segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Da ética republicana

Hoje, na sua alocução em Belém sobre as comemorações do 5 de Outubro, Cavaco Silva encheu a boca com a «ética republicana». A retórica não bateu certo com o exemplo. Porque o exemplo ético dos republicanos consiste em colocar o respeito pelas instituições acima das tricas pessoais e políticas. Cavaco Silva afirmou que não falava nos Paços do Concelho, como é tradicional, para não «influenciar as eleições autárquicas». Como se António Costa, que ficaria a seu lado, representasse um partido e não a cidade. Como se Paula Teixeira Cruz, que discursou, representasse um partido e não a assembleia municipal. A recusa é particularmente absurda uma semana depois de Cavaco Silva ter feito uma declaração ao país que abalou a «cooperação institucional» entre Presidente e Governo, aumentou as tentativas de violação do sistema informático do Governo, como se pode ver aqui, e turvou a imagem externa da política portuguesa, como se pode conferir lendo aqui a notícia no Folha de São Paulo, o jornal de língua portuguesa mais lido.
Eu, que não costumo ligar às comemorações do 5 de Outubro e que achei uma palhaçada o roubo da bandeira republicana dos Paços do Concelho, em Agosto passado, tive hoje o meu momento de tentação monárquica. Não seria melhor ter um Rei ou uma Rainha que cumprisse o seu papel de sorrir e acenar em vez de um Presidente da República que se comporta como um misto de princesa caprichosa e de velha pitonisa? A tentação foi breve. Quando um monarca não está à altura do cargo temos de esperar pelo sucessor ou pelo regresso de D. Sebastião. Quando o mesmo se passa com um Presidente basta esperar pelas próximas eleições presidenciais ou, na pior das hipóteses, pelo fim do segundo mandato.