sexta-feira, 27 de março de 2009

Ofensas às religiões serão consideradas crimes contra a humanidade

imagem O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas aprovou ontem uma Resolução que condena a difamação religiosa e passa a considerar o ato como uma violação aos direitos humanos. O documento também pede que governos adotem leis protegendo as religiões de ataques. A Europa votou contra a Resolução, alegando que a medida poderia abrir espaço para censura, ferindo a liberdade de expressão e de imprensa. A diplomacia brasileira tem a mesma visão dos europeus e se absteve justificando que “não são religiões que devem ser protegidas, mas indivíduos”. O que eu concordo plenamente. Aliás, essa tal Resolução deveria valer também para o Vaticano, pois não?

8 comments:

Daniel Melo disse...

Esse Conselho de Direitos Humanos arranjou-a bonita.
Será que os promotores dessa proposta peregrina chegaram a pensar nas consequências que a sua aprovação poderá ter na legitimação de punições e represálias em países fundamentalistas e na liberdade de expressão no mundo?
Como é possível um órgão desses não ponderar direitos básicos inalienáveis?
É que a liberdade religiosa não é penalizada por se dizer mal da religião, mas uma interpretação maximalista do que é «difamação religiosa» será sempre atentar contra a liberdade de expressão.
Faria mais sentido defender a liberdade de culto e os espaços e património desse culto.

Manolo Piriz disse...

Yesss, Daniel!

Concordo contigo em número, gênero e grau. Como dizem, mataste a cobra e mostrate o pau.

Sofia Rodrigues disse...

A riqueza das religiões vai para além do património construído ou da liberdade de culto e, por isso, é importante defender a sua essência, quer a um nível ritual, quer ao nível das propostas de cada uma. E é verdade que as religiões têm sido muito maltratadas, internamente por fanatismos e externamente por «pragmatismos» que tentam retirar uma dimensão espiritual ao Homem. E se essa medida for tomada num verdadeiro sentido de devolver algum crédito às religiões em nada pode colidir com a liberdade de expressão ou de imprensa. Numa sociedade verdadeiramente consciente a religião deverá ser tão defendida como o ateísmo.

Manolo Piriz disse...

Sofia, de boas intenções o inferno está cheio. Não acredito que tal medida tem como objetivo devolver algum crédito às religiões. Ela só fortalece as teocracias e não deixa de ser uma mordaça à crítica desse tipo de pensamento político. Pior: ela abre uma perigosa brecha pra que religiões se ataquem mutuamente. Aliás, o sr papa Bento 16 já fez isso algumas vezes. Claro que todos têm de ter a sua liberdade de culto e essa liberdade deverá ser preservada e defendida pelo Estado democrático, pois democracia pressupõe também esse direito. O que não pode de forma alguma acontecer é que se confundam as coisas: a oposição a determinadas posições públicas dos religiosos com um ataque à liturgia religiosa. Não creio que se opor à ditadura teocrática dos aiatolás iranianos ou ao pensamento anacrônico do Vaticano seja uma ofensa ao islamismo ou ao catolicismo. E é exatamente isso que se pretende com a tal Resolução.

Sofia Rodrigues disse...

Ai Manolo, mas é que a religião é mesmo a minha corda sensível... O catolicismo não são as declarações do Papa, nem o islamismo a teocracia dos aiatolas, assim como o judaísmo não é o enfurecido Estado de Israel, nem o hinduísmo a divisão da sociedade em castas, ou o budismo uma questão política. Acho que a resolução nem quer defender tal coisa, mas olhar para as religiões como uma herança profunda da Humanidade.

Manolo Piriz disse...

Sofia, concordo contigo plenamente quando dizes que as religiões são uma espécie de herança profunda da Humanidade. Mas não estou certo de que a tal Resolução tenha por princípio defender esse pressuposto, mesmo porque a liberdade de culto já faz parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política...” Ela foi na verdade uma decisão política, onde não se fez a separação de Estado e Igreja. E, principalmente, onde a instituição religiosa fica acima do indivíduo. E este foi o seu maior erro e contradição.

Apesar das minhas críticas mais ácidas ao sr papa (e elas só foram dirigidas a ele), reconheço e respeito também a importância de um mundo espiritual no cotidiano de muitos, principalmente quanto ao comportamento ético, a fraternidade e a comunhão entre as pessoas. Nada contra. Entretanto, oponho-me ferrenhamente quando as religiões procuram sintetizar o ser humano numa visão de mundo que não corresponde à realidade, levando-o à alienação política e ao desrespeito às descobertas científicas. Bem, acho que entre mortos e feridos, salvara-se todos.

Sofia Rodrigues disse...

Uma santa quaresma, Manolo ;-)

Manolo Piriz disse...

Pra ti também, Sofia.

Ah, já estou até bem municiado pro Domingo de Páscoa. Pra não deixar de última hora e pagar os olhos da cara, já comprei o santo bacalhau há mais de um mês. Vou prepará-lo na brasa, acompanhado por brócolis “puxado” no azeite e alho (muito), batatas (médias) inteiras pré-cozidas na água do dessalgo e depois fritas (com cebolas grandes cortadas ao meio) até que formem uma casquinha bem crocante. Pra dar um ar tupiniquim à coisa farei também um pirão (tipo de papa da farinha de mandioca feita geralmente com caldo temperado provindo do cozimento de legumes ou carnes (peixe, ave ou animais de carne vermelha). Morda-se de inveja;)