quarta-feira, 17 de outubro de 2007

DAQUI, DE AGORA E SEMPRE

Nasci em 1971 e nesse ano foi editado um dos mais belos álbuns que se compuseram antes da revolução, intitulava-se Gente Daqui e de Agora. A voz era de Adriano Correia de Oliveira e a música de José Niza. Procurei na Internet a imagem da capa do disco mas não a encontrei, era verde e tinha um desenho com traços a preto que vincavam a urgência do AGORA! Felizmente, a madrugada se fez clara em Abril de 1974. Como já parecia anunciar este poema de Manuel Alegre... Pena é que passados mais de 30 anos a gente DAQUI voltou a fazer-se tão triste como se chovesse em pleno Agosto.


E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem do teu rosto
E alegre se fez triste como se
Chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu dedos nos teus dedos meu nome no teu nome.
E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.

Poema de Manuel Alegre musicado por José Niza e cantado por Adriano em Gente Daqui e de Agora.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Booker Prize

Foi anunciado há pouco a vencedora do Booker Prize deste ano: Anne Enright com o título The gathering. Os favoritos eram Ian McEwan e Lloyd Jones, mas a escritora irlandesa, conquistou o júri com a sua história de uma família disfuncional e que segundo a própria deixará os leitores deprimidos: when people pick up a book they may want something that will cheer them up, in that case they shouldn’t really pick up my book…
A autora tem um livro traduzido pela Teorema, O prazer de Eliza Lynch (2002).

Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza

Celebra-se amanhã o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, efeméride criada pela ONU em 1993. Hoje foi celebrado o Dia Mundial da Alimentação, aproveitado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para dizer ser "inaceitável" existirem hoje 854 milhões de pessoas sofrendo de fome crónica, num "mundo de abundância" (vd. aqui). Em Portugal, os dados do INE para 2005 indicam uma taxa de risco de pobreza de 19% (vd., no Público de hoje, "Pobreza aumenta entre as famílias com três ou mais crianças", por Bárbara Simões e Andreia Sanches, secção «Portugal», p. 8). A este propósito a Civitas e a Assoc. ATD- Quarto Mundo (sobre esta vd. tb. aqui) convocaram uma "iniciativa de luta contra a pobreza". Fica aqui o convite que nos chegou:
"CONVITE
Caras (os) Amigas (os)
No próximo dia 17 de Outubro, Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, a CIVITAS - Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos e a Associação ATD- QUARTO MUNDO promovem, em conjunto, uma iniciativa de luta contra a pobreza.
Vimos convidar-vos a que se reúnam connosco e com pessoas que recusam a situação de exclusão de que são vítimas, junto à Laje em granito preto sob o Arco da Rua Augusta, em Lisboa, pelas 12 horas do dia 17 de Outubro. Esta Laje, que aí colocámos em 1994, assinala a nossa solidariedade com a luta contra a pobreza levada a efeito pela ATD/Quarto Mundo, associação fundada em 1957 pelo padre Joseph Wresinski. Como nela se lê: «Onde os homens estão condenados a viver na miséria / aí os direitos humanos estão violados. /Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado».
Daremos a voz a pessoas que lutam contra a situação de exclusão e de pobreza e reafirmaremos a nossa determinação em continuar a luta pela dignidade e pelos direitos de todos os seres humanos. Apelamos à unidade de todos nesta luta, em espírito de fraternidade. CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA
CIVITAS – Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos
Associação ATD-QUARTO MUNDO"
Nb: na imagem, logo da REAPN- Rede Europeia Anti-Pobreza.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O que é um transgénico?

Volto ao debate sobre os transgénicos aqui no Peão, dando sequência a um outro post do Manolo. Este post, correndo o risco de ser uma seca, pretende ser um pouco mais técnico. Fala-se muito (debate-se pouco) de transgénicos ou Organismos Genticamente Modificados (OGM). A primeira questão que me parece importante discutir, e que me parece muito confusa para muita gente é: O que é um transgénico?
Por definição um transgénico é um organismo no qual se inseriu informação genética de outro organismo. Tome-se o milho transgénico por exemplo: o milho é sensível a uma praga que é a broca do milho, uma lagarta, mas há uma bactéria que produz uma toxina que mata a broca, vai daí isola-se o gene da toxina da bactéria para o introduzir no milho, e têm-se o milho transgénico. Há outros exemplos de transgénicos, como os ratinhos de laboratório. Virtualmente todos os estudos de genética de ratinhos - que é o modelo de laboratório mais próximo do humano, e logo aquele com mais interesse directo para a investigação relacionada com a medicina - são feitos com transgénicos. O desenvolvimento desta tecnologia deu até direito ao prémio Nobel da Medicina a três investigadores este ano.

Qual é então o problema dos transgénicos? Haverá algum problema intrínseco à criação de transgénicos? Alguns dirão que será uma forma de criar monstros genéticos, que estamos a brincar com as leis da natureza. Parece-me que é o caso dos Verdes Eufémios, e é seguramente o caso de quem faz campanhas usando como sloogan as supostas "Frankenfoods". Isso é uma argumentação que fica algures o místico e o religioso. Não tenho nada contra os místicos, ou os religiosos, mas num estado laico não podem impôr essa visão aos outros, nem muito menos ao quadro legal. O que é a Ciência afinal, senão brincar com as leis da natureza?

No caso da agricultura não há nada de fundamentalmente novo na utilização dos transgénicos que não existisse já, excepto que o progresso é muito mais rápido. Pelos métodos tradicionais também se poderia produzir estirpes resistentes à broca. A diferença é que pelos métodos tradicionais de cultivo e selecção ter-se-ia que esperar que o acaso produzisse o tal milho resistente, o que demoraria provavelmente séculos. Usando os transgénicos podemos conceber e produzir esse milho nós mesmos. Se temos o conhecimento científico que nos permite fazê-lo porque não benificiar dele? Poder-se-á dizer que é diferente porque se está a introduzir no milho um gene novo de que ele não dispõe. No entanto pelo processo de selecção tradicional acontece exactamente o mesmo. Simplesmente o novo gene ou genes são gerados por mutações aleatórias, e por isso demora muito mais tempo, mas pode até dar-se o caso de no fim se obter um milho que produz uma toxina que o torna resitente à broca, como se fosse um OGM. Para além da perda de tempo, não vejo qual seja a diferença. Os OGMs podem ser até, em teoria, uma maneira de viabilizar cultivares tradicionais que hoje são pouco rentáveis economicamente. Os transgénicos têm o potencial para diversificar as variedades que se utilizam hoje em dia na agricultura.

E se introduzir genes é um processo pouco "natural" o que dizer das enxertias, ou dos fertilizantes químicos, ou dos pesticidas? Claro que podemos recear que um milho que produz uma toxina contra a broca possa ser nocivo para o consumo humano. Obviamente que é uma receio mais que legítimo, mas o problema aí não é do tansgénico em si, mas de cada transgénico em particular. E cada OGM terá que ser avaliado, numa base caso-a-caso, para determinar se constitui um risco para a saúde. Os regulamentos já existem, e são draconianos (o que tem efeitos perversos, mas isso fica para outro post). Tal como no caso dos pesticidas ou fertilizantes, a resposta é a mesma: regulamentação e fiscalização. Outro receio que existe é o da poluição genética, é um receio potencial, mas até hoje, e que eu saiba apenas teórico, não há evidências de que a poluição genética ocorra de facto. E não me parece nada surpreendente, basta lembrar que é no interesse dos produtores de sementes transgénicas (grandes multinacionais) que os OGMs sejam completamente estéreis, para obrigar os agricultores a comprar sementes todos os anos.

Não me parece que haja nada de fundamentalmente errado com os OGMs, algo que seja intrínseco à natureza do próprio transgénico. O que há, isso sim, são muitos problemas, no que respeita ao uso de transgénicos na agricultura, que são o resultado de uma má utilização de uma tecnologia com o potencial de ser benéfica. É um pouco como os medicamentos: à partida servem para curar doenças, e no entanto as farmacêuticas, para proteger os seus monopólios, processam os países do terceiro mundo que produzem genéricos. Não me parece que isso seja uma boa razão para os Verdes Eufémios começarem a destruir indiscriminadamente fábricas de medicamentos.

O problema não é dos transgénicos em si, mas do mau uso que se faz deles. A solução como para muitos casos, é a regulamentação e a fiscalização, é necessário sobretudo que o poder político não se demita do seu dever, e não deixe tudo no poder do mercado.

O impagável Outono lisboeta...

Retomo aqui as apaixonadas impressões de Lisboa feitas pelo médico Jorge ao seu amigo republicano João Chagas, então em Paris, agora relativas ao dia de hoje há 94 anos atrás. É claro que agora já ninguém regressa da praia por esta altura, as toilettes são outras (mas parece que vamos voltar ao preto-e-branco na próxima Primavera-Verão, hélas..), etc. e tal. Enfim, vale a pena descobrir as diferenças:
"Por cá temos tido dias lindíssimos: o impagável Outono lisboeta. Regressa-se à cidade com as faces queimadas e um ar retemperado. As crianças das Juntas de Paróquia param com os banhos. Ouvem-se as últimas Sementeiras. Aparecem as primeiras toilettes de Paris. A arcada anima-se. Há um ligeiro perfume de Ambaca".
João Chagas
(Correspondência literária e política,
Lx., Empresa Nacional de Publicidade, 1958, vol. II, p.179)

Nb: imagem de corrida de cavalos no hipódromo de Lisboa, por Joshua Benoliel (1913, não sei se é em Outubro, mas foi o mais condizente que encontrei para ilustrar o texto).

Qual será o prato principal servido no Senado?

Depois de uma bem-sucedida pescaria no pouco do que resta da Mata Atlântica paulista, onde a inspiradora fritada de cherovias (*) sugerida pelo Daniel foi a grande vedete dos comilões-pescadores, volto à civilização e, assim de supetão, recebo a notícia de que o São Renan Calheiros (PMDB – AL) descolou finalmente a sua bunda arrogante da cadeira de presidente do Senado. Explico: santo porque ele não se cansa de afirmar que está vivendo o seu maior martírio” e “calvário”. Logo...

Apesar de ser apenas uma licença de 45 dias, a movimentação de alguns políticos na Ilha da Fantasia de Brasília indica que a “fritura” do santo-senador começou. Por exemplo, Aloízio Mercadante (PT-SP) declarou com todas as letras que “Renan Calheiros não tem mais condições de continuar na presidência do Senado”. Em outras palavras, o petista insinuou o seguinte: ou ele renuncia definitivamente ao cargo ou perde o mandato parlamentar por decisão do Plenário. Resta saber, portanto, se o PT terá azeite suficiente no tacho pra fritá-lo ou se fará um belo acordo pra tudo terminar em pizza.

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(*) Não sei se cometi alguma heresia com a receita original, pois substitui a água por cerveja no preparo do polme. Justifico: é que fritas assim as cherovias (conhecidas em São Paulo como pastinacas) ficam mais sequinhas e estaladiças.

Nb. Não estou pirado não. Como a cherovia é bem mais saudável e mais simpática, optei por postar a sua foto em vez do rosto de santinho-do-pau-oco de Renan Calheiros. Que o reino vegetal me perdoe.

Clique aqui pra entender as acusações contra Renan Calheiros. E aqui pra sua trajetória política.

domingo, 14 de outubro de 2007

O que seria deste país sem as uvas


Oh!, quem me dera ser um camponês, como que uma emanação da paisagem que o meu olhar abraça daqui, e bem forte, bem novo, bem fulvo, recolhendo ao anoitecer dos matos com o meu feixe de lenha à cabeça, a carreta do vindimador chiando por algum côrrego pitoresco e um cordeiro que balisse adiante, na língua dos antigos deuses foragidos, a elegia violeta do morrer do Sol! E de roda de mim, por cima de mim, ouvindo tristes gotinhas de água a cair, com o seu 'ting-ling' de fonte amorável, coração dos musgos romanescos... Evoé, padre Baco!

Dentro de pouco chegarão as vindimas, festa de abundância nesses lugarejos pobres, em que os terrenos delgados não parecem felizes para qualquer outra cultura.

Enquanto o Meio-Dia e o Sul colhem e pisam a pés de homem os cachos rúbios e opados, no lagar onde o mosto ferve, como num mistério dionisíaco, ao norte, pelas encostas do Douro, sobranceiras ao rio, já se não oferece como outrora o espectáculo da verdura hilariando em vários tons esmeraldinos e os esquisitos recortes das parras, dando a ilusão de pequenas faianças de esmalte maravilhoso.

Fialho de Almeida, O País das Uvas.

Imagem: Fialho de Almeida visto por Vasco.

Todos ao Zénith (nem que seja só em espírito, como é o meu caso)!

Todos ao Zénith, em Paris, hoje às 18h (hora francesa)!

Não, não é para ver o Caetano Veloso (já foi na semana passada)!

É para que ninguém falte à primeira grande iniciativa popular da oposição (seja ela genética ou adquirida) ao sarkozysmo!

Já não era sem tempo!

Todos ao Zénith, nem que seja só em espírito, como é o meu caso!

Até porque já está esgotado!

Todos contra o novo dispositivo da lei francesa, já aprovado pelo parlamento e o senado, que prevê o recurso aos testes genéticos para os imigrantes que solicitam o reagrupamento familiar!

Contra o racismo fronteiriço! Contra a família definida por critérios genéticos! Tira a mão do meu DNA!

É hoje, às 18h (hora francesa)!

Com transmissão na net, aqui, aqui ou aqui!

sábado, 13 de outubro de 2007

Contra todas as expectativas

Talvez o Rugby venha finalmente a tornar-se um desporto com algum interesse. Talvez a Argentina consiga chegar à final, contra Inglaterra, e talvez ganhe com uma mãozinha de Deus. Aí sim, o Rugby merecerá a atenção devida aos grandes desportos. Até lá...

Um cheirinho pró caminho

"Outro dia - era sábado - jantei em Colares (em Colares, repare, aqui mesmo à mão) no restaurante do senhor Gil. [...] E a açorda de sável em Salvaterra? E o frango na púcara em Vila Franca? E as enguias na Outra Banda? E as caldeiradas em Sesimbra?
- Você está a fazer-me um destes apetites!"


Alexandre O'Neill
(«O da minha mulher é ímpar...», in A Capital, 6/XII/1973, rep. em Coração Acordeão, Lisboa, O Independente, 2004, p.54/5)
Nb: taberna de Lisboa c.1930, imagem de Ferreira da Cunha (AFML)

A mão invisível

Havia uma altura em que a publicidade invadia as caixas do correio lá do prédio. Era uma ventania que por ali passava, não havia tampa de portinhola que resistisse (refiro-me às tampas que resguardam as ranhuras por onde entram as cartas). Todas ficavam empinadas e atafulhadas de papel. Nesses tempos, uma certa mão invisível empreendia na tarefa de fechar as portinholas. Era uma gestão diária que se prolongava até ao fim do dia. Era trabalho árduo ainda por cima não remunerado. Só uma alma caridosa poderia se encarregar de tão desgastante tarefa. Contudo, sempre que tirava o meu próprio correio, acontecia ter a sensação de que tal mão mexia mais do que devia. Havia qualquer coisa na forma da disposição das cartas que me empertigava os neurónios mais recônditos. A mão invisível não só rondava o correio como o queria controlar. De certeza que dava a sua espreitadela e, à socapa, lá tentava pôr mão na correspondência. Desejava atribuir-lhe uma ordem. É extraordinário como a suposta invisibilidade se revela nos sinais ínfimos e nas pequenas manipulações (a invisibilidade não resiste em espreitar e em tocar). A capacidade de se esconder dava-lhe o descaramento suficiente para querer mexer. Às vezes era apanhada em flagrante mas aí demonstrava a sua outra arte: a do disfarce. É uma descarada esta mão invisível que rondava as portinholas da correspondência. Esta mão adora a ordem, fazia-lhe muita impressão as portinholas empinadas e abertas. Que infâmia! Era preciso fechar todas as ranhuras. Pois é, as mãos invisíveis não gostam que as ranhuras estejam abertas para todos. Felizmente, ainda existe uma administração do prédio, que no seu papel centralizador e autoritário, pôs cobro à invasão publicitária ao instalar uma caixa com ranhura na porta da rua com o propósito de recolher todo o esse lixo. A ranhura abriu-se à rua e a mão invisível perdeu o seu emprego. A publicidade já não passa para dentro do prédio… mas as portinholas, essas continuam a ser liminarmente fechadas.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Destinos singulares


Momentos anoréticos à parte, a publicidade consegue, por vezes, criar imagens irresistíveis. No Verão, já aqui se tinha mostrado uma campanha deveras literária. Para a rentrée, fica a nova produção da Samsonite com a bela e esfíngica Christina Ricci, pronta para partir para destinos singulares.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Islão em Lisboa

Até ao final do Ramadão, já amanhã, ainda há tempo para ir até à feira do livro islâmico na Mesquita de Lisboa. Para a semana inaugura a exposição Olhares cruzados sobre Arte e Islão, na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, a Picoas, com um programa de actividades que vai desde cursos sobre o Islão, a um workshop de cozinha libanesa e turca. Finalmente, na Faculdade de Letras de Lisboa, o III Curso Livre de História da Arte, este ano sobre Arte Islâmica e que inclui visita a Mértola.

Camélias para Óscar Lopes

Começou ontem no Porto um ciclo de homenagens ao ensaísta Óscar Lopes, uma semana depois de ter feito 90 anos. O programa inclui exposições, livros, concertos e encontros. É inteiramente justo este reconhecimento.
A organização cabe à Cooperativa Árvore, entre outros patrocinadores, incluindo o Ministério da Cultura.
Rui Rio é que não vai em modas e não participa na homenagem, tendo recusado inclusivamente patrocinar um novo livro seu chamado Modo de ler o Porto (vd. aqui)... Está bem de ver, Óscar Lopes não é Superstar e, ainda por cima, é comunista, logo, ateu... Vade retro Satanás!
As camélias na imagem ao lado evocam o gosto que tem pelo seu jardim de cameleiras na Rua dos Belos Ares.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Toca a voar...

Estas linhas têm um culpado óbvio, o DJ Im-Becil, com as suas provocações uns posts abaixo.
É verdade, também eu fui contaminado por esse vírus atiradiço que se chama música de dança...
Gosto de ouvir e de dançar esta alienação que alguns teimam em chamar música. Em doses moderadas, atenção. E com playlist bem escolhida, de preferência.
Quando retorno a casa oiço agora no rádio a Cidade FM (olha, este pirou de vez, dizeis vós). A desculpa: apanhei aí uma música de que gostei: chama-se «Rise up», é dum Yves LaRock, e não é que aquilo é hipnotizante? Não acreditais? Então, ide ouvir aqui (na rádio tem os graves mais fortes..). Aviso, desde já, que a letra não conta, embora em engarrafamentos possa ajudar a levantar voo...
Faz lembrar algumas das canções dos Propaganda, por exemplo. Enfim, gostos. Sim, os Propaganda são melhores, mas é o que há agora.

Classificações etárias

Em tempo de festivais e festas de cinema (Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa; Festa do Cinema Francês, ainda até dia 15; Ciclo de Cinema de Israel, no Campo Pequeno de 18 a 24 de Outubro; DocLisboa a partir de dia 18), interrogo-me sobre as razões que levaram a que apenas o primeiro, o Gay e Lésbico, tivesse, quer no programa, quer no site, a indicação clara que todas as sessões do programa fossem para «Maiores de 18». É certo que só vi um filme, sem sexo explícito, mas com uma trama política algo violenta (filme israelita intitulado The Bubble, em que um israelita se apaixona por um palestiniano), o que, talvez lhe valesse a classificação, mas de qualquer forma parece-me difícil de acreditar que todos os filmes e, sobretudo, os documentários, inclusive um português sobre o casal de mulheres que tentou casar-se numa conservatória nacional, se enquadrassem na designação de M/18.
Fico a pensar se um beijo hetero é para M/6, uma relação sexual para M/12 ou de 16, mas que qualquer demonstração homo seja imediatamente remetida para uma classificação de M/18. Só me resta perceber se devo atribuir este requisito à Direcção Geral de Espectáculos ou à própria Organização do Festival.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

“Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Pois bem, ressuscito o grande Tim Maia para escrever umas mal traçadas linhas sobre as eleições diretas no PT, marcadas para dezembro. Com o slogan “renovação”, o segundo maior partido da base aliada (o maior é o PMDB de Renan Calheiros, o todo-poderoso que não tira o seu bumbum arrogante da cadeira de presidente do Senado nem morto e ainda mantém o governo como seu refém) vai às urnas com sete candidatos, que deverão encarar uma maratona de 10 debates. Até aqui nãoqualquer novidade na democracia interna petista. Como também não será novidade o PT eleger o velho para comandá-lo até 2009: o candidato à reeleição, Ricardo Berzoini.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Não ao fim da História

Leio nos blogues que a revista História corre o risco de fechar.

E espero não estar a acordar tarde demais.

Assinem a petição online para sensibilizar instituições e particulares, e manter esta revista de divulgação de temas históricos, a única que o faz em Portugal, e com qualidade. Para quem ensina sobre temas relacionados com Portugal no estrangeiro, como é o meu caso, a revista História é um instrumento de trabalho muito útil, com texto acessível e ilustração de qualidade.

E uma pessoa só se apercebe bem disso nestes momentos — quando se fala do fim.

(a petição vai quase em mil assinaturas e, ao que leio, por exemplo aqui, 10 mil euros é o suficiente para impedir o fecho. Ora, mil peticionários a 10 euros cada um não me parece uma utopia assim muito grande)

Trabalhos e paixões de Benito Prada

Ao Lanero, por estes dias em terras nordestinas

Li há uns dias atrás um romance de que gostei muito. Chama-se Trabalhos e paixões de Benito Prada, foi escrito por Fernando Assis Pacheco e relata as andanças dum galego raiano emigrado no Portugal republicano, que vai subindo a pulso na vida.
Para Benito Prada, o protagonista galego deste romance, a política é algo em que tenta não envolver-se publicamente, preferindo concentrar-se no negócio da venda de tecidos e vestuário. Em vão, pois a política neste tempo conturbado não deixa ninguém indiferente (acabará por assumir a sua inclinação para posições progressistas e democráticas, mesmo diante da polícia política salazarista).
A este propósito, Assis Pacheco relata o episódio verídico duma revolta militar contra o presidente Sidónio Pais, na Coimbra de 1918, que é aonde vive o nosso Benito na altura desta intentona ocorrida em várias cidades.
Ora, Benito, como qualquer ser humano, é curioso e, para mal dos seus pecados, também audaz. Vai daí resolve inteirar-se sobre aqueles tiros que "ecoavam ao longe, na cidade alta". No Café Montanha, da Baixa coimbrã, tem esta resposta audaciosa à interpelação dum amigo:
"«Vai ver a batalha?»
«Já agora porque não?», disse Benito. «Mais foguetes tem o San Bartolomé em Casdemundo [sua terra natal].»
O lente gabou-lhe a boa disposição, pensando para si que o que falta a este mundo maligno são os inocentes.
"
Nem o pobre homem sabia no que se metia. Seguem-se várias linhas de puro gozo literário. Aproveito para vos deixar um cheirinho bem gostoso:
"Viu, não viu, imaginou tão só, quando entrou na Alexandre Herculano uma rajada de metralhadora varreu a rua, ele esgueirou-se para a primeira porta, respirou fundo, ajeitou o chapéu, subiu três degraus encerados, era um colégio […]
Na meia hora que se seguiu a esta travessia da revolta de Outubro não houve tiros e Benito equivocou-se decidindo que algum dos lados ganhara, o que estava longe de suceder. […] Ao aproximar-se [dos Arcos do Jardim] um obus rebentou a empena de um prédio. Deitou de novo a fugir, rezando uma oração esquecida para que os estilhaços o poupassem e jurando que aquela era a última vez que se confundida com os assuntos da tropa. Na cerca do hospital estava montada uma posição de metralhadora. O sargento veio revistá-lo, e ao ouvir um senhor tão bem posto gaguejando em ourensano selvagem riu-se e abriu os braços:
«Um correspondente de guerra! Que mais há-de acontecer?»
Benito resolveu ficar com os soldados, que eram do Grupo de Subsistências. […] O sargento sondou-o:
«Está com quem, o cavalheiro?»
Benito podia ter respondido sinceramente que não estava com ninguém, que já lhe bastava o prodígio de galgar da Baixa à Alta sem um chumbo no cadáver, indubitavelmente salvo pelos anjos de gesso da igreja de Casdemundo. Mas o sargento puxava-o pela gravata, e ele disse num fio de voz:
«Estou com os homens de boa vontade.»
«Está com a malta!», rejubilou o sargento.
Ao cair da noite vieram ordens para a posição de metralhadora recuar.
[…]
«E você deu à sola.»
[pergunta dum amigo de Benito que ouve já o relato da sua aventura]
«Deixei-os lá a discutir, meti à Rua Larga e já não havia ninguém fardado, só civis. Perguntavam-me o Sidónio ganhou, a Artilharia ganhou? Eu, pela cara, respondia ganhou o Sidónio, ganhou a Artilharia, ganhámos todos.
"
Fernando Assis Pacheco
(Trabalhos e paixões de Benito Prada, 1.ª ed., Porto, Asa, 1993, p. 137-41)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A blogofrase da semana (contra a pena de morte)

"Capital punishement means that those without the capital get the punishment"
por Jeremy Irons (citando um ditado americano) no Arrastão.

(tradução: Pena Captial quer dizer que aqueles que não têm o capital ficam com a pena)

domingo, 7 de outubro de 2007

Repudiamos o anti-semitismo

Reuniram-se hoje no Cemitério Judaico de Lisboa pessoas de diversas confissões religiosas, gente da política e da cultura, para reprovar o vandalismo ali perpetrado, no passado dia 25 de Setembro, por dois skinheads de 16 e 24 anos (este já arguido num processo judicial por discriminação racial e ofensas à integridade física) que inscreveram suásticas nazis em cerca de 20 túmulos e destruíram placas de identificação dos mortos. Estes indivíduos tinham na sua posse uma lista de alvos judeus.
Em comunicado, a Comunidade Israelita de Lisboa qualificou este crime "não só como um crime contra a Comunidade Judaica bem como uma ofensa à Sociedade Civil Portuguesa, à Democracia e ao Estado de Direito".
O Rui Tavares escreveu na sua coluna do Público um excelente texto a propósito.
Condenamos este odioso crime anti-semita e solidarizamo-nos com todas as manifestações contra o racismo.
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Imagem: Paulo Guedes, Casa Ventura Terra (Sinagoga de Lisboa), [c.1903]. Retirada daqui.

Vai trabalhar Madiran!

Na minha senda diletante na busca de outros vinhos franceses, para além da dialética Bordeaux Bourgogne, deparei-me com alguns problemas de ordem metodológica. O primeiro foi o de encontrar uma maneira eficaz de encontrar bons vinhos que não inteiramente determinada pelo acaso. A ideia mais óbiva que me ocorreu foi a de ir a restaurantes com amigos franceses conhecedores da matéria, e seguir os seus conselhos. Sem dúvida que deste modo consegui beber bons vinhos anundantes vezes. No entanto esta abordagem apresenta um pequeno inconveniente: vá-se lá saber porquê, no dia seguinte não me consigo lembrar do nome do vinho (não raras vezes nem lembro sequer de ter saído do restaurante). Continuo com esta abordagem mas sem gende sucesso, pelo que decidi adoptar abordagens complementares. Por exemplo, comprar vinho no super-mercado. Tem uma vantagem, que é a de ficar imenso tempo a olhar para a garrafeira antes de escolher, o que dá um ar de intelectual e de profundo conhecedor de vinhos, é óptimo para impressionar desconhecidas. Não é muito eficaz no que toca a conhecer vinhos, sobretudo quando a decisão final se baseia no aspecto visual da garrafa, é quase como escolher ao acaso.
Não me lembro como, andava eu a tentar lidar com estas limitações metodológicas e dei por mim a abrir um garrafa de um vinho que me era inteiramente desconhecido, o Madiran. Tendo o cuidado de não exagerar nas minhas palavras, é de longe o meu favorito dos vinhos franceses. Eu que sou um gajo que gosta de vinhos encorpaditos, mas tenho um problema ideológico com o Bordeaux industrial (vide post anterior). Na realidade não é só ideológico, o Bordeaux industrial até é relativamente mau, e hoje em dia é difícil encontrar um Bordeaux que não seja industrial. O Madiran é encorpado, robusto, vinho com personalidade, é como um bom Bordeaux sem ser Bordeaux. Na minha grelha de classificação leva cinco pontos na escala de Bordeaux, mas ainda leva dois pontitos na escala de Bourgogne. Apesar do corpo tem um aroma, mais a dar para os frutos vermelhos que é bem agradável. Tem um defeito que os apreciadores do vinho até costumam considerar como uma qualidade: é um vinho preguiçoso. Faz tudo devagar, leva algum tempo a envelhecer, aconselha-se vivamente as garrafas com mais de quatro anos para evitar decepções. Também é um vinho que leva tempo a respirar, é bom abrir a garrafa com antecedência, pelo menos uma horita. Quem não tem tempo para uma refeição pausada, longa, com conversa à mistura, é melhor não a acompanhar com um Madiran. A vantagem deste vinho é que, talvez por não ser um vinho muito comercial, está sistematicamente sub-valorizado. Encontram-se facilmente boas garrafas, com mais de 5 anos por menos de 7 euros. É um vinho que acompanha bem refeições ricas, como carnes grelhadas, assados, guisados, cozidos, estufados, bacalhau no forno, etc... (dentro do "etc..." cabe quase tudo, excepto sardinha assada num restaurante de praia em pleno Verão).
Graças aos ofícios de uma clube de amadores do vinho vieram-me parar às mãos duas excelentes garrafas (as indicações são do dito clube):
- Chateau des Crouseilles 2002 (Cepagens: Tannat 60%, Cabernet Franc 40%): Envelhecido em cascos de carvalho 24 meses. Cor brilhante, púpura, reflexos vermelhos. Aroma a cássis, pimenta, cravo-da-Índia, alcaçuz e baunilha. Taninos pujantes. Servir a 17°, com guizados, magret de canard, carne de vaca ou porco, caça ou quiejos.
- Arte Bénédicte 2000 (Cepagens: Tannat 70%, Cabernet Franc 25%, Cabernet Sauvignon 5%): Envelhecido de 10 a 14 meses em cascos de Carvalho. Cor vermelha rubi, reflexos negros. Nariz rico (sic) em frutos vermelhos, amoras, alcaçuz, especiaria, taninos grossos, final abaunilhado. Servir com daube (uma espécie de chanfana de vaca, receita provençal), aves, queijo. Guardar 5-10 anos.

sábado, 6 de outubro de 2007

Apologia da música foleira

Um dos efeitos colaterais de ter uma filha em idade infantil é o de acumular conhecimento que, digamos, não estava previsto nos nossos planos para o futuro.

Eu, por exemplo, sou hoje em dia um profundo conhecedor da carreira musical da Shakira, aptidão que duvido que muitos outros participantes neste blog tenham, sinceramente. Por exemplo, sabiam que o responsável pela sua ida da Colombia para os E.U.A. foi nada mais nada menos que Emilio Estefan? "Não posso!!", dirão vocês... É verdade. "Já agora", perguntam vocês, "quem é esse gajo?". Pois. Nada mais nada menos que o marido de... Gloria Estefan, aquela figura mítica dos Miami Sound Machine. Quem não se lembra da Gloria Estefan? Ok, reformulo: quem, com mais de trinta anos, não se lembra da Gloria Estefan?

Quando for mais velho, recordarei com saudade os duetos que fazia com a minha filha no carro, cantando aquele grande tema chamado "Tortura", onde ela fazia de Shakira e eu de Alejandro Sanz (outra mega-estrela do pop latino). Ridículo? Os condutores que partilham a fila de trânsito comigo parecem pensar que sim.

Mas também é verdade que a "ridiculice" é um poço sem fundo: quando pensávamos que já tínhamos visto tudo, aparece sempre alguém pronto para desmenti-lo:

As cherovias, prodígio da gastronomia beirã

Aproveitando o fim-de-semana, venho falar-vos deste acepipe único que dá pelo nome de cherovia. Cherovia?! Pois é, o nome parece marciano, mas os petiscos que se fazem com este vegetal são de chorar por mais...
A cherovia é uma raiz usada como hortaliça, tem a forma da cenoura, a cor do nabo e o sabor de ambos, mas um pouco mais forte. O nome latim é pastinaca sativa e há quem também lhe chame cherivia, cheruvia ou pastinaga. Com origem remota na Eurásia, em tempos fez a vez da batata (vd. aqui). Em Portugal, apenas se cultivam entre a Serra da Estrela e a Cova da Beira. É agora a altura ideal para serem compradas. Dá-se apenas em regiões de clima húmido e com geada. Sei que existem, pelo menos, na Holanda e no Reino Unido. Neste, são vendidas em pacotes do estilo das batatas fritas, a sós ou juntamente com cenoura e beterraba fritas. Recomendo as parsnips da marca Tyrrells, à venda na mercearia fina DeliDelux (St.ª Apolónia, Lx.), quando não esgotam.
No Fundão costuma fazer-se frita e passada por polme, após prévia cozedura e após serem fatiadas. Também se pode fazê-las só cozidas, indo muito bem num refugado de azeite e cebola.
Eis a receita base para a versão em fritada:
Cherovias Fritas
(ingredientes: cherovias; 1 ovo; 1 chávena de farinha; sal; água; azeite para a fritura)
Após a cozedura (com sal), cortam-se as cherovias em talhadas finas.
Com o ovo, a farinha, um pouco de água e sal, prepara-se um polme vulgar. Escorrem-se e enxugam-se as cherovias num pano e passam-se os bocados já fatiados pelo polme. Fritam-se em azeite.
Acompanham-se com outros peixinhos da horta, com cogumelos (no Fundão usa-se muito fazer com criadilhas, que são uns cogumelos com um sabor fantástico) ou um qualquer cozinhado. Vão muito bem com vinho, eu prefiro com vinho branco ou verde.
Para outras receitas com parsnips vd. aqui. Então, bom apetite!
Designações noutras línguas: chirivia (castelhano), pastinaca (italiano), panais (francês), pastinak (alemão).

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Céu, puro feitiço musical

Descobertaquase dois anos, quando se apresentava pelas noitadas da Vila Madalena (um tradicional bairro da juventude “descolada” - mas não muito - de São Paulo), a cantora e compositora Maria do Céu Whitaker Poças , ou simplesmente CéU, tornou-se a nova musa brazuca pra americano ver, que a moçoila não tem por aqui dado o ar de sua graça ultimamente (exceto, é claro, pra toda poderosa Vênus Pratinada e seu plim plim odioso).Sua voz aveludada nos transmite uma deliciosa sonoridade rítmica, onde o afro-brasileiro, jazz, soul, reggae, hip-hop, trip-hop e uma boa pitada de eletrônica se misturam numa inovadora proposta de MPB. É puro feitiço sonoro. Ela faz agora a segunda temporada nos Estados Unidos, onde deverá passar por São Francisco, Los Angeles, Seattle, San Diego, Washington, Nova York, Chicago, Boston e outras. Sorte deles. Também encontrar o seu disco em terras tupiniquins é uma missão impossível. Ianque é assim mesmo: nasceu com a bunda virada pra lua.

Aqui, na TV Cultura. E aqui, a sua última aparição por Pindorana, no Plim Plim Global, é claro.


Leitura para fim-de-semana alargado

No texto "Os ultras preparam a guerra contra o Irão", Selig S. Harrison aborda as movimentaçõesda Casa Branca tendentes a uma intervenção armada no Irão.
José Neves, em "Adorando José Mourinho: à procura dos «atributos de um Portugal moderno»", coloca em debate a construção do mito em torno do conhecido treinador de futebol.
Philippe Revelli e Elisabeth Cavalho assinam, respectivamente, "Os sem-tecto acampam às portas de São Paulo"e "Do Grito de Ipiranga ao Grito dos Excluídos", sobre a temática da resistência dos excluídos nas grandes metrópoles brasileiras.
No texto "Avaliação do ensino superior: o autismo do critério único", um conjunto de 9 reputados professores lançaum olhar crítico sobre a nova lesgislação acerca da avaliação do ensino superior e das unidades de investigação.

A República tem futuro


A 5 de Outubro de 1910 teve lugar um movimento revolucionário para derrubar a Monarquia e, em sua substituição, estabelecer a República. Esse movimento foi, desde o momento da sua eclosão, nitidamente popular.
"A população republicana de Lisboa auxiliava voluntariamente a revolução. Além dos automóveis, carros de praça e dos ciclistas, andavam peões expondo-se à prisão e ao fogo para bem informar os revolucionários. Os vendedores de jornais, gaiatos, cumpriram nessas horas o papel histórico que lhes cabe em todas as revoluções. Não havia a barricada, contentavam a sua índole heróica fazendo o serviço de estafetas. De sorte que, se um comandante fiel ao regime fazia uma pergunta na rua, respondia-lhe ou a zombaria ou o logro" (Joaquim Leitão, citado em "Outubro de 1910, 5 de", Dicionário de História de Portugal, dir. Joel Serrão, vol. IV, Porto, Figueirnhas, 1985, p. 500).
Lisboa já era republicana desde Novembro de 1908, quando o Partido Republicano venceu as eleições municipais na cidade. Mas a ampla e livre adesão de gente de diversas origens sociais ao movimento revolucionário mostra que não era apenas a elite da capital (com direito a voto durante a monarquia constitucional) que desejava a mudança de regime.
Hoje, assinalamos o 5 de Outubro de 1910, não apenas para comemorar o fim de um regime político injusto e anti-democrático, mas sobretudo para celebrar os valores republicanos. Desde logo, a triologia da revolução francesa, "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Depois, o sufrágio universal, a cidadania democrática, a participação cívica a título individual e colectivo, a igualdade perante a lei, a laicidade do Estado, a educação para todos, a defesa dos direitos sociais, a inclusão social, o combate à discriminação.
O futuro da República passa pela prática quotidiana destes valores e pela sua transmissão aos mais novos.

Imagens: Joshua Benoliel, 5-10-1910, Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico.

5 de Outubro

Viva a República!


Será só impressão minha ou a implantação da República não costuma ter as celebrações que merece? Serei o único a achar que o 5 de Outubro foi uma espécie de primeiro 25 de Abril, a que não se dá a devida atenção?

(fotos retiradas daqui e daqui)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A pobreza como violação dos direitos humanos

A Comissão Nacional Justiça e Paz lançou recentemente uma petição à Assembleia da República portuguesa para que esta reconheça a pobreza "como uma violação grave dos direitos humanos". A petição, divulgada desde Junho, está disponível aqui para quem a queira assinar (o prazo final era 30/IX mas deve ter sido alargado, tendo neste momento reunido mais de 1600 assinaturas). Será entregue a 17 deste mês, Dia Internacional para a Erradicação da Miséria.
Em Maio passado, esta ONG realizou uma conferência nacional sobre o tema, na qual lançou a ideia da criação de um observação de acompanhamento das políticas públicas e dos seus "impactos sobre a pobreza".

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O piquenique transformado em burocracia

Não sei se é um reflexo inevitável da idade (ou da esclerose gradual), da paternidade, da dita vida moderna - provavelmente é de tudo isso ao mesmo tempo –, mas sinto cada vez mais o peso do pragmatismo no modo de pensar e agir. É quase automático! No outro dia a mãe de uma colega de um dos meus filhos (a partir de certa altura deixamos de ter nome próprio e passamos a ser conhecidos como o pai ou a mãe de tal criança) sugeriu-me fazermos um piquenique. Uma coisa simples um piquenique: leva-se uma toalha, umas sandes, sumos… Lembram-se? Quando foi a última vez que fizeram um piquenique na zona de Lisboa ou arredores? Recordo-me há 25/30 anos atrás de “piquenicar” habitualmente debaixo de um qualquer descampado. Nessa altura não havia família digna desse atributo (o de ser família) que não ‘piquenicava’ de vez em quando. Epá, a malta sujava-se um bocado, é certo… mas ora corríamos à apanhada, ora fugíamos às escondidas, e nos intervalos procurávamos pinhas cheias que atirávamos aos troncos das árvores na esperança que explodissem milhares de pinhões. Andávamos inofensivamente à solta… enfim, éramos putos.
Mas, voltando à sugestão da tal mãe de uma colega do meu filho, não é que reagi como se ela tivesse proposto a coisa mais estrambólica deste mundo: “O quê, um piquenique! Onde, em Lisboa? Num jardim? A que horas? Como? O que se leva? Não irá chover?” A mãe (de uma colega do meu filho), olhou para mim e eu vi nos seus olhos o espelho da minha monstruosa ‘pragmatice’ aguda. Só faltou sacar da agenda e planificar o evento etapa por etapa. O que é que se passa? Será que me estou a transformar num autómato que só funciona na base dos relatórios de actividades e da projecção de cenários credíveis e prováveis? Parece que tudo se profissionaliza, até a merda do quotidiano! E neste já não há lugar para piqueniques.

Quem se cala, consente!

Enquanto o mundo se cala, os massacres na Birmânia não cessam. A junta militar que tomou de assalto o país, em 1962, deixa cada vez mais clara sua disposição de se perpetuar no poder e de reprimir de forma cruenta qualquer manifestação pró-democracia. Hoje, uma mensagem divulgada nos alto-falantes dos carros militares avisava que os soldados estavam à caça dos dissidentes, numa clara evidência de que a junta militar vai exacerbar suas ações contra seus opositores.

Muitos líderes mundiais estão desde ontem reunidos na ONU para uma tomada de posição. E que ela seja claramente contra essa brutalidade asquerosa. Vai abaixo o link da petição de emergência em solidariedade às manifestações pacíficas da Birmânia. Ela será entregue para o Conselho de Segurança da ONU e à mídia internacional presente no encontro.

http://www.avaaz.org/po/stand_with_burma/tf.php?cl_tf_sign=1

Adorava estar «in», mas estou-me a sentir «out»*

Ainda indecisa sobre o que pensar em relação à Time Out depois de ter lido o nº1, e que até foi difícil de encontrar, porque esgotou ao fim de poucas horas, resolvi, hoje, comprar o nº2. Será, provavelmente, o último número que compro. O estilo «descontraído», «irreverente» e com «graças» em todas as frases é muito cansativo e parecido com aquelas rádios, em que os jornalistas falam todos muito depressa, mesmo às 8.30h da manhã.
A informação útil sobre Lisboa, claro que quase se repetiu de um número para o outro; seja porque lado queiramos pegar na questão, nesta cidade não se passam acontecimentos em quantidade suficiente para a periodicidade semanal da revista.
Finalmente, o que fez mesmo com que me decidisse foi um artigo a suspirar pela abertura de um Starbucks em Lisboa. O artigo, da autoria de João Cepeda, o próprio director da publicação, defende que a capital só não é totalmente cosmopolita e cool, porque não andamos todos a beber café em copos gigantes de esferovite e, em consequência não podemos ter esses mesmos recipientes poisados nas nossas mesas no emprego, o que nos daria um estilo sem fim. Confesso que faço parte daqueles para quem «o famoso logótipo das lojas americanas ganhou estatuto de inimigo de estimação», e que ficarei triste no dia em que assistir, e será inevitável, à inauguração de uma dessas lojas numa cidade, onde não faltam cafés a servir bicas, cariocas, descafeinados, italianas, garotos que até podem ser de lotes mais duvidosos e terem nomes como Camelo e Chave d'Ouro, infinitamente menos sonantes que Guatemala Antigua ou LightNote Blend® - Decaf.
Acho que vou mesmo continuar a planear gratuitamente a vida social pela Agenda Cultural publicada pela Câmara Municipal.
*Jorge Palma- Frágil, 1989



Je ne le dirais pas mieux*


terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Demissão do gerúndio

Não me parece ser um facto corriqueiro as demissões no serviço público. A não ser aquelas nos chamados cargos de confiança, cujos ocupantes mudam conforme mudam os governos e os partidos que se acomodam no poder. Embora se note um esforço no sentido de estabelecer metas de produtividade, critérios de avaliação e outros instrumentos para se medir o desempenho dos servidores públicos e, nos casos justificados se proceda mesmo a demissão. No entanto, ao dar uma vista de olhos na Folha Online deparei-me com caso curioso e por que não dizer, inusitado, de demissão no serviço público.
O governador de Brasília (ou melhor, do Distrito Federal), José Roberto Arruda, baixou um decreto através do qual demite o gerúndio em todos os órgão públicos do Distrito Federal. Isso mesmo, os funcionários ficam agora proibidos de usar o gerúndio como desculpa de ineficiência. Só não percebi o motivo pelo qual o uso desta forma verbal tão quotidianamente empregada no portugês brasileiro, expressa ineficiência. Bom, as novas teorias da Gestão constituem um campo a respeito do qual não percebo nada. Eis a íntegra do decreto, segundo a Folha:

"Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.
Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.
O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:
Art. 1° - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.
Brasília, 28 de setembro de 2007.
119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA"

Em tempo: O governador é aquele mesmo José Roberto Arruda que, juntamente com o falecido Toinho Malvadeza, foi alvo de processo de cassação do mandato de senador, por estar violando, ops... por estar A VIOLAR, o painel do Senado Federal.
Mais do que uma demissão por justa causa, esse parece mais um "causo" do já rico folclore político brasileiro.