terça-feira, 9 de junho de 2009

A extrema-direita no PE

el-nazismo Quem diria, hein? Pare-me que extrema-direita volta a assombrar. A Europa deste milênio não pode mais voltar ao seu passado recente. Quando se imaginava que a criação de um continente unido significaria a consolidação da rejeição total a valores como racismo e xenofobia, o que se viu nestas Europeias foi o avanço de muitos partidos ultranacionalistas e xenófobos, com expressivos resultados eleitorais.

Claro que este fenômeno não indica ainda uma iminente chegada ao poder de um nazi-fascista. Mas os atuais resultados sinalizam que algo está errado na UE, principalmente na Holanda, Itália e em outros países de menor peso político. E atribuir simplesmente este efeito ao "voto de protesto", como dizem muitos, é tão perigoso quanto as ações extremistas desses partidos, que têm como único objetivo abalar a já consolidada democracia europeia.

Apesar de números desencontrados entre várias fontes de informação (creio pela diferença entre dados parciais e oficiais), não deixa de ser assustador os representantes da extrema-direita eleitos para o Parlamento Europeu. Dos 736 eurodeputados, 34 são defensores ferrenhos da xenofobia, do anti-islamismo, do anti-judaísmo, da homofobia. Enfim, são contrários a tudo que signifique liberdade individual. Foram eleitos por 13 países e têm no ultra-nacionalismo e na intolerância suas únicas demandas de Políticas de Estado.

Tudo começou na quinta-feira quando o PVV (Partido pela Liberdade), do polêmico Geert Wilders, se tornou a segunda força política da Holanda (com 25 representantes), ao obter 17 por centos dos votos e eleger 4 deputados. Esta é a situação não demais países:

Na Itália (com 72 representantes), os neonazistas da Liga Norte (pertencente à coligação partidária de Berlusconi) se consolidaram no cenário político ao eleger 8 deputados (o dobro de 2004), com 9,5% dos votos.

Na França (72), a Frente Nacional, de Le Pen, apesar de ter perdido espaço (elegeu 7 deputados em 2004), conseguiu sobreviver e manter 3 deles em Estrasburgo.

No Reino Unido (72), o Partido Nacional Britânico conquistou o seu primeiro assento no Parlamento Europeu, após uma votação que chegou perto dos 8%.

Na Áustria (17), o Partido da Liberdade, liderado por Andreas Moltzer, foi o quarto mais votado no país com quase 14%. Fez 2 deputados.

Na Hungria (22), o partido nacionalista e populista elegeu 3 deputados. O Jobbik (Para uma Melhor Hungria) conquistou 14,77% e o terceiro lugar.

Na Grécia (22), o LAOS (Aliança Popular Ortodoxa), do líder Georgios Karatzaferis, é a primeira formação de extrema-direta a chegar ao Parlamento Grego, desde 1974. Na sua retórica nacionalista, Georgios destaca a Albânia, Macedônia, Turquia e a imigração como “inimigos” do povo grego. Fez 2 deputados com 7% dos votos.

Na Bélgica (22), o Vlaams Beleng (Interesse Flamengo), que é claramente separatista e luta pela independência da Flandes, chegou a 6% e se garantiu com 2 deputados (contra os 3 eleitos em 2004).

Na Romênia (33), os ultranacionalistas liderados por Vadim Tudor, do Partido da Grande Romênia, obtiveram 7,2% dos votos e elegeram 2.

Na Dinamarca (13), o DF (Partido Popular) chegou aos 13,5% com 2 deputados.

Destaco ainda o avanço da extrema-direita na Finlândia (13). A formação partidária nacionalista True Finns (Verdadeiros Finlandeses) avançou de 0,5%, em 2004, para perto dos 10% dos votos e 1 eurodeputado. O ATAKA (algo como União Nacional Ataque), partido ultranacionalista da Bulgária (17) manteve os seus 2 deputados com os 12% de votos. Na Eslováquia (13), o SNS (Partido Nacionalista Eslovaco), que defende a expulsão de todos os ciganos do país, também elegeu 1 deputado.

Fontes: Agencias de notícias (AFP, AP e BBC) e Euronews.

3 comments:

Daniel Melo disse...

Um cenário triste e que bem delimitas, Manolo. A mistura entre xenofobia e populismo está a produzir efeitos.
Infelizmente, a UE tem alguma culpa no cartório, com os incidentes em torno do Tratado Europeu, as resistências em abrir-se à participação dos cidadãos e a resposta desarticulada e tíbia à crise económico-social.
Mas é também verdade que, em certos períodos de crise no passado, a pulsão isolacionista emergiu na Europa, como p.e., nos anos 1930. E com bem funestas consequências para todos.

jrd disse...

Afinal acabei por voltar ao rescaldo eleitoral, mas apenas para sublinhar quanto de inquietante tem o cenário aqui referenciado.
Parece que a Europa se esqueceu da realidade sinistra que viveu há cerca de 70/80 anos.
As palavrsa de Brecht sobre o ventre fascista,continuam actuais e são necessários textos como este para que a memória permaneça vigilante.

Manolo Piriz disse...

Tens razão, Daniel.

Enquanto a UE não se abrir totalmente à participação popular não há Tratado capaz de fortalecê-la e uni-la verdadeiramente. Não adianta querer jogar goela abaixo dos europeus um emaranhado de ditames sem que haja um consenso popular sobre o que realmente desejam os cidadãos europeus. A organização UE precisa de muito mais democracia, pois o Parlamento Europeu é o único organismo eleito diretamente, mas que pouco apita. As principais decisões são tomadas de fato em Bruxelas.

Boa parte da esquerda democrática também tem culpa no cartório. Está perdida e impotente para capitalizar pra si o eleitorado descontente politicamente. Só a retórica por liberdades individuais não basta em tempos de turbulência. Vive um vazio em termos de propostas alternativas sem precedentes em sua história. Na verdade, não deixa de ser conivente com o atual modelo econômico, o que a aproxima muito do que propõe os partidos de centro-direita, que ao avançar deixam um campo fértil para o florescimento da extrema-direita.

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Parece-me, jrd, que Brecht escreveu tais palavras (“o ventres donde isto saiu ainda é fecundo”) por baixo de uma fotografia de Hitler.O homem sabia o que dizia. Boa lembrança.