quarta-feira, 23 de setembro de 2009

As pífias de Cavaco II - ou o "affaire Clearstream" resumido para aprendizes na arte da manipulação

Enquanto em Portugal o "misterioso caso das escutas a Belém que afinal só existiam na cabeça do presidente e seus lacaios" está no auge, em França o "affaire Clearstream" chega à barra dos tribunais. Os dois casos têm em comum a tentativa de manipulação com objectivos políticos e o provável rebentamento da bomba nas mãos de quem a tentava armadilhar (demonstrando que, contrariamente à crença popular, o crime não compensa). No resto os dois casos são até bastante diferentes, e o contraste que mais salta à vista é o gritante amadorismo, para não dizer infantilidade (oops, já disse...) da troupe de Cavaco.
O "affaire Clearstream" (pode ler-se aqui um recapitular mais completo), sendo complexo, pode resumir-se assim: 1) um jornalista tinha uma lista autêntica de detentores de contas bancárias secretas na sociedade financeira Clearstream, sediada no Luxemburgo, contas essas que serviam para receber dinheiro sujo (corrupção, branqueamento, etc...) 2) um técnico informático de passado duvidoso, obtém essa lista em 2003, e acrescentou-lhe nomes de pessoas que não tinham nada que ver com o caso, entre os quais o de Nicolas Sarkozy, à época ministro das finanças e pretendente a sucessor do então presidente Jacques Chirac, contra a vontade deste 3) para servir de cobertura o informático duvidoso é contratado por uma empresa de aeronáutica a pedido de um general dos serviços de informação (equivalente do SIS) com ligações a Villepin, e em 2004, o chefe do informático duvidoso envia anonimamente a lista adulterada das contas bancárias a um juiz de instrução, numa tentativa de incriminar Sarkozy 4) o dito Juíz apercebe-se rapidamente que há uma tentativa de manipulação, e trata de investigar não a denuncia mas os denunciantes 5) Sarkozy cedo informado da tramóia, deixa a coisa correr apostando (e com razão) que a coisa lhe vai ser favorável 6) os indícios recolhidos pela investigação do juiz de instrução sugerem que Dominique de Villepin, então ministro dos negócios estrangeiros, mais tarde primeiro-ministro, e fiel delfim de Jacques Chirac, como tendo tido conhecimento da manipulação e não a ter impedido, ou de tê-la mesmo encorajado. O julgamento que agora começa visa determinar se houve denúncia caluniosa, e Villepin está no banco dos réus. Sarkozy, entretanto decidiu envolver-se no processo e constituiu-se como parte civil. Um testemunho do processo terá alegado que Jacques Chirac estaria ao corrente da situação, mas não há quaisquer indícios disso, e não vai sequer a julgamento. Ora aqui temos o primeiro contraste: Villepin (e talvez mesmo Chirac, nunca o saberemos....) manipula - presumivelmente - sem deixar provas, passando por entrepostas pessoas que falsificam documentos e fazem denúncias anónimas, Fernando Lima vai tomar um café num lugar público com um jornalista, leva um dossier sobre um assessor do primeiro-ministro, e até hoje ainda ninguém desmentiu que Cavaco tivesse conhecimento de tudo como referem as mensagens trocadas entre jornalistas do Público. Nem que fosse pela falta de sofisticação, Cavaco e toda a casa civil deviam ser destituídos imediatamente das suas funções. Se é para manipular, que manipulem com estilo.
Outra diferença notória é na atitude de quem é apanhado com a boca na botija. O Villepin vocifera que é uma cabala contra ele, dirigida por Sarkozy, que não só está inocente, como é ele próprio a vítima da manipulação - e há que reconhecer consegue ser um nadinha convincente na sua indignação. E o que diz Cavaco? Nada (-pausa para riso-), não diz nada, mas demite o homem da sua confiança como quem não quer a coisa. Mas se não quer a coisa, demite o assessor? Isto faz alguma sentido? Assume a sua culpa pelos actos, e não diz uma palavra para se justificar. Nem que seja pela incapacidade de elaborar um raciocínio lógico, Cavaco deveria cessar funções imediatamente.
Outra diferença curiosa: o caso "Clearstream" veio a público em 2005 graças a um trabalho de investigação jornalística notável do Le Monde, as escutas de Belém vieram a público graças a uma imbecilidade do jornal Público (repararam como eles hoje tentam fazer pressão sobre Cavaco para disfarçar?, como se não fosse nada com eles).
Reparem bem que no caso "Clearstream" todos tentam manipular, e ficamos sem saber quem na realidade manipulou o quê, no caso das escutas de Belém não houve sequer manipulação por manifesta incompetência de quem tentou manipular.
Nisto apenas Sócrates parece estar a seguir o exemplo de Sarkozy, por enquanto não diz nada, mais tarde se verá. Uma máxima alegadamente napoleónica diz "não interrompas o teu adversário quando ele estiver a cometer um erro".

Adenda - Lembrei-me de mais um contraste entre estes dois casos: comparado com escutas ao presidente ordenadas pelo primeiro-ministro uma lista falsa de contas bancárias no Luxemburgo é pevides, ainda assim o "affaire Clearstream" está a abalar seriamente o sistema político em França, já as escutas fantasma de Belém parecem ser apenas mais um caso do momento, até ver...