quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Quando dois lados deixam de se equivaler: desproporção e desastre humanitário

Parece-me bem oportuno e motivo de reflexão o post anterior do Zèd.

Sendo inevitável uma reacção militar israelita face à pressão da população do Sul de Israel, após semanas seguidas à mercê dos foguetes sanguinários do Hamas, ela assumiu uma desporporção tão gritante e gratuita que se tornou motivo de repúdio generalizado.
A desproporção atingiu o limiar da decência: o desastre humanitário para uma população já antes condenada à pobreza e à guetização e, agora, acossada e alvo militar no seu conjunto. Olho por olho, dente por dente? Já nem isso, embora tal já fosse motivo para lamentar.
Como se não bastasse, os jornalistas foram impedidos de entrar, bem como a ajuda humanitária. Ao fim de 2 semanas de bombardeamentos ininterruptos, e após intensa pressão diplomática e da opinião pública internacional, os dirigentes israelitas lá concederam o escape de 3 horas por dia para ajuda humanitária. Nem esta, porém, foi respeitada: uma coluna de veículos da ONU foi hoje atacada pela aviação israelita na Faixa de Gaza, causando um morto e vários feridos. O ataque foi de imediato condenado pela ONU e a sua Agência para a Ajuda aos Refugiados Palestinianos suspendeu as actividades, por não ter condições para actuar, embora alerte para a situação de presente "crise humanitária". Esta hostilização da presença internacional segue-se a ataques israelitas a 3 escolas da ONU, causando mais de 40 mortos, também qualificados de "totalmente inaceitáveis" pelo secretário-geral, Ban Ki-moon.
São já 763 as vítimas mortais em Gaza. Mais informações recentes aqui.
Entretanto, os ministros da diplomacia ocidental e árabe chegaram a acordo sobre uma resolução apelando ao cessar-fogo imediato (vd. aqui). Espera-se que dê resultado e que as negociações possam ser reactivadas.
Na imagem, cartoon de Latuff («Gaza blockade»).

7 comments:

João Miguel Almeida disse...

A desproporção é chocante. O André Glucksman publicou um artigo no Le Monde a criticar a crítica da desproporção, afirmando que não podia haver proporção de meios entre o Hamas e Israel. A questão é que a desproporção refere-se aos estragos. O tal «olho por olho dente por dente», que costuma ser citado como uma máxima da barbárie era, na sua origem, um apelo à contenção da violência - «se te arrancarem um olho, arranca ao outro só um olho; se te partirem um dente, parte ao outro só um dente - em vez de lhe cortares a cabeça».
Israel gosta de se apresentar como um representante da civilização ocidental, mas nem este princípio primitivo da civilização ocidental cumpre: qual é a proporção? Matar quinhentos palestianos por cada meia-dúzia de israelitas feridos? Bombardear uma região por cada soldado israelita capturado?
A conversa inconsequente sobre terrorismo e democracia também já enjoa. Foi Israel que, ao retirar unilateralmente da faixa de gaza em 2005 desacreditou a moderada Fatah e abriu caminho ao Hamas. Foram Israel e os Estados Unidos que, ao recusaram reconhecer o Hamas como interlocutor depois deste ter ganho as eleições na Palestina, desacreditaram o que podia ser incipiente processo de democratização.

Daniel Melo disse...

Olá João Miguel, concordo plenamente contigo.
Claro, quando me referia à desproporção chocante, não era de meios, mas, sim, de estragos. Concerteza.
O teu comentário adita pontos fundamentais para este debate: de facto, Israel errou clamorosamente ao retirar unilateralmente da Faixa de Gaza, abalando o processo de democratização e invertendo definitivamente a relação de forças entre Fatah e Hamas. E tanto Israel como os EUA agravaram o incipiente processo de democratização, como tu dizes, mas tb. de construção dum Estado, ao não reconhecerem o Hamas pós-vitória eleitoral.
A desgraça é que dos 2 lados continuam a ganhar os falcões, ajudados pelo neoconservadorismo dos EUA e pelos interesses de vários países árabes e do Irão. É tempo de dar lugar à negociação e à paz. Cabe a Obama retomar o processo de Oslo. Até por ser Hillary Clinton, tem algum simbolismo: poderá avançar o que o seu marido mediou, há mais de 10 anos.

Daniel Melo disse...

Eis uma notícia de última hora provinda de Israel que não augura nada de bom: o seu parlamento interditou os partidos formados por árabes com cidadania israelita de participarem nas próximas eleições (vd. o insuspeito Ha'aretz: http://www.haaretz.com/hasen/spages/1054867.html).
É apresentado como uma espécie de punição, e surge no contexto do ataque à Faixa de Gaza.

João Miguel Almeida disse...

Concordo contigo. A notícia que dás devia desarmar as narrativas «Estado democrático versus movimento terrorista». A guerra em Gaza está a atrofiar a democracia israelita e não a defendê-la, além de boicotar as hipóteses de uma democracia palestiniana. Ainda sobre a questão do abuso da força, Jeremy Bowen publicou uma análise interessante no jornal on-line da BBC, em http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/7826849.stm.

Daniel Melo disse...

Estive a ler o diário desse jornalista e gostei. Faz um certo sentido a comparação que estabelece com o caso da Irlanda do Norte, no respeitante ao cruzamento entre legitimidades históricas e conflitos religiosos, bem como a diferença no uso da força pelos Estados mais poderosos em ambas as contendas.
Uma das grandes diferenças entre os 2 conflitos é, de facto, o maior grau de implicação internacional do conflito palestiniano e/ou do Médio Oriente ("But I don't know of another one which has so many international ramifications, and above all I don't know of one that has the same capacity to enrage people all over the world, even if they have never been to this small patch of the planet").
Os interesses geopolíticos jogam aí uma cartada forte.
A mesma BBC fala na hipótese duma reocupação da Faixa de Gaza por Israel (http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/12/081229_israelobjetivos_analiserg.shtml).
E, nesse sentido, há quem conecte este ataque à salvaguarda de altos interesses económicos (grandes reservas de gás natural no offshore de Gaza): http://resistir.info/chossudovsky/guerra_e_gn_p.html.
Isto sem pôr em causa a forte pressão popular vinda das populações inseguras do Sul de Israel, como já referi. Talvez ainda nos falte mais informação, mas não seria nada inédito: foi o caso de Timor-Leste, é o caso de muitos países de África.

Daniel Melo disse...

O link para o tx. da BBC-Brasil, que menciono atrás, não saiu inteiro, por isso aqui vai nova tentativa:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/12/081229_israelobjetivos_analiserg.shtml.

Daniel Melo disse...

Vamos ver se, partindo-o em 3, fica completo:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/
reporterbbc/story/2008/12/081229
_israelobjetivos_analiserg.shtml