segunda-feira, 5 de março de 2007

Museus de Cera

Gosto muito de visitas de estudo. Considero-as momentos privilegiados de aprendizagem e fico muito desanimada quando o não são, o que acontece com alguma frequência nos nossos museus.
Destaco, aqui, dois casos particularmente sinistros do panorama museológico (voltarei ao tema quando me parecer oportuno).

Museu da cidade: logo à entrada, ficamos com a impressão de ir perturbar uma sacrossanta modorra, o que não é desmentido com a chegada da monitora que afivela uma expressão de que representamos a pior altura do seu dia... Como a visita é sobre o séc. XIX, passamos directamente a essa secção, ou seja, a três ou quatro salas que se sucedem e onde estão amontoadas, encafifadas, empilhadas as «fontes históricas» (foi o que a monitora lhes chamou): quadros da partida da família real para o Brasil (motivada, antes de mais, pelo facto de D. Maria não estar «boa da cabeça», também palavras da monitora) junto a gravuras das profissões de Lisboa; um quadro de D. Fernando acompanhado de vários mapas da cidade; tinteiros e outros objectos de escrivaninha encimados por vistas do Passeio Público, tudo num enigmático jogo de associações.
A única regra que parece existir na relação entre gravuras e vitrines, quadros e molduras parece ser a de «enquanto houver espaço...», o que num local maioritariamente visitado por escolas (o que iria outra pessoa lá fazer?!? E mesmo as escolas...) é sempre uma boa estratégia à resistência de materiais: 30 alunos vêem, ao mesmo tempo, os 12 desenhos de profissões que se encontram todos no mesmo expositor.
Acrescento que a visita teve o seu momento interactivo quando a monitora deu a ler excertos, incompreensíveis para os alunos, de obras de Eça de Queirós, em formato de fotocópia devidamente acondicionada dentro de uma mica (porque não os livros?!?).
O museu «termina» com a sala/cubículo dedicada à República, onde exibe, com orgulho, o piano em que foi composta «A Portuguesa». É evidente que o orgulho não vai ao ponto de alguém limpar o pó ao instrumento.

Museu do traje: a mesma modorra, a mesma expressão «calorosa» de boas-vindas. O pó, substituído pelas traças que parecem esvoaçar à volta dos trajes expostos, também, sem grande coerência, novamente um amontoado de manequins que «desfilam» sala, após sala.
Aqui, a jóia da coroa é um vestido de baptizado de um qualquer Bragança...

É difícil encontrar soluções para cenários tão negros. Fechar? Fundir? Dar formação? Despedir?
Proponho, então, que se comece por limpar o pó e matar as traças, por reorganizar as colecções expostas: a família real com o D. Fernando; o Passeio Público com as idas à tourada; os mapas com os mapas, até traçando percursos de acontecimentos e locais, o mais evidente começa pelos «passos» do 5 de Outubro. Seria interessante ouvirem-se os pregões e, na sala da República, «A Portuguesa»
Ter, sobretudo, a noção que não é preciso expôr tudo o que se tem, mas antes criar ambientes: a vida política, a vida social, o espaço público e o espaço privado, que podem ser mais ou menos apelativos se tiverem sons, música, imagens de época, ou até jogos interactivos, como por exemplo, experimentar uma peruca, vestir um saiote (veja-se o excelente trabalho desenvolvido no Victoria and Albert Museum).

P.S. - Agradeço ao Daniel a inspiração para escrever este post.

Imagem: National Wax Museum, Dublin. Site oficial do turismo da cidade (?!?!)

Será?

Escreve Fernanda Câncio "Que há um acervo (grande quantidade) de palavras que nunca são usadas e de significados que se perderam. Que o arroubo da língua e dos seus infinitos cambiantes gasta os seus últimos prosélitos,(...)".
Será? Câncio exemplifica com o vocábulo "decesso", que, argumenta, tem ainda equivalentes usados correntemente em inglês e francês, respectivamente "decease" e "décès" (não "decés"). Mas para essas palavras há outro equivalente em português igualmente usado: "falecido", que não tem equivalente directo naqueles idiomas.
Posso até concordar com a primeira frase da citação ali acima, já quanto à segunda não conheço quaisquer evidências empíricas que a corroborem (já sei, isso das evidências empíricas é boring; boring - maçador, enfadonho). Que haja palavras que deixem de ser usadas e significados que se percam é apenas normal, se aceitarmos que a língua evolui (evolução - transformação ao longo do tempo). Daí a concluir que a língua gasto os seus últimos prosélitos parce-me excessivo, vislumbro aí um hiato importante. Será possível que enquanto uma palavras desaparecem outras novas vão surgindo? Serão os neo-logismos? Bem sei que Câncio dá vários exemplos, mas não haverá igual número de contra-exemplos? Serão os exemplos escolhidos a dedo para ilustrar a sua tese? A mim todo esse catastrofismo parece-me apenas motivado por um pessimismo congénito e conservador.
Não sei se por optimismo se por cepticismo, sem as tais evidências empíricas não acredito nesta tese.

P.S. - Num mundo dividido entre entre os que sabem usar palavras difíceis e os que não sabem, bem sei que estou no segundo grupo, mas - enfim...- faz-se o que se pode.

O bom demagogo

Francisco José Viegas pertence àquele grupo de pessoas que acha que a culpa da violência na escola é das "ciências da educação" e das suas "novas pedagogias", e em particular da ideia de "escola centrada no aluno". Devo dizer desde já que não sou nem porte-parole das primeiras nem fã (dos excessos) das segundas. Mas atribuir o problema da indisciplina e da violência - que são coisas diferentes, atenção - às alterações na pedagogia releva da mais profunda demagogia e do mais simples desconhecimento do inevitável impacto das mutações trazidas pelo crescimento da população escolar nas relações pedagógicas.
Não é preciso ser empenhado militante da causa para perceber que a "escola centrada no aluno" é uma inevitável e necessária banalidade: significa que deixou de se ver o aluno como um depositário passivo dos conteúdos de aprendizagem e que é preciso motivá-lo - e necessariamente atender às suas prévias motivações, ou falta delas - para aprender. A escola dos "bons velhos tempos" de Francisco José Viegas era - para fazer uma pequena trocar de esterótipos - frequentada pelos héritiers ou pelos boursiers, cuja cumplicidade apriorística com o saber escolar permitia-lhes aprender, passe o exagero, quase por osmose. Hoje, essa escola desapareceu. Não se inculca "«disciplina», «autoridade» e «recompensa»" porque "sim", como se a relação pedagógica não fosse isso mesmo, uma relação, que depende do comportamento dos dois lados, e independentemente das consequências do exercício da autoridade, em particular para o percurso escolar do aluno. Achar que podemos simplesmente voltar ao autoritarismo do antigamente é uma ideia tão oca como demagoga. Gostemos ou não das "novas pedagogias", elas são provavelmente "estratégias de sobrevivência" de um corpo docente procurando encontrar formas de lidar com populações que não valorizam e não aceitam a escola como os colegas de carteira de Francisco José Viegas. Essas "estratégias de sobrevivência" são suficientemente boas para o ensino e para a aprendizagem? Se calhar não, e não duvido que possa haver muito a melhorar neste aspecto. Mas continuar a enredar o debate sobre educação em torno das pedagogias é chover no molhado e completamente inútil, seja à esquerda ou à direita. O que pode fazer hoje a diferença não é uma enésima reforma pedagógica, mas a mudança de filosofia ao nível dos objectivos da educação e das regras de gestão das escolas e das carreiras. Isto já é polémico que chegue. A conversa do "bom selvagem" ou do "mau selvagem" não serve aqui senão para criar ruído.

P.S. - Francisco José Viegas evoca a "média (oficial) de duas agressões por dia nas escolas portuguesas", como, sem dizê-lo assumidamente, se este fosse um número alto. Este é outra questão onde a demagogia abunda. Imaginemos que este número oficial peca por escasso. Se quiserem, multipliquem-no por 3, 5, ou 10. Continuará a ser um número baixo. Baixo se tivermos em conta a quantidade de pessoas que interage na escola todos os dias: somando os quase 1.700.000 estudantes (do nível pré-escolar ao ensino secundário, considerando os ensinos público e privado) aos cerca de 160 mil professores e 80 mil funcionários, são quase 2 milhões de pessoas, praticamente um quinto da população nacional, que convive nas cerca de 12.500 escolas do país -, o número de actos de violência por ano é surpreendentemente baixo. E é baixo quando comparado com os números de actos violentos cometidos fora da escolas, que funcionam de facto como dispositivos institucionais bastante eficazes de gestão de massas populacionais muito heterogéneas do ponto de vista etário, estatutário, socio-económico, e em algumas situações, étnico.

O P faz hoje 17 anos

Está na altura de ganhar juízo.

Peões por Lisboa - Propostas concretas (IV) - política cultural

A política cultural é a área que se segue nesta série que pretende contribuir para uma nova política municipal em Lisboa, e por arrasto, para se repensarem as políticas públicas em geral (Zèd, aqui vai então uma tentativa de resposta ao teu repto :).
A par do urbanismo, a área cultural foi das mais penalizadas pelo consulado Santana-Carmona, pese a azáfama à outrance de Eduardo Prado Coelho para nos tentar vender o vereador José Amaral Lopes como o oposto do desastre portuense.
O 3.º maior arquivo do país, o Arq.º Histórico da CML, está fechado há 4 anos e não se criou uma alternativa temporária para a sua consulta em condições, só delírios megalómanos para um município como o de Lisboa, atolado em dívidas (refiro-me ao mirífico Arq.º/bib. central do Vale de St.º António).
Uma política cultural para Lisboa deve assentar nalguns pressupostos simples, que analisarei de seguida.
Desde logo, devia-se encontrar um espaço provisório para instalar o referido Arq.º Hist.º, e que tivesse boas acessibilidades e um mínimo de condições de trabalho para os estudiosos (um dos muitos palacetes seria suficiente).
Desviar o dinheiro de foguetórios mil e destiná-los a obra séria também ajudaria, reforçando-se a rede de bibliotecas municipais (incluindo uma maior divulgação das unidades itinerantes e a criação dum protocolo com as associações voluntárias para a divulgação mútua de acervos, por ex. nas bases de dados bibliográficas). Aqui seria importante articular esta aposta com a da sua dinamização cultural (extensivo aos espaços arquivísticos municipais) através de sessões culturais, debates com autores, conferências temáticas (p.e., um especialista por mês no espaço x falando do assunto y), incluindo a aposta em debates sobre a cidade e a comunidade, etc.. O Arq.º Fotográfico devia ser mais apoiado na feitura de exposições documentais e artísticas, assim reforçando o seu acervo e os olhares sobre a cidade. Devia tb. assumir-se como fonte de abastecimento da rede museológica.
Devia-se reformar o Museu da Cidade, que parou claramente no tempo. Não seria muito difícil e podia começar por 3 áreas: o quotidiano e as identidades; o urbanismo; e a memória cívica. Na 1.ª podiam entrar as marchas populares e outras festividades, atraindo assim as colectividades e seus associados enquanto um dos novos públicos dos núcleos museológicos municipais. Aí tb. podiam entrar os pregões populares, entrevistas a alfacinhas, imagens de arquivo, etc.. O urbanismo seria um modo de estar inscrito na própria estratégia municipal este questionamento permanente sobre o passado, presente e futuro da cidade em que se vive, despertando o espírito crítico, a exigência e o envolvimento dos cidadãos. Na última área caberia trabalhar criticamente a memória da luta contra a ditadura, com novo núcleo museológico na antiga sede da polícia política e articulado com uma renovada Bib.ª-Museu da República e Resistência.
Outra área estratégica devia ser a da formação de novos públicos, ligando-a ao sector educativo de modo a ajudar a quebrar o pouco valor por muitos ainda creditado ao sector cultural, devido à tal concepção do seu uso decorativo e mundano. Os roteiros culturais deviam reforçar-se, e serem articulados com visitas com olissipógrafos. Certos festivais de cinema e similares teriam apoio municipal para iniciativas nesta área.
Deviam ainda estabelecer-se protocolos com associações voluntárias, com visitas guiadas a algumas para as escolas municipais e para outros públicos. Instituições como a Voz do Operário, o Ateneu Comercial, as casas regionalistas, os museus de alguns clubes de futebol, etc., podiam ser alguns dos interlocutores válidos. Dessas visitas podiam resultar experiências pedagógicas, como trabalhos e relatos das visitas na sala de aula.
Certos edifícios deviam ser disponibilizados para pólos revitalizadores a nível comunitário, estabelecendo-se objectivos e parcerias com o terceiro sector, privados e poderes central e regional para o seu funcionamento. Neste âmbito, um exemplo modelar é o da Quinta de N.ª Sr.ª da Paz, que devia ser o Museu da Criança/ do Brinquedo, dando seguimento aos estudos realizados por técnicos municipais e apresentados na Assembleia Municipal (sobre o assunto vd. aqui e aqui).
O compromisso de recuperar o Teatro A Capital devia concretizar-se, pois era um pólo muito dinâmico e cosmopolita no Bairro Alto (a propósito, a algazarra copística no meio da rua aqui e noutros sítios devia ser proibida).
A divulgação também podia melhorar: não faz sentido haver edição municipal que nem a própria edilidade cuida, com obras ausentes das próprias bibliotecas municipais! Há um célebre Dicionário de História de Lisboa que se encontra esgotado há anos e que a Livraria municipal já devia ter reeditado. Devia-se pôr termo à edição voraz de brochuras caras e inacessíveis; o sítio de Internet seria o suporte ideal. À agenda cultural devia retirar-se a informação fixa (a inserir num guia de equipamentos culturais), centrando-se aquela somente em informação mais ágil, actual e útil.
Falta referir o Parque Mayer, um exemplo paradigmático de como a falta de reflexão, sentido estratégico e articulação de sectores ajuda aos maiores desastres políticos. Neste ponto, o melhor programa eleitoral era o de Carrilho, não tenho qualquer rebuço em admiti-lo: tinha um bom plano para a revitalização cultural e turística da Av. Liberdade (dinamizando e apoiando o que já lá havia: S. Jorge, Tivoli, Condes, Politeama, etc.), articulado com o Pq. Mayer, recuperando a jóia do Capitólio, 1-2 teatros, cafés e restaurantes e, claro, o acesso directo ao Jardim Botânico. Este acesso seria uma mais-valia para a cidade, um achado, e anda a ser defendido por vários amantes de Lx. há décadas. Com efeito, a necessária renovação deste recinto devia ter aproveitado várias das ideias que há anos vêm sendo estudadas e apresentadas pelos estudiosos à cidade e de que dei conta resumidamente num artigo de balanço dos 80 anos do Pq. Mayer (vd. a parte específica do artigo aqui). Em suma, sobre o Pq. Mayer teria bastado bom senso, auscultação de urbanistas e um pouco de estudo dos projectos anteriores para que agora o pudéssemos estar a usufruir e pudéssemos ter uma zona nevrálgica da cidade já mais dinâmica, por sua vez instigadora doutras dinâmicas. Aliás, a experiência bem sucedida deste Verão de bons concertos musicais no seu Teatro Variedades, despido de cadeiras e com uma recuperação mínima, é a demonstração cabal de que esta era a via a seguir. A recuperação do Pq. Mayer permitiria relançar o teatro na cidade, o turismo cultural e a economia local, o que seria um bom contributo para a cidade. Ainda vamos a tempo de arrepiar caminho e de travarmos mais um negócio urbanístico dispendioso, densificador e descontextualizado, sem ganho para a cidade nas contas finais.
Nb: imagem de Joshua Benoliel, mostrando estudantes no Parque Mayer, durante o Carnaval de 1911.

domingo, 4 de março de 2007

DJ Peão: Scissor Sisters

Já que estamos numa onda dançante: I Don't Feel Like Dancing.

DJ Peão: Vive la Fête



O tema "La verité" do álbum "Grand Prix" (2005)

O estado (social-educativo-laboral) da nação


Do país das maravilhas ao país possível

Caro Hugo, não parece certo pores na minha boca uma série de grosserias que não disse. Disparas em muitas direcções, mas não acertas em cheio em nenhuma. Vamos ver se nos entendemos, vou tentar clarificar a minha posição já que estás com alguma dificuldade em discutir argumentos e partes de pressupostos estereotipados que não me incluem.
1. Não tenho uma posição centralista do desenvolvimento económico. Entendo que em Portugal o Estado é excessivo e em muitos casos acaba por ser um agente perverso de retrocesso. Todavia, penso que o Estado é um agente central não para deter o controlo sobre a economia, mas para lançar dinâmicas estruturais de desenvolvimento que a prazo deverão ser absorvidas e apropriadas pela iniciativa privada.
2. Não culpo o Estado e os governos de tudo, mas acho que estes têm uma responsabilidade acrescida face a outras instituições e organizações.
3. Entendo que em Portugal a concertação social não funciona, principalmente porque os diversos parceiros, incluindo o Estado, não cumprem os acordos definidos. E se o Estado falta, tudo o resto vem por aí abaixo. Muito dos problemas gerados na economia e sociedade portuguesa devem-se a um Estado não cumpridor em praticamente todos os sectores.
4. Nunca foi meu lema assobiar para o lado e atirar umas bocas. Pelo contrário, sempre entendi que a única crítica pertinente é a que tem efeitos construtivos. E nisso dou-te razão, um dos males da esquerda é o de não conseguir propor medidas concretas de acção e de ficar, na maior parte dos casos, numa postura de não querer “sujar as mãos”.
5. Portugal ainda não encontrou o seu caminho de desenvolvimento precisamente porque muita gente se encosta e tem como lema de vida salvar o pêlo, tanto à direita como à esquerda.
6. Considero que tem havido uma certa incapacidade em pensar o modelo de desenvolvimento a partir da especificidade da realidade portuguesa. O modelo da sociedade de informação é um caminho possível, mas questiono se ele poderá ser um modelo aglutinador para Portugal como foi para a Finlândia.
7. A economia portuguesa é composta por uma diversidade de sectores tradicionais que urge modernizar e tem outros que ainda estão por explorar. Assim para além dos clusters mais imediatos: o turismo, o vinho, a cortiça, a industria têxtil e do calçado, etc. Temos outras potencialidades: as energias renováveis (uma boa aposta deste governo), a agricultura biológica, algumas áreas científicas em que podemos ser pioneiros, e muitos outros.
8. Neste sentido, o nosso modelo de desenvolvimento deveria articular esses vários clusters (os mais tradicionais e os recentes), tendo por base uma política de desenvolvimento diferenciadora e não uniformizadora em torno de um eixo polarizador. Ou seja, se quiseres, deveríamos pensar numa sociedade de informação a diferentes velocidades, mas todas a caminhar para sua modernização interna.
9. Essa visão diferenciadora deve ser implementada em parte pelo Estado, mas não como uma imposição centralizadora. Pelo contrário, o Estado deve organizar a sua acção enquanto mediador-decisor.
10. Essa mediação passa por encontrar ou gerar outros parceiros (para além das associações patronais e dos sindicatos). Por exemplo, seria interessante apostar-se nas Comissões de Coordenadoras e atribui-lhes um estatuto mais autónomo em relação ao Estado. A regionalização é uma matéria que urge debater!
Poderia continuar, mas não tenho mais tempo. Ficará para próximos posts!

Dejà vu

A resposta do Renato ao meu post anterior significa o regresso à estaca zero: é culpa é do Governo que anda "desnorteado" à procura do que fazer. É por isto que estes debates são tão improdutivos, porque vivem sempre do passar das responsabilidades para o vizinho do lado, de forma que ninguém a assume.
Eu não desresponsabilizei os vários governos ao longo do tempo pela situação do país. Aquilo que o Renato chama "inépcia política" existe. O problema para o qual eu queria alertar é outro, e que é a atitude de culpar sempre o Governo, por método, convicção e sistema. Se a educação, a saúde, a economia, a cultura, etc. etc., estão nas ruas da amargura, o Governo ou o Estado são sempre os culpados. Que estes tenham responsabilidades, eu não duvido, ninguém duvida; agora, simplesmente, isto é sempre, mas sempre o alibi para que os actores e parceiros institucionais não tenham que assumir as suas responsabilidades e mudar as suas práticas e acabar com os seus vícios (muitos deles alimentados pelo Estado e pelas facilidades criadas). Culpar o Governo é fácil; pensar que se calhar os professores, médicos, empresários, artistas, cientistas etc., possam também fazer uso errado dos subsídios que lhe são atribuidos, que possam fazer mau uso das condições (por vezes quase principescas) que usufruem, que os seus corporativismos podem levar a uma degradação do que devia ser serviços públicos em nome da comunidade, isso, infelizmente, nunca parece estar o caderno de encargos. Nunca. Há sempre uma forma de passar a culpa para um qualquer ministério ou um qualquer político a dezenas ou centenas de quilómetros de distância que, esse sim, é que tem a responsabilidade exclusiva de mandar em milhares de profissionais como se fossem "animais do campo" e estivessem à sua mercê.
Mas não são e não estão. O Renato assume que o Estado possa pilotar eficazmente a sociedade do centro. Desculpa pôr as coisas assim, mas isso é uma visão completamente naive e errada de como funciona a política, a administração e os profissionais, e as ciências sociais e políticas abandonaram-na há 20 anos, quando todos quantos não estavam amarrados pela ideologia perceberam que isto era impraticável. O mito do Estado todo-poderoso e todo-responsável pelo desenvolvimento do país dá precisamente no que vemos todos os dias e na atitude que o Renato tão bem expressa, desresponsabilizando tudo e todos e colocando toda a responsabilidade do sucesso político nos ombros de um ministro. Ora, meu caro, a cereja em cima deste bolo é que isto é uma profecia que se cumpre a sim própria (ou seja, nunca é falsificável): como isto é uma visão totalmente errada de como as coisas funcionam, e só pode levar à sobre-responsabilização do poder político quando as coisas não correm bem, as culpas são sempre monopólio do Governo, e não têm que ser partilhadas por mais ninguém. Depois sucedem-se ministros em catadupa, claro, que por serem incompetentes, têm ser corridos. E a malta cá fora festeja porque conseguiu "derrubar mais um". Assim vai o país.
Em vez de o caso finlandês, tão bem escolhido, servir de contraponto ao português, não; o Renato afirma que os finlandeses tiveram uma «extraordinária qualidade: olharam para as suas limitações e potencialidades e conseguiram construir um modelo particular que, felizmente, deu certo». Desculpa, Renato, mas não é isto que o Castells diz; isto é psychobabble política da pior; não é nem faz uma política de desenvolvimento. O que fez o sucesso finlandês foram as complementaridades institucionais e políticas e a capacidade dos diferentes actores assumirem as suas responsabilidades e trabalharem em conjunto em prol do país, em vez de se perderem em egoísmos institucionais e de alimentarem a conversa do culpa é do "outro", de preferência do Governo. E quando falo da Finlândia podia repetir os bons exemplos por essa Europa, América do Norte e Ásia fora.
É para acabar com esta conversa de que "a culpa é sempre do Governo" que as políticas públicas presentes e do futuro vão no sentido em descentralizar o poder e conferir mais responsabilidade aos agentes locais, para ver se acaba a "mama" e a concepção do "Estado-torneira-sempre-aberta-que-tem-de-estar-sempre-disponível-dos-pobres-profissionais" e do "Estado-que-tem-que-andar-com-a-malta-ao-colo". Vai haver constestação, e ainda bem: significa que se está a tocar na ferida. Quando médicos, professores, juízes, sindicatos, etc. etc. tiverem que prestar mais atenção aos fundos que lhes são atribuídos e à forma de funcionamento das suas organizações, quando tiverem de atender aos públicos que devem servir em vez de chutar a responsabilidade para os gabinetes ministeriais - ou seja, quando estas mudanças de gestão das organizações e instituições estiverem em prática e obrigarem as pessoas a mudarem a maneira de pensar, então talvez o país possa mudar. Quando o Governo definir as suas responsabilidades e os outros actores definirem as suas; quando cada um acordar naquilo que tem que legitimamente cumprir e espera legitimamente que o outro cumpra; quando as partes forem capazes de pensar contratualmente («eu já fiz isto; agora é a tua vez de cumprir com o que está estabelecido») em vez de os segundos estarem à espera que o Governo transfira o dinheiro para depois virem sempre dizer que o dinheiro não chega (nunca chega, né?), etc. - até lá, a vitimização e a desresponsabilização vão continuar. E a Finlândia vai ficar cada vez mais longe - mas claro, a culpa será sempre, sempre, sempre do Governo.
Fico desiludido por confirmar o que chamei "Governo-dependência em agudíssimo e patológico grau" seja, actualmente, talvez a mais grave doença infantil da esquerda.

P.S. - O Renato escreve a certo ponto que "Segundo ele, de um lado o país tem um atraso estrutural na qualificação que dificulta em muito a tarefa de o modernizar". Não é a minha opinião, Renato; é algo partilhado por toda a gente com responsabilidades pollíticas, nacionais e internacionais, que sabe, como 2 mais 2 serem iguais a 4, que sem Portugal melhorar neste indicador e noutros a nível educativo, boa parte do tecido industrial país está condenado a concorrer com o terceiro-mundo em termos económicos, e a jogar um jogo que não pode ganhar. Dá-me a ideia que as pessoas não se apercebem da gravidade deste problema, que é resultado, infelizmente, da inépcia de muitos actores, políticos, sindicais e profissionais ao longo de muitos anos. Podemos parar de atribuir culpas a A, B e C e perceber o que é que é devido a cada um numa batalha que a todos diz respeito? O Governo já definiu a estratégia (e se for importada de outro país, qual é exactamente o problema, se ela for boa e tiver pés para andar? Ninguém reinventa a roda aqui, Renato). Era bom que agora os outros parceiros definissem a sua e se abrisse uma trégua na conversa da "culpa é do outro".

Livre acesso ao saber: O exemplo da PLoS

E por falar em livre acesso ao saber, vale a pena contar a história da Public Library of Science, ou PLoS. Em 2000 um grupo de investigadores na área das Ciências Biomédicas lançou a PLoS, auto-definido como Grassroots movement, que é como quem diz um movimento da sociedade civil, neste caso dentro da comunidade científica. O objectivo era (e é) fazer pressão para que as revistas científicas sejam de acesso livre. Os argumentos principais são que a investigação publicada nessas revistas é financiada por dinheiros públicos ou instituições sem fins lucrativos, logo os resultados dessa investigação deve estar ao alcance de todos, e que a livre difusão dos resultados da investigação incentiva o progresso e a qualidade da investigação. Este movimento surge numa época em que as publicações nesta área científica são dominadas por dois grandes grupos editoriais, a Cell e a Nature. Excepção feita a uns poucos intruso, as revistas mais prestigiadas pertencem a um destes dois grupos, uma situação de quase monopólio do saber. Para ter acesso a uma qualquer artigo publicado tem que se pagar, em teoria até os próprios autores terão que pagar para ler os seus próprios artigos. A PLoS decidiu tornar-se a aprtir de 2003 também em editora de revistas científicas em "competição" com a Nature, a Cell, e as outras. O objectivo não é que a PLoS a substitua as outras publicações mas simplesmente pelo exemplo tentar pressionar as outras para que mudem de política editorial. A filosofia da PLoS, já que obviamente alguém tem que pagar os custos da publicação, é que devem ser os próprios investigadores que querem publicar os seu trabalho a pagar esses custos. Como já são essencialmente os investigadores quem paga os artigos publicados, ao pagar para ler, o dinheiro vem do mesmo lado, não muda muito a coisa. Muda "apenas" o pequeno pormenor que qualquer pessoa pode ir ao site da PLoS e descarregar em PDF um artigo científico (qualquer pessoa é mesmo qualquer pessoa, incluindo você que está a ler este post). O resultado está à vista, a PLoS Biology é já neste momento a revista generelista em Biologia mais citada com um factor de impacto à volta de 14 (ainda não ultrapassa nem a Cell nem a Nature que andam perto dos 30), notável para uma publicação tão recente. Entretanto outras revistas lançaram já iniciativas de uma relativa abertura no acesso aos artigos publicados, relativa mas não completa.

A PLoS entretanto deu já mais alguns passos em frente no modo como é feita a publicação científica. A mais "revolucionária" será provavelmente a Plos ONE, que é um misto de revista científica e blog (é a blogosfera a contribuir para o progresso da ciência :-). Qualquer artigo científico pode ser publicado, sem passar pelo crivo do "peer review", não há limite para o número de artigos publicados, o que só é possível porque é uma publicação exclusivamente baseada na internet e não em papel. O crivo do "peer review", que é apesar de tudo absolutamente essencial em ciência, vem após a publicação. São os leitores/especialistas no assunto que comentam o artigo na caixa de comentários, tal como alguns Peões fazem aqui neste blog, e assim os leitores menos especialistas podem ler os comentários/críticas e formar uma opinião mais fundamentada sobre a qualidade do artigo que lêem. É não só livre acesso ao saber, como também livre discussão do saber.

P.S. - Para quem tenha preconceitos anti-americanos primários convém referir que a PLoS é baseada nos E.U.A. e é uma inciativa quase exclusivamente de investigadores americanos.

Hugo no País das Maravilhas

Não deixa de ser sintomático que o Hugo utilize uma personagem do livro Alice no País das Maravilhas para ilustrar a sua argumentação. Acho que a metáfora não podia ser mais acertada. Alice criou um mundo paralelo cheio de personagens fantásticas mas que não são assim tão irreais quanto isso. A sua imaginação pródiga era muitas vezes sugestionada por pessoas reais, ela só exagerava num ou noutro traço particular. Nas várias estórias de Alice só uma personagem entra no mundo real: o coelho. Apesar disso, o coelho talvez seja a figura mais alucinada. É um escravo do tempo, está sempre atrasado. E a culpa nunca é dele! Ou é da Rainha de Copas que o mandou estar a tantas horas no sítio tal, ou é da Alice que o atrasa com perguntas que considera despropositadas.
Vem isto a propósito dos argumentos do Hugo sobre a sociedade de informação em Portugal. Segundo ele, de um lado o país tem um atraso estrutural na qualificação que dificulta em muito a tarefa de o modernizar. Do outro tem um conjunto de forças de bloqueio, como os sindicatos, que reforçam ainda mais esse atraso. Nesta estória o governo é uma espécie de coelho desnorteado que ora corre para um lado, ora para outro. Mas nunca consegue chegar a tempo! A culpa não é sua (claro!), a responsabilidade é do atraso dos outros. Caro Hugo, se estás à espera que os sindicatos se modernizem para que o país se possa modernizar, bem podes correr atrás do coelho.Portugal não é o país das maravilhas, como a Finlândia também não o era no final dos anos 80. No entanto, os finlandeses tiveram uma extraordinária qualidade: olharam para as suas limitações e potencialidades e conseguiram construir um modelo particular que, felizmente, deu certo. E é isso que Portugal tem de fazer e ainda não fez! O que até agora se fez foi importar uma série de medidas avulso de outras economias. Algumas fazem sentido, mas no conjunto perdem coerência. Se consideras o programa de governo esse plano estratégico, então andas mesmo a correr atrás do coelho. O problema é que quando o apanhares será tarde demais.

DJ Peão: Michael Nyman



O tema "Prospero's Magic" da banda sonora do filme "Prospero's Book", realizado por Peter Greenaway (1991).

DJ Peão: Cat Power



O tema 'Maybe Not' do álbum "You Are Free" (2003).

Sociedade de informação: miragem ou realidade

Nestes últimos dias estive a ler o último livro de Manuel Castells publicado pela Gulbenkian, sobre o caso finlandês de Sociedade de Informação. Ao lê-lo percebi que Portugal está a anos-luz de poder vir a transformar-se numa sociedade com aquelas características. A não ser que se defina uma estratégia nacional que aponte decisivamente para esse rumo. O caso finlandês resulta em grande medida de uma concertação de sinergias orientadas e mobilizadas pelo próprio Estado, que, entre outros aspectos, apostou no ensino superior público de qualidade (plenamente gratuito) em áreas vocacionadas para a ciência e tecnologia, no investimento em I & D que na década de 80 já ultrapassava os 1% do PIB e que agora se cifra nos 3%, na valorização da inovação não só empresarial como social, etc. Esta aposta levou num primeiro momento ao aumento do desemprego e dos níveis de recessão económica, mas a partir de meados dos anos 90 começou a dar os seus frutos. Isto é, os finlandeses passaram por um mau bocado mas, como tinham um plano estratégico concreto capaz de mobilizador a população, houve confiança!
Em Portugal vivemos há quase uma década uma situação mista entre estagnação e recessão económica. Sabemos que o modelo de desenvolvimento anterior já não é sustentável, mas não conseguimos encontrar outro modelo que relance a nossa economia. Contudo, há a noção generalizada de que o caminho a tomar é o da tal sociedade de informação. O problema é que os vários governos ainda não acharam o trilho. O estudo da sociedade finlandesa revela-nos que esse trilho parte de uma construção conciliada entre todos - empresários, sociedade civil, sindicatos, etc. – cabendo, no entanto, ao Estado e respectivos governos a capacidade de tomarem a dianteira, ou seja, definirem um plano e gerarem as condições necessárias para a confiança entre os vários agentes. Em Portugal os governos têm demonstrado serem duplamente incapazes: não conseguem conceber uma estratégia aglutinadora e normalmente provocam o conflito social e o descontentamento (em muitos casos por inépcia política). É evidente que enquanto isto for assim os sindicatos canalizarão sempre esse descontentamento para a sua acção reivindicativa. Não se pode culpá-los de o fazerem. Esse é o seu papel! Não me parece que seja irresponsável ou eticamente questionável. Não tenho dúvidas de que os sindicatos tornar-se-ão parceiros do desenvolvimento, quando os trabalhadores que representam se convencerem de que no médio prazo terão algum retorno (para si ou para os seus filhos) relativamente a alguns direitos que possam perder no imediato. Daí eu achar que o ónus não está do lado dos sindicatos, mas sim, do lado do governo.

A "sociedade da conhecimento" e a política do Humpty Dumpty

Para continuar este debate em torno da sociedade da informação e sobre quem tem a responsabilidade do quê, vamos por partes:

1 - Aparentemente, a sociedade da informação não é um "mito", nem "retórica", nem uma "ideologia de Estado". Existe nalguns países, e a Finlândia parece ser um deles.
2 - O caso finlandês é extremamente interessante. Mostra como uma sociedade que dependia em grande medida comercialmente da existência da União Soviética foi arrastada economicamente pelo colapso político desta e teve que se reconverter em alguns anos. A Nokia, que estava no negócio da produção e transformação do papel - boa parte dos seus lucros vinham da venda de papel higiénico para os soviéticos -, transformou-se em três tempos numa empresa de telemóveis, e é o símbolo acabado desta metamorfose de sucesso.
3 - O Renato equivoca-se num ponto essencial: se foi o Estado finlandês que orientou inteligentemente o processo, não foi o Estado que "convenceu" os sindicatos a participar na sua estratégia nacional. Os sindicatos não precisavam de ser "convencidos": eles conheciam perfeitamente o seu papel e as suas responsabilidades nacionais (tinham aprendido muito atrás com os seus vizinhos suecos, tal como aconteceu com os dinamarqueses e noruegueses), e a tal "confiança" que eles também souberam incutir na população - e que o Renato elogia (e bem) - não tem nada a ver com o catastrofismo a que estamos habituados por cá.
4 - Os sindicatos finlandeses mais importantes são social-democratas, não são comunistas. Não têm medo de meter sujar as mãos na gestão do sistema. São muito mais democráticos que os nossos; quem quiser virar a política sindical para a reivindicação oca não chega longe na sua organização interna.
5 - O argumento do Renato é um exemplo do que eu gosto de chamar política "Humpty Dumpty". Neste caso passa-se mais ou menos isto:
- elege-se um problema;
- depois aponta-se para uma estratégia de saída (políticas públicas, investimento em educação e I&D, etc.);
- depois diz-se que "os vários governos ainda não acharam o trilho";
- depois quando alguém faz alguma coisa para caminharmos nessa direcção (o caminho nestas coisas costuma ser mais ou menos longo), diz-se que ainda estamos muito "longe", e que assim nunca mais vamos lá chegar.
- depois, quando se procura olhar em volta e perceber quem está a faltar às responsabilidades; ou seja, quando se pergunta: "será que «empresários, sociedade civil, sindicatos» estão a fazer aquilo que deviam (dado que o contributo de todos os stakeholders, e não apenas do Estado, é fundamental para atingirmos o objectivo)?" e vemos que a resposta é que alguns não o estão a fazer, então a culpa não é desses stakeholders, mas só pode ser do Estado! Se os sindicatos - ou os empresários, as associaçoes da sociedade civil, etc. - resolverem comportarem como meninos birrentos, então a culpa é do Estado que não os conseguiu "convencer". Os sindicatos - ou qualquer outro stakeholder - pode sempre fazer o que lhe der na veneta, porque não pode ser responsabilizado; só o Estado pode. Se o sindicato resolve embarcar na política do "quanto-pior-melhor", de novo a culpa só pode ser do Estado. E assim por diante.


Renato, vou dizer francamente o que penso disto: esta mentalidade é meio caminho andado para não sairmos da cepa torta. É aliás provavelmente por ela ser tão difundida que ainda não saímos; que a sociedade do conhecimento é para nós um "mito"; e que vai levar muito mais tempo do que países dotados de instituições funcionais e actores inteligentes como a Finlândia levaram. Achar que é o Estado que tem que "convencer" os sindicatos é ter uma ideia totalmente errada - porque desmesurada e exagerada - do poder do Estado e dos seus agentes e da capacidade dos sindicatos em se deixar "convencer" (já pensaste que é preciso eles quererem ou estarem interessados em ser "convencidos"?), como se eles fossem manipuláveis como o cão do Pavlov ou cremosos como manteiga. Mas eu pergunto candidamente: será que os sindicatos não pensam por si próprios? ou são inimputáveis, política e eticamente? É que se são política e eticamente inimputáveis, então mais vale colocá-los de parte numa qualquer estratégia de desenvolvimento nacional. É isto que faz o que se chama "neo-liberalismo": institui os mercados como terapia de choque e parte os sindicatos ao meio. Foi o que fez a Thatcher, legitimada pelo eleitorado inglês, cansado de anos de parvoíces dos trabalhistas. Não foi o que fizeram os finlandeses. É a diferença entre os sindicatos da looney left trabalhista do final dos anos 70 e os inteligentes sindicatos finlandeses do final dos anos 80: os primeiros foram postos de parte; os segundos foram parceiros do desenvolvimento nacional. Os primeiros cavaram a sua própria sepultura e de dentro do caixão bradaram contra o "neo-liberalismo", como se as suas parvoíces não tivessem contribuído para o pôr no poder; os segundos reforçaram a sua importância nacional na gestão das instituições sociais e económicas.
Dado que eu não considero os sindicatos como seres inimputáveis mas como instituições responsabilizáveis - porque são socialmente decisivas e politicamente poderosas - está nas mãos dos sindicatos mudarem a sua estratégia e perceberem se querem fazer de Humpty Dumpty - o "ora agora estou aqui, ora agora estou ali", sem nunca se deixar apanhar nem se comprometer a longo prazo com nenhuma política sustentada - ou se querem investir numa estratégia que beneficie o país e, por arrasto, os seus membros. Está nas suas mãos saberem se querem seguir a via britânica ou a finlandesa. Neste momento têm um governo que, apesar das diferenças nacionais, institucionais e históricas, pretende trilhar o caminho finlandês; amanhã pode ser que encontrem no poder um partido que não os está para aturar e prefere optar pela via britânica. Para quem "vive" da vitimização, o neo-liberalismo é muito melhor companhia do que alguém que os obriga a assumir as suas responsabilidades na governação "informal" do país.
Entretanto, é provável que continuemos no desporto preferido dos portugueses: achar que o Governo é culpado de tudo quanto corre mal, e quando alguém pergunta se mais ninguém com poder institucional tem responsabilidades, assobiar para o lado. Neste caso, vai-se ainda mais longe: defende-se que esses com poder podem e devem continuar a assobiar para o lado, porque é afinal o Governo que tem a responsabilidade de os convencer a deixar de assobiar para o lado. A responsabilidade dos actores sociais puramente não existe, como se fossem crianças pequenas ou adultos inimputáveis. Se isto não Governo-dependência em agudíssimo e patológico grau, então honestamente eu não sei o que é.

Sobre a "mobilidade intelectual"

Este discurso miserabilista sobre a empregabilidade dos licenciados, que o Hugo refere nos posts anteriores, é um reflexo claro da crise do modelo universitário português. E a solução não é a que muitos apregoam.

Há um ano, o presidente da PT-Inovação tentou convencer uma audiência de investigadores portugueses nos Estados Unidos que o problema da universidade portuguesa residia na desadequação da formação dos engenheiros, um exemplo que lhe era mais próximo. Para o responsável pela área de inovação de uma das maiores empresas portuguesas, os engenheiros formados nas universidades portuguesas não são suficientemente especializados. Durante dois dias, muitos tentaram mostrar-lhe que o problema era o oposto. E nem a presença, no mesmo painel da conferência, do responsável pela inovação da Microsoft serviu para ilustrar que o excesso de especialização conduz, inevitavelmente, a uma menor capacidade de adaptação às mudanças de paradigma.

Responsável da Microsoft esse que tem um Ph.D. em biologia. Repito: um indivíduo com um Ph.D. em biologia é o responsável pelo sector de inovação da maior empresa de software do mundo. A isto, pode chamar-se "mobilidade intelectual". A outra mobilidade de que ninguém fala e que a universidade portuguesa está longe de facultar aos seus alunos, quando os obriga a frequentar disciplinas de uma só área científica.

sábado, 3 de março de 2007

Ainda a "sociedade do conhecimento": o problema é a sub-qualificação, não a sobre-qualificação dos portugueses



Há um elemento que por vezes emerge do debate público - outro dia o DN voltou a fazer capa com uma reportagem sobre este tema - e que versa sobre o facto de muitos licenciados estarem no desemprego ou apenas obterem um emprego bastante fora da sua área de especialização.

Eu não duvido que haja muitos casos destes pelo país. O problema é a conclusão imediata que se retira: que hoje temos excesso de licenciados, que há uma "inflação" de diplomas, no fundo, que a educação doesn't pay. Isto é uma conclusão empiricamente falsa e envia a mensagem errada para a sociedade.


O primeiro quadro mostra o que se passa. Ter uma licenciatura é, em Portugal, muito mais lucrativo do ponto de vista do salário individual médio do que noutros países europeus. Só a Hungria, que está em forte desenvolvimento tanto pós-industrial como ao nível do ensino superior, é que ultrapassa Portugal neste aspecto. Se tomarmos 100 como o valor médio do salário para quem tem o ensino secundário (de acordo com dados do INE, apenas 28% da população tinha em 2001 o ensino secundário ou mais), vemos que a população activa entre os 25 e os 64 anos sem uma qualificação superior (a larguíssima maioria dos portugueses, portanto) ganha apenas 62% deste valor, sendo que estão entre os 30-44 ganham em média apenas 58%. Isto significa que não ter uma qualificação hoje é (ainda) mais penalizador do que no passado. Inversamente, ter qualificação superior compensa muitíssimo, em particular no intervalo 30-44 anos (por outras palavras, a nossa geração), onde se aufere em média o dobro (!) do salário médio que recebe um trabalhador com o ensino secundário.


Não espanta que que as desigualdades económicas em Portugal sejam elevadas - as desigualdades ao nível das qualificações também o são. No entanto, é provável que com a generalização - ou "inflação" em certas áreas - dos títulos superiores leve ao fenómeno que vemos no caso húngaro, onde a geração actual a qualificação superior compensa um pouco menos quando comparada com a população activa (25-64), baixando os valores de 210 para 203 - mesmo assim um número altíssimo.


Mas atenção: escrevi "inflação" em certas áreas. Isso significa que o ensino superior pode estar a produzir pessoas altamente qualificadas em certas áreas onde a procura é relativamente fraca. Não tenho dados aqui à mão agora, mas não me admirava que o défice inequívoco que temos de, por exemplo, engenheiros fosse "compensado", no mau sentido, por pessoas nas áreas da ciências sociais, da comunicação e da educação, cursos muito na moda nos últimos 15 anos e que explodiram nos sectores público e privado. Ora, se não há procura para absorver isto tudo, estas pessoas acabam por ser empregues em outras actividades para as quais estão sobrequalificadas, provavelmente a ganhar menos do que legitimamente esperavam no início da sua formação, e desiludidas com todo o seu percurso.


Mas por favor não se diga que também é responsabilidade do Estado absorver estas pessoas qualificadas; com o défice público que temos, não há margem de manobra. O que o Estado deve é regular decentemente a abertura destes cursos tanto no público como no privado para evitar a produção de bolhas de licenciados em áreas sem saída. E duvido que esta regulação tenha sido exercida com a mão-de-ferro que se exigia na última década e meia.

Sobre a "retórica" e a "ideologia" da sociedade do conhecimento


Renato, para quem acha isso da sociedade do conhecimento é "retórica" e uma "ideologia oca de Estado", então ainda não percebeste a gravidade da situação. Ela é muito mais grave do que as 150 mil pessoas que ontem estiveram nas ruas pensam, e se não houver uma estratégia nacional firme vai ficar pior. Olha para este quadro com atenção e encontra Portugal. E depois olha para os nossos competidos directos num futuro próximo em termos de custos do trabalho. Procura a Eslováquia, a Rep.Checa, a Hungria, já para não falar dos outros países. Vão ser duas décadas pelo menos até chegar a um nível de escolarização comparável. Explica-me como é que queres salários altos numa economia com este perfil de qualificações.
Os sindicatos bradam contra os baixos salários? Eu também. Quem não clama? Então se querem ser levados a sério, eles que ajudem naquilo que podem, enquanto parceiros institucionais que são, que é mobilizar jovens e adultos para regressar à escola, certificarem a sua experiência e melhorarem as suas qualificações (seriam muito mais úteis do que andar a agitar bandeiras e vociferar os slogans do costume, aquilo que tu vês como prova de força e eu vejo como a prova do desespero). A alternativa a não inverter este quadro é concorrermos directamente com a China e outros países em industrialização acelerada, que fazem um sapato e montam um automóvel por uma fracção do que os nossos trabalhadores levam. Depois não se queixem dos baixos salários. Ah, e do desemprego de dois dígitos que um dia talvez seja impossível de evitar. Mas culpar o Governo por método, convicção e sistema, em vez de todos assumirem as suas culpas é muitíssimo mais fácil.

Boas leituras!

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Hoje, às 16:30H, será lançada a obra colectiva Estudos de Sociologia da Leitura em Portugal no Século XX, dirigida por Diogo Ramada Curto. O livro é composto por 24 estudos de jovens investigadores (entre eles, alguns peões e afins), por uma recolha de imagens sobre a leitura realizada no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa e por um conjunto de fotografias de Paulo Catrica.
O lançamento terá lugar na LIVRARIA CULSETE, em SETÚBAL (Av. 22 de Dezembro, n.º 23).
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Imagens do AFML:
1-Praça João do Rio, [194-] (fot. Horácio Novais)
2-Jardim do Príncipe Real, 1949 (fot. Mário Novais)
3-Miradouro de Santa Luzia, [194-] (fot. Horácio Novais)

A (re)apertura do proceso de paz e as súas posibles consecuencias políticas para o "governo Zapatero".


Hai xa un par de meses, cando o noso querido peao botaba a andar, decidín que o tema do meu primeiro post fose unha reflexión sobre a situación pola que pasaba o proceso de paz (ou o que fose ser del) despois do devastador (e mortal) atentado de ETA na terminal T4 do aeroporto de Madrid - Barajas o 30 de decembro do ano pasado. Daquela arriscaba a hipotetizar sobre o rumbo que poderían tomar os acontecimentos de alí en adiante. Penso que hoxe pode ser unha boa ocasión para facer unha nova valoración.

Algúns indicios significativos.

Hai quince días, nun mitín de precampaña das eleccións municipais de maio, celebrado no País Vasco, en concreto en Vitoria, José Luis Rodríguez Zapatero establecía cinco condicións para unha posible reanudación do proceso de paz (o presidente non foi tan explícito). Entre elas, as máis relevantes serían a esixenza a ETA de que abandoe definitivamente as armas e a "Batasuna, e á "esquerda abertxale" no seu conxunto, dunha condea firme e creible da violencia. O pasado sábado, o líder da ilegalizada "Batasuna", Arnaldo Otegui, concedía unha entrevista ó diario barcelonés "La Vanguardia" que, tanto polo contido das súas declaracións (até o de agora inédito) como polo ton xeral da mesma, non pasou desapercibida nin para a opinión pública española nin para os medios políticos, como amosou a breve referencia que a ela fixo o propio presidente do governo nun acto oficial ó día seguinte, cando comentou: "Hay elementos distintos a otros pronunciamientos tradicionales (de ETA)". Otegui afirmaba, entre outras cousas:


"Nosotros no usamos las armas. Queremos hacer política en términos democráticos (...) Lo que queremos transmitir a la ciudadanía es que dentro de un marco democrático donde tengan cabida todos los proyectos, la independencia sólo se puede construir desde vías pacíficas y democráticas. No se puede construir de otra manera"; "El Estado español no tiene que pagar ningún precio político a ETA. Ni tampoco a nosostros. Si nos situamos en la ecuación el fin de la violencia comporta el que haya que pagarle un precio político a ETA, no habría soloución. Eso equivale a plantear la rendición del Estado" ou "El gobierno tiene motivos para desconfiar de la interlocución de ETA, como estoy convencido de que la interlocución de ETA tiene motivos sobrados para desconfiar del gobierno...".


Semella claro que "Batasuna" devece por ser legalizada e presentarse ás vindeiras eleccións municipais de maio, que poderían sancionar o seu aparente papel de líder do conxunto da "esquerda abertxale" (en sentido amplo) no actual proceso. Nada lles gusta máis que compararse ó "Sinn Fein" ou o "Congreso Nacional Africano". Agora ben, quedan demasiadas preguntas no aire: unha posible condea da violencia como instrumento político é unha postura unánime no seo do nacionalismo radical vasco? Trátase dunha convicción sincera ou dun artificio retórico que se esvaecerá despois da legalización? Hai membros da organización terrorista ETA que apoian este posicionamento? Vai deixar ETA ser tutelada en futuras fases do proceso de paz por "Batasuna"? Que riscos de escisión interna hai na propia ETA?

De Juana Chaos, unha pedra menos no complexo camiño do proceso de paz.

O outra gran foco informativo da semana ó respecto, ten sido a resolución - alomenos en apariencia - do xudicial e políticamente intrincado caso do "militante histórico" de ETA Iñaki de Juana Chaos. Para resumir este folletín de despropósitos xudiciais, diremos que Iñaki de Juana foi un dos terroristas máis mortíferos da historia de ETA, con máis de vinte asasinatos ás súas costas durante a década dos 80. Foi condeado a 2.665 anos de cárcere, dos que, segundo o Código Penal de 1973 polo que foi xulgado, podería cumprir un máximo de 30. Tras aproveitar unha serie de beneficios penitenciarios (como a redención de once anos de pena pola realización de diversos traballos) De Juana tería que sair da cadea en agosto de 2005. Nembargantes, non o fixo porque un xuiz da Audiencia Nacional decretou a sua prisión a causa das supostas "ameazas veladas" contidas en dous artigos escritos polo terrorista no xornal abertxale "Gara". En outubro de 2005 foi condeado a doce anos de prisión por esas ameazas, no que constituiu unha condea, o meu xuízo, desproporcionada (e por ende, inxusta) e absolutamente condicionada pola alarma social e mediática provocada pola súa inminente excarcelación (producto dun Código penal desfasado e dunha política penitenciaria delirante). Trala sentenza (novembro de 2005), De Juana retomou unha folga de fame que xa comezara en agosto e que só suspendera durante a celebración do xuízo. O estado de saúde do preso empeorou até o punto de ser hospitalizado e de advertir os médicos da súa posible morte ó poder xudicial xa en febreiro de 2006; coa declaración de ETA de tregua indefinida (finais de marzo) pouco menos que no forno.


No pasado mes de febreiro, o Tribunal Supremo decidía reducir a condea de 12 a 3 anos e pasar a pataca quente da súa posible saída de prisión a "Institucións Penitenciarias", é dicir, a un organismo directamente dependente do governo. Finalmente, este decidía antonte, xoves día 1 de marzo, aplicarlle a Iñaki De Juana Chaos prisión atenuada (custodiado no seu domicilio), convertíndose así no primerio preso en España ó que se lle aplica esta modalidade de cumprimento da pena despois de ser el mesmo quen puxera en perigo a súa vida.

Á prisión atenuada para De Juana Chaos ten que ser lida, cómo se non, en clave política. O "histórico" terrorista etarra tíñase convertido nunha pedra no zapato do proceso de paz para todolos protagonistas do mesmo. Para a propia ETA porque a dirección desta desautorizou a súa folga de fame, en especial no agromar do proceso de paz. Nembargantes, esta actitude cambiou segundo as partes se foron distanciando no verán - outono de 2006, até o punto de declarar Otegui, na súa primeira comparecencia pública despois do atentado do 30 de decembro de 2006 que: "que un preso de ETA mantuviera una prolongada huelga de hambre era un síntoma de que el proceso no marchaba por buen camino". Agora, despois do autoimposto "periodo de reflexión" da "esquerda abertxale", e dun aparente cambio de orientación no seu discurso, a situación de De Juana Chaos podería volver a ser un atranco para os planos inmediatos da formación ilegalizada, e, segundo eles, para o propio proceso. Todo isto non quita que o teñan ido a recibir como a un heroe ó hospital de San Sebastián no que foi ingresado o mesmo xoves, ou que fixeran declaracións retóricas sobre os exitosos resultados da resistencia ó Estado español.


O governo, pola súa banda, quitou un peso de enriba - relativamente - pois o panorama do proceso quedaría absolutamente ensombrecido se un preso de ETA chega a morrer na cadea como consecuencia dunha folga de fame derivada dunha condea xudicial cando menos arbitraria. A banda terrorista tería outro mártir para o seu santoral, e determinados discursos normativos nos círculos do radicalismo abertxale recibirían un forte pulo retroalimentador. A consecuencia para Zapatero, para o seu ministro do Interior e home chave na xestión do proceso - Pérez Rubalcaba - e para o conxunto do executivo socialista, vai ser -probablemente - un forte desgaste político, canalizado e capitalizado polo Partido Popular e por certos sectores (AVT) das asociacións de vítimas, que acusarán ó governo de telas traicioado (o que xa fixeron co poder xudicial manifestándose en contra das súas decisións); de someter ó Estado de dereito á chantaxe do terror e de considerar a preservación da vida dun dos terroristas máis sanguinarios por riba da memoria das súas vítimas.

Conclusións (máis provisorias ca nunca).

Todo isto condúceme a unha serie de reflexións, relacionadas coa finalidade ou non finalidade electoral das accións (en concreto da política respecto do terrorismo) do actual governo español.

Antes de que ETA declarara a súa tregua, en marzo de 2006, e mesmo até o verán - outono do pasado ano, eu tiña a convicción de que o PSOE gañaría as eleccións da primavera de 2008 con facilidade, quizais mesmo con maioría absoluta. Esta percepción era o resultado de sumar a unha lexislatura relativamente tranquila - marcada pola bondade dos indicadores económicos e pola aposta decidida por certas políticas sociais/civís - a desastrosa estratexia de oposición seguida por un PP moi desconcertado dende o primeiro minuto do partido. Agora xa non o vexo tan claro. Estou certo de que a aposta polo diálogo do governo, que non deixou de ser evidente nin nos días posteriores ó atentado de Barajas, é acertada - mesmo me atrevería a dicir eticamente correcta - pero politicamente moi arriscada, dada as fibras sensibles que o problema do terrorismo toca en España, tanto en amplos sectores da opinión pública, como nunha porcentaxe moi elevada dos votantes, e non só, nin moito menos, dos do PP. Aquí habería pois, ó meu entender, dúas posibles lecturas que facer. Unha idealista, segundo a que, para o actual governo, a pacificación do País Vasco, e o fin pola vía do acordo da violencia etarra, sería unha prioridade absoluta por riba de calquera outro tipo de obxectivo político - electoral, mesmo o mantemento do poder. Non o creo. Outra, máis en clave electoral, tería que ver coa posible aposta de Zapatero e do PSOE por unha solución (ou por un encauzamento) máis ou menos rápido do proceso de paz que se puidera "vender" ós electores como un éxito de xestión política sen precedentes na historia dos 30 anos da democracia postfranquista en España. Un governo que non só tería "aliviado" as tensións territoriais e nacionais respetando o marco legal da Constitución de 1978, senón que a maiores tería rematado coa estructural "lacra do terrorismo". Agora ben, se isto é así: mide ben as súas forzas, as súas posibilidades e as súas capacidades este governo?; evolucionará a situación nun sentido manifestamente positivo (cara á resolución final do conflito) de aquí ás eleccións de abril de 2004?.

Xa o veremos.

DJ Peão: Michael Galasso



Tema da banda sonora do sublime "In the Mood for Love", realizado por Wong Kar Wai (2000)

Let's Make Love and Listen to Death From Above

Cansei de Ser Sexy: uma revelação brasileira para acompanhar a triologia referida três posts mais abaixo.

DJ Peão: Yann Tiersen


O tema de "State of Shock", por Yann Tiersen, aqui na voz do guitarrista Mark Sens, do álbum gravado ao vivo "On Tour" (2006), que o compositor francês vem apresentar na próxima 4ªfeira, dia 7 de Março, à Aula Magna. Os bilhetes, creio, já estão esgotados.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Algumas notas sobre a contestação social

1. Sempre que há reformas que racionalizam os recursos do Estado - que, ninguém de bom senso coloca em causa a necessidade - há inevitáveis ondas de descontantamento. Dentro da função pública, os inúmeros estatutos criados ao longo dos anos e os múltiplos regimes de excepção que protegem os insiders não podem deixar de produzir milhares de outsiders que são os primeiros a sofrer as medidas de restrição orçamental. Não sejamos hipócritas: o Estado que multiplica a precaridade e alimenta a geração "recibo verde" é o mesmo Estado que alimenta os privilegiados com estatutos de excepção, pagos, proporcionalmente, como os seus colegas dos países mais ricos da Europa, apesar de viverem num dos mais pobres. Porque os segundos são intocáveis, e porque o Estado precisa de apertar o cinto, quem sofre são os primeiros, não os segundos. Mas como estes segundos também estão organizados em "sindicatos", também têm toda a lata de se queixar de precaridade (por vezes "precaridade" significa que deixam de se poder reformar aos 52 ou 55 anos, condições que dão por adquiridas e invioláveis, não lhes passando pela cabeça quão escandaloso isto é para quem tem de trabalhar mais uma década para se aposentar - muitas vezes o seu colega de trabalho diário, pago a recibos verdes). Por curiosidade, eu gostava de saber quem esteve em maioria na manifestação, se os primeiros ou se os segundos.

2. Os números do desemprego têm estado instáveis e por vezes pouco animadores, mas a mim não me espantava que subissem mais. Quando a Espanha atravessou um processo de modernização do Estado e do tecido industrial não muito diferente daquele que atravessamos agora, há cerca de uma década, eu não sei se se lembram dos números de desemprego, mas convém recordar que durante alguns anos eles andaram na casa dos 20%, por vezes um pouco acima, outras vezes um pouco abaixo.

3. O que eu gostava mesmo, mas mesmo de saber era que política laboral propõe a CGTP. Partindo do princípio que ela tem uma, ou muito me engano, ou se o Governo a seguisse, o desemprego ia subir ainda mais. Mas não havia problema; depois dos números subirem, voltavam para as ruas para dizer que a culpa era do Governo. E assim por diante, do género de "pescadinha-de-rabo-na-boca".
No pós-II Guerra Mundial, o maior sindicato sueco tinha um gabinete de investigação de economistas de primeira água, interessados em construir políticas laborais progressistas e exequíveis para um sindicato interessado na co-gestão das empresas e do país. Criticar e denunciar não chegava; era preciso construir. Ajudaram a construir uma das economias mais dinâmicas e igualitárias do mundo.
O nosso sindicalismo, em termos de competência, seriedade e responsabilidade parece estar nos antípodas do exemplo sueco.

Entre a OPA sobre o CDS e a derrota de Belmiro...

...manifestou-se nas ruas de Lisboa um pequeno bando de privilegiados.

Sexo & Prozac

Manuel da Silva Ramos, hoje, no ípsilon, referiu-se aos prazeres da vida com uma abertura muito pouco usual entre os portugueses. Fala-se de sexo de uma maneira ou muito cerimoniosa, ou entre risos, mas raramente como um acto de que se desfrute: tem de ser com a pessoa certa; tem de ser no momento oportuno; tem de ser num sítio adequado e, claro, o inevitável, tem de haver amor... Naturalmente, todas estas condições pesam, ainda mais, no universo feminino, que o autor «acusa» de só querer casar, pelo menos no caso português.
Esta falta de capacidade portuguesa para desfrutar e para ser festivo, também apareceu, ontem, em rodapé do telejornal: os portuguese choram, em média, 2 a 3 vezes por semana! E sempre que se mencionam estatísticas de uso de anti-depressivos, os números no país são impressionantes!
Cada vez mais pessoas dizem ficar angustiadas com o Carnaval, deprimidas no Natal, arrasadas nos aniversários. Não se comemora festivamente, com excepção para o 1º de Maio, datas como o 5 de Outubro, o 25 de Abril, ou, até mesmo, o 10 de Junho; nesses dias não há farturas ou bifanas, apenas discursos, paradas e distribuição de «caricas» pelo Presidente da República.
Os portugueses encerram esta mistura desanimadora de serem macambúzios e, ao mesmo tempo, pouco sérios, o que os arrasta para este pântano de choraminguice, depressão e falta de sexo.
Por tudo isto, e porque estamos mesmo à beira de mais um fim de semana, aqui deixo o conselho do autor: «Comer, foder e beber».
Imagem: Instalação de Tracey Emin, My Bed, obra nomeada para o Turner Prize de 1999.




Libido sciendi


"Por isso as tuas aulas vão estar cheias de homens. Se são o tipo de homens com quem gostarias de te encontrar, isso já não é tão certo: as experiências realizadas levaram à conclusão de que os estudantes de Economia são muito mais conformes com o comportamento do homem económico racional do que os estudantes de outras áreas. Alguns economistas ofereceram explicações baseadas nas teorias evolucionistas para justificar o uso desta criatura como elemento central desses modelos - eles defendem que o homem económico racional predomina porque ele é capaz de triunfar na luta pela sobrevivência, devido à sua superior capacidade de adaptação. Vais ter a tua própria oportunidade para participar na selecção natural mas o homem económico racional não reconhece o afecto e suspeito que não seja muito divertido viver com um deles. Uma das piadas mais perspicazes sobre economistas é que um economista é alguém que conhece sessenta e nove maneiras de fazer amor, mas não conhece uma única mulher".

John Kay, Como A Economia Ilumina o Mundo (Lisboa, Presença, 2007, original de 2004), em carta 'virtual' a uma sobrinha que o interroga sobre se é boa ideia seguir Economia (p.172-173)

Carreira docente universitária à procura do Aladino



Muito se tem falado, aqui, e por toda a comunicação social de professores do Ensino Secundário. Pouco se tem falado de professores do Ensino Superior. Estive a ver no Estatuto da Carreira Docente Universitária (mais conhecido por ECDU) em vigor que quem assina um contrato como assistente convidado, o mesmo é de um ano, renovável por 3, e assim por diante, ou seja, de novo renovável por 3. Depois do Doutoramento, se ainda estiver em vigor a mesma legislação, é possível uma contratação, mas como Professor Auxiliar. Sabemos que isto é practicamente impossível. Os professores convidados, ou são "convidados" a sair e a esperar eternamente outro convite, ou a serem professores convidados toda a vida ( a 20, 30, 40, e, se for afortunado, a 50, 60, 70, 80, 90 ou 100%). Se, por acaso, algum professor do ensino superior tiver a sorte de ter uma lâmpada fundida, e ao colocar a nova, lhe aparecer o Aladino, então poderá, talvez, vir a ser contratado sem ser como convidado, isto é, dentro da carreira. Uma vez Professor Auxiliar, de acordo com a legislação em vigor, tem de ser avaliado mediante um Relatório que tem de fazer ao fim de cinco anos para ser votada a nomeação definitiva. Claro que o Relatório, acompanhado por 2 exemplares de cada peça curricular, tem de ser entregue cerca de 3 meses antes da data dos 5 anos. Tal significa que, após o doutoramento, os docentes universitários de carreira se têm de esfalfar a produzir currículo para, ao fim de 5 anos, conseguirem a nomeação definitiva. Entretanto, as pessoas são assoberbadas com tarefas de carácter administrativo e pedagógico e têm mesmo de produzir currículo para não perderem o emprego ao fim de 5 anos. Na impossibilidade de escrever um livro, escreve-se artigos e tenta-se publicá-los, sem ver um tostão (ou um cêntimo, nos tempos que correm). No caso de perderem o emprego, ficam até com um *bónus suplementar*: não têm direito ao subsídio de desemprego, o que é uma grande maçada, pois se se fundir outra lâmpada, como é que um professor do Ensino Superior vai conseguir ir até ao IKEA?
Imagem do filme da Disney Alladin.

O oportunismo sem limites

O PSD vai apresentar hoje no Parlamento uma proposta que acaba com o princípio de progressão na carreira docente por métodos administrativos e que pretende acabar com a distinção das categorias entre professor e professor titular. Para Pedro Duarte, vice-presidente da bancada do PSD, a iniciativa "é um sinal para poder pacificar e dar outras motivações aos professores". A criação destes dois níveis foi proposta pela actual ministra da Educação, e foi um dos aspectos do novo Estatuto da Carreira Docente, aprovado no início do ano, e que causou polémica junto de sindicatos e professores.

in Público de hoje, p.12

No suprises

No editorial do "P" de hoje, José Manuel Fernandes já abriu o livro dos grandes elogios a John McCain, o mais recente candidato do lado republicano às eleições americanas...

E a próxima reencarnação é?

CDS-Partido Liberal

A pergunta que se segue

Cartoon de GoRRo.

Sem necessidade nenhuma



Uma coisa de que realmente gosto na memória que fica do Bento é o lado um pouco rasteiroso que se pode ver no filme aqui em cima, em que ele faz um penalti, como diz o comentador várias vezes, "sem necessidade nenhuma" ao irlandês do Porto, o Walsh. Fez outros assim, deu frangos, queixou-se da falta de fruta e das iluminação do estádio quando levou grandes goleadas, etc. Mas, se existiu uma mística benfiquista de que hoje se pode ser nostálgico, o Bento foi, sem necessidade nenhuma, um dos seus maiores sacerdotes. Foi, além de um grande guarda redes, um dos líderes de um bando de malandros que arrumava porcaria mas era um grupo e transmitia a memória do clube dentro do campo, das vitórias e das derrotas.

O Bento foi o guarda-redes do Benfica e da selecção durante os anos em que eu ia ver futebol ao estádio. Era no tempo em que o futebol, apesar de já haver alguns jogos em directo na TV, ainda se jogava muito aos domingos à tarde. E, para se ter a emoção do directo, era preciso ir ao estádio ou ouvir na rádio. Ouvia-se assim na rádio "grande defesa de Bento" e já se podia imaginar o resto porque a "grande defesa de Bento" era uma imagem que estava lá bem gravada nas nossas sinapses, fossem elas ou não encarnadas.

Corram a comprar A Bola de hoje, que eu não posso! Tem lá depoimentos sinceros e comoventes, como o do Delgado, que foi suplente do Bento e um dos seus maiores admiradores.

Corram a comprar o JL!

O Jornal de Letras com data de anteontem, 28 de Fevereiro, tem um pequeno ensaio autobiográfico do historiador António Manuel Hespanha, por ocasião do 62° aniversário deste. Corram a comprar. Nele, Hespanha — que desconfia de autobiografias por achar que são sempre uma tentativa para dar sentido a algo, a nossa vida, que não tem necessariamente grande coerência — fala da influência da sua família nos caminhos da sua formação. E fala, sobretudo, de algo que tem marcado sempre o seu percurso, um caminho verdadeiramente indisciplinar entre a história e o direito.

António Hespanha é, na minha opinião, um dos dois maiores historiadores portugueses em actividade (o outro é José Mattoso). É, também, dos poucos historiadores portugueses que tem realmente uma influência, em traduções, leituras e comentários, em círculos universitários internacionais extremamente importantes (estou a pensar no Brasil, Espanha, Itália, Alemanha). Isto acontece porque a sua obra, que veicula uma visão global — e nem por isso menos apoiada numa análise detalhada e fina das fontes — da história do direito, das instituições e do poder durante o Antigo Regime (séc. XVI a XVIII-XIX), é um continente em termos intelectuais. Um continente quer dizer: a entrada na obra de Hespanha é a entrada numa maneira de pensar o passado que nos muda definitivamente o olhar sobre ele. Não sei se há muita gente, no domínio intelectual, de quem se possa dizer isto.

O mais recente trabalho de fôlego de António Hespanha é Guiando a Mão Invisível (Almedina, 2004), um estudo sobre a relação entre a ordem constitucional do liberalismo monárquico e o papel regulador do Estado. Hespanha tem também um site pessoal na web com informação sobre o seu trabalho e textos online, que encontram aqui.

(publicado originalmente no 5 dias, pela mão amiga do Ivan Nunes.)

Os efeitos do Campeonato do Mundo fazem-se sentir nove meses depois


In Memoriam Bento

Dave Matthews Band - Gravedigger

quinta-feira, 1 de março de 2007

ARCADE FIRE (LIVE 2007)

E novamente, brindam-nos com a sua presença (3 de Julho)...

Na baliza eu era o maior

Quando era puto, naqueles tempos quase imemoriais em que as crianças passavam horas na rua a correr atrás de uma bola, a minha posição predilecta era a de quarda-redes. Contávamos três passos, de uma pedra a outra, e estava a baliza montada pronta para o desafio. Joguei muitas vezes contra o Sporting. Na baliza oposta jogava o Damas e eu, claro, só podia ser o Bento. Durante todo tempo que durava a partida (umas vezes eram apenas breves minutos, noutras jogávamos até anoitecer) encarnava a figura do guarda-redes do Benfica. Imitava-lhe os voos felinos e tentava moldar-me ao seu estilo elegante. Empenhava-me de tal modo neste exercício performativo que, em alguns casos, perdia o fio ao jogo e acabava por deixar entrar um golo.
Tive a sorte de assistir, não no peão mas na bancada de sócios (felizardo!), a alguns jogos da equipa maravilha dos anos 80: Humberto Coelho, Chalana, Nené, Pietra, Shéu, os irmãos Bastos, Carlos Manuel… Lembro-me particularmente de dois jogos, a final da Taça UEFA com o Anderlecht que infelizmente perdemos, e um jogo contra o Sporting num ano (para aí entre 1981 e 1983) em que o Benfica ganhou o campeonato (velhos tempos!). Neste jogo recordo-me de um penalty que foi marcado contra a nossa equipa. O marcador de serviço era o Jordão, um excelente ponta-de-lança que raramente falhava. Mas naquele jogo o Bento conseguiu defender, a ovação foi estrondosa. O grandioso Estádio da Luz dobrou-se aos seus pés (ou melhor, às suas mãos de ouro). Nesse dia decidi que iria ser guarda-redes do Benfica. Ainda não perdi a esperança. Até sempre BENTO!

Bento, o peão da Luz nunca te esquecerá

Morreu o ex-guarda-redes do Benfica Manuel Bento.






DJ Peão: Sufjan Stevens



O tema "Chicago" do álbum "Illinoise" (2005)

E o défice da Segurança Social a subir

"O amor (para os Portugueses) devia ser reembolsado pela segurança social como os medicamentos mais prementes".

A frase é de Manuel da Silva Ramos, cujo "Sol da Meia Noite" foi lançado ontem na ZDB.

Crónicas nocturnas

Cartoon de GoRRo.

Liedson resolve

Por causa deste post do André Belo, tenho andado um bocado confuso sobre o marcador a atribuir aos posts que venha a escrever acerca da performance do Benfica na corrente edição da taça de Portugal.