sábado, 6 de outubro de 2007

As cherovias, prodígio da gastronomia beirã

Aproveitando o fim-de-semana, venho falar-vos deste acepipe único que dá pelo nome de cherovia. Cherovia?! Pois é, o nome parece marciano, mas os petiscos que se fazem com este vegetal são de chorar por mais...
A cherovia é uma raiz usada como hortaliça, tem a forma da cenoura, a cor do nabo e o sabor de ambos, mas um pouco mais forte. O nome latim é pastinaca sativa e há quem também lhe chame cherivia, cheruvia ou pastinaga. Com origem remota na Eurásia, em tempos fez a vez da batata (vd. aqui). Em Portugal, apenas se cultivam entre a Serra da Estrela e a Cova da Beira. É agora a altura ideal para serem compradas. Dá-se apenas em regiões de clima húmido e com geada. Sei que existem, pelo menos, na Holanda e no Reino Unido. Neste, são vendidas em pacotes do estilo das batatas fritas, a sós ou juntamente com cenoura e beterraba fritas. Recomendo as parsnips da marca Tyrrells, à venda na mercearia fina DeliDelux (St.ª Apolónia, Lx.), quando não esgotam.
No Fundão costuma fazer-se frita e passada por polme, após prévia cozedura e após serem fatiadas. Também se pode fazê-las só cozidas, indo muito bem num refugado de azeite e cebola.
Eis a receita base para a versão em fritada:
Cherovias Fritas
(ingredientes: cherovias; 1 ovo; 1 chávena de farinha; sal; água; azeite para a fritura)
Após a cozedura (com sal), cortam-se as cherovias em talhadas finas.
Com o ovo, a farinha, um pouco de água e sal, prepara-se um polme vulgar. Escorrem-se e enxugam-se as cherovias num pano e passam-se os bocados já fatiados pelo polme. Fritam-se em azeite.
Acompanham-se com outros peixinhos da horta, com cogumelos (no Fundão usa-se muito fazer com criadilhas, que são uns cogumelos com um sabor fantástico) ou um qualquer cozinhado. Vão muito bem com vinho, eu prefiro com vinho branco ou verde.
Para outras receitas com parsnips vd. aqui. Então, bom apetite!
Designações noutras línguas: chirivia (castelhano), pastinaca (italiano), panais (francês), pastinak (alemão).

16 comments:

Cláudio disse...

E onde se arranja isso?

Daniel Melo disse...

Boa pergunta.
Quanto às cherovias fritas, já dei uma dica, o DeliDelux.
Quanto às frescas, bom, existem boas feiras e hipermercados na Cova da Beira!
Dão-se alvíssaras para quem as encontrar por Lisboa e litoral luso.
Não há como insistir. Ou ter um amigo que as traga da Beira, why not?
Daí o título do post, um "prodígio da gastronomia beirã".
Há fenómenos que nem a «globalização» absorve...

Renato Carmo disse...

Epá, imaginem um piquenique com cherovias fritas. De certeza que nem no 'Calhau' se fazem respatos desses.

Elisa disse...

Os meus pais costumam fazer cherovias fritas e outros 'peixinhos da horta'. São das beiras. Eu não sou grande fã, confesso.

Daniel Melo disse...

A acompanhar as cherovias aconselho-te, Renato, uns salgaditos, outros peixinhos da horta e boa vinhaça e cervejola.
Gosto de cherovias de qualquer forma, mas quando as cozinho é em refugado, hélas.
Mas gostos são gostos, Elisa, evidentemente :)
Ficamos à espera dos teus petiscos preferidos, quando te apetecer escrever sobre isso ;)

Manolo Piriz disse...

Boa, Daniel. Fui apresentado à cherovia (conhecida nestas bandas por pastinaca) pela primeira vez há uns 10 anos num apetitoso guisado. Não conhecia essa forma de prepará-la. Como na semana que vem temos um “feriadão”, vou fazê-la como na sua receita. Creio que ela se dará bem na companhia de uma boa conversa e alguns copos, ou vice-versa. Tin-tim

Daniel Melo disse...

Para ti, Manolo, um bom feriado acompanhado duma melhor fritada!
É assim mesmo, nada como experimentar para bem petiscar!!

Carla Castelo disse...

Estive na semana passada no centro do país a fazer uma reportagem Terra Alerta sobre a "Colher para Semear - Rede portuguesa de variedades tradicionais" e fiquei a conhecer a cherovia (nesta altura só se vê a rama na terra), o chícharo(nesta altura em flor) e muitas outras espécies quase quase esquecidas que os nossos antepassados comiam. Nós, com fenómenos como a globalização, conhecemos melhor espécies agrícolas cultivadas do outro lado do mundo, que viajam milhares de quilómetros até ao nosso prato...

Daniel Melo disse...

Obrigado, Carla, pela tua lembrança e informação.
Só agora te respondo porque estive à espera que fosse transmitida a tua reportagem na SIC sobre essas variedades tradicionais (para quem não pôde ver deixei as ligações para o teu site e blogue neste post: http://avezdopeao.blogspot.com/2008/06/terra-alerta-vez-dos-produtos.html).
A tua reportagem passou ontem à noite, e achei-a bem interessante, parabéns!
Fiquei a saber mais coisas, uma delas é que também se cultivam cherovias em Ferreira do Zêzere.
Além disso, a quantidade de espécies que cairam em desuso é realmente impressiva, mas o problema agora será como preservar de modo eficiente e útil o que ainda há.
A esse propósito, escrevi noutro blogue um post (http://fugaparaavitoria.blogspot.com/2006/12/viva-bravo-esmolfe-e-as-suas-irms.html) onde falo de espécies tradicionais portuguesas de maçãs (algumas raras), a partir duma outra excelente reportagem de João Pacheco sobre o 'teu' assunto, com belas fotos de Rui Gaudêncio («Eles guardam o património do que comemos», Pública, 15/X/2006, p. 44-56).
Graças a esta reportagem fiquei então a conhecer a acção da Associação Colher Para Semear, de quem tu entrevistaste o presidente e um sócio guardião.
Por cá também já existe um estatal Banco Português de Germoplasma Vegetal, mas infelizmente sem site (falo ainda disso no post).
Cá está um tema que dá pano pelas mangas...

Anónimo disse...

Cherovias fritas, mas bem macias são muito boas.
Está a decorrer a festa da cherovia na Covilhã. Ontem deliciei-me...
Venham até cá!

Maria

luantes disse...

epah eu que vivo em Faro chego a deslocar me quase propositadamente ao mercado do Fundão numa qualquer segunda feira, para comprar umas cherovias que a minha mulher sabe cozer e fritar como manda a sapatilha
Por sinal neste momento tenho algumas no frigorifico
Há dias sei que houve uma festa da cherovia
VIVA A CHEROVIA DA BEIRA BAIXA

Daniel Melo disse...

cara Maria:
embora com atraso, não queria deixar de agradecer a lembrança da festa da cherovia na Covilhã. Não sabia que existia, é uma boa iniciativa!
Seja como for, este ano não ia dar. Pode ser que para o próximo já dê.

Daniel Melo disse...

caro luantes,

um bom abastecimento de cherovias merece a deslocação! E as da Beira-Baixa são realmente boas.

Estive a ver o seu blogue, Bogas de Baixo, e fiquei a saber que também na sua terra existe uma outra dádiva da natureza, o medronho. Também por lá fazem aguardente desse fruto ou é só na Serra da Estrela? É uma curiosidade que tenho, pois também já escrevi no Peão sobre isso.

Anónimo disse...

NAZARE.......ATENÇÃO
PRODUTORES DE CHIROVIASO QUE ESTÃO À ESPERA PARA NOS PRESENTEAR COM ESTA DELÍCIA QUE EU TÃO BEM CONHEÇO NO ESTRANGEIRO....

Anónimo disse...

Encontram-se pastinacas frescas em supermercados biológicos. Em lisboa, na Miosótis, Biocoop e Brio.
Bom apetite

Anónimo disse...

Caros Xirovianos....tambem já se vende no Pingo doce cá por lisboa...aproveitem.