiva e sem enviezamento? A Pubmed trata-se da maior base de dados mundial para artigos publicados em Ciências Biomédicas, e dá acesso aos resumos dos artigos referenciados. É uma espécie de Google da bibliografia nesta área (gentileza do National Institutes of Health - NIH - americano). Aconselho vivamente todos os leitores interessados nestas coisas a perder algum tempo a fazer pesquisas na Pubmed. O que não está publicado em revistas referenciadas não aparece na base de dados por uma simples razão: para ser publicado um artigo passa pelo crivo da crítica de outros especialistas na mesma área, saber que passou por esse crivo é uma garantia de credibilidade, sem essa chancela um trabalho não é referenciado. Patrícia Lança usa critérios diferentes, vai buscar as suas fontes à Family Policy Network, onde seguramente tem muito mais probablidade de encontrar o que procura, mas em termos de isenção e objectividade estamos conversados.

Outro aspecto importante é a confirmação pela comunidade científica dos resultados publicados. Quando a mesma afirmação é consistentemente encontrada em estudos independentes é obviamente muito mais credível, convém levar isto em conta quando se faz pesquisas bibliográficas. Como é também uma boa ideia levar em conta o prestígio da revista em que o estudo é publicado e a instituição onde o trabalho é feito. Se não se levar nada disto em conta, e se se procurar bem, encontra-se sempre uma referência para justificar aquilo quisermos, e o seu contrário. Tentando levar estes critérios em conta encontrei, por exemplo, este artigo, dum tal Chris Beyrer (que não conheço), mas que trablha no Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health. Johns Hopkins é uma das mais reputadas instituições americanas e mundiais em Biologia e Medicina. Mais, este artigo é um comentário resultante de uma reunião internacional em HIV, não é tanto a opinião do seu autor como é o resultado de um consenso entre os especialistas presentes nessa reunião. Pode ler-se logo no resumo:

An emerging epidemic of HIV infection among men who have sex with men in developing countries is primarily spread through unprotected anal intercourse but is also driven by limited HIV infection prevention services, social stigma, and the lack of human rights protection.
(destaque meu) Digamos que é um ponto de vista completamente diferente do que nos apresenta Patrícia Lança. Eu diria até que a senhora se inclui no "lack of human rights protection".

E agora rebatendo alguns pontos dos específicos apresentados por Patrícia Lança:

- A 1997 study in British Columbia found the life expectancy of men who engage in sodomy to be comparable to that of the average Canadian man in 1871

O tal estudo (resumo aqui) não só é de 1997, já de si não muito actual, como se reporta a resultados obtidos entre 1987 e 1992. Nessa altura a realidade tanto em termos de terapia da SIDA como de prevenção era outra completamente diferente. Recomenda-se a utilização de fontes mais actualizadas. Mas não é só isso...

- Ninety-five percent or more of the AIDS infections among gay men result from receptive anal intercourse

Obviamente que se a SIDA é transmitida sexualmente, e se os gay men são os homens que têm relações sexuais com outros homens, como quereriam então que a SIDA fosse transmitida? Por telepatia? E aqui a má fé de que faz prova é gritante. Tal como no ponto anterior, Patrícia Lança, ou o autor do estudo, omitem um pormenor muito importante referido em toda a bibliografia que consultei, a palavra "unprotected" (como se pode ver por exemplo na citação que coloquei mais acima). Deveria estar escrito "unprotected receptive anal intercourse", porque o problema não é a sodomia per se mas sim o facto de o sexo, anal ou não, ser desprotegido. O uso do preservativo, como é sabido, reduz enormemente o risco (e aliás o mesmo se aplica ao coito vaginal entre homem e mulher, e gostaria de saber se Patrícia Lança é coerente nas ilacções que daí retira, mas já lá vamos...).

Outro aspecto referido no tal post é risco de Câncro Anal. É verdade que a sodomia comporta um risco de contrair este tipo de Câncro (pode ler-se este artigo de revisão sobre o assunto). Mas vale a pena olhar para a questão mais de perto. A principal causa de Cancro Anal é a transmissão de um Vírus, o Papilomavírus Humano. Os factores de risco são o tabaco, como em qualquer tipo de cancro, o HIV, que diminuindo as defesas imunitárias diminui a resitência a este como a qualquer outro tipo de vírus (nada de novo), e a transmissão do Papilomavírus por via sexual. Sim, o Papilomavírus é transmitido sexualmente, tal como o HIV. A protecção é a mesma, o preservativo. Mais uma vez não é a sodomia em si que é o problema, é o sexo sem protecção que expõe o indivíduo ao risco.

Entretanto nas minhas pesquisas sobre o assunto encontrei um artigo muito interessantes sobre o risco do Papilomavírus Humano para as mulheres (resumo aqui). Ora sucede que o Papilomavírus, que pode provocar Cancro Anal a quem pratique a sodomia, pode também provocar Câncro do Colo de Útero a mulheres que pratiquem cópula vaginal sem protecção. Mas não e só, a gravidez aumenta o risco para a variante invasiva do Câncro do Colo do Útero, na proporção do número de gravidezes. A cópula vaginal entre homem e mulher comporta os mesmos riscos (ou mais no caso de haver gravidez) do que comporta a prática da sodomia.

Fica portanto aqui a questão: Se os riscos para a saúde provocados pela sodomia são razão suficiente para rejeitá-la, então, uma vez que os mesmos riscos se verificam no coito vaginal, devemos também em coerência rejeitar esta prática? O que nos leva a uma outra questão: quais são então as práticas que permanecem aceitáveis neste quadro? O sexo oral, a masturbação ou a abstinência? Gostaria de saber o que pensa Patrícia Lança do assunto.

domingo, 1 de julho de 2007

Volta sempre!

O Hugo Mendes decidiu deixar o Peão, o que eu, como outros, lamento bastante. Os blogues colectivos infelizmente têm destas coisas. O Hugo tem as suas razões, que são obviamente legítimas. Pela minha parte espero que o Hugo reconsidere a sua posição e continue a blogar conosco.

Os debates aqui no Peão foram, como diz o Hugo "vivos, frontais, agonísticos", mas foram também, na minha humilde opinião, ricos, interessantes e úteis. O Hugo sendo um dos bloguers mais activos aqui no Peão muito contribuiu, e bem, para esses debates. Permitiram pensar melhor sobre o que deve ser a esquerda em questões actuais, e - isso conta muito - fizeram-me por vezes mudar de opinião. O Hugo, como ficou à vista de todos, tem uma excelente "bagagem", e é o debate que fica a perder. Não sei o que pensam os outros peões, mas pela minha parte proponho que se deixa a porta do regresso aberta ao Hugo Mendes.

P.S. - Pessoalmente tenho ainda a agradecer ao Hugo ter-me convidado para o Peão.