terça-feira, 24 de julho de 2007

Os meus votos de época nova

A propósito da nova época futebolística que vai começar. O que eu gostaria mesmo - eu sei que sou optimista, e que estou a pedir demasiado - era esta época não ouvir aquela conversa "A nossa equipa jogou melhor, merecia ganhar". Esta frase é uma contradição nos termos, se o objectivo é marcar mais golos do que o adversário, a equipa que marca mais golos é a que joga melhor, é a que merecer ganhar, e é a que ganha efectivamente. Coroloário: A menos que factores estranhos ao futebol intervenham no resultado a equipa que ganha é a que merecer ganhar e vice-versa (Nota: entendem-se por factores estranhos ao futebol, extra-terrestres que consigam telecomandar a bola, fenómenos paranormais não explicados pela ciência como o ocorrido na final do Euro 2004, ou a circunstância do árbitro ter passado a noite da véspera num bar de alterne em Rio Tinto). O objectivo do futebol não ter mais posse de bola do que o adversário, ter mais posse de bola não é razão suficiente para merecer ganhar. O objectivo do futebol também não é ter mais ocasiões de golo do que o adversário, é concretizá-las. Uma equipa que tem oportunidades de golo do que o avresário e que não marca é uma equipa que falha golos, logo merece perder. O objectivo do futebol não é pressionar mais, nem ser mais rápido, nem atacar mais, nem fazer mais remates, nem mais centros, nem ter mais cantos a seu favor. O objoctivo é marcar mais golos, e uma equipa que faz tudo o que mencionei acima e não ganha o jogo é uma equipa de jogadores que erraram na vocação, logo merece perder.
O objectivo também não é jogar mais bonito do que o adversário (e vale a pena demorar-me um pouco mais neste aspecto). Se fosse então devia abolir-se as balizas, e criar um júri como na Ginástica Ritmica Desportiva que atribui pontos às equipas no fim do jogo. Aliás essa patranha do "futebol-espectáculo" é apenas uma bela desculpa para transformar cepos em fenómenos mediáticos (e.g. Beckam) e vender o futebol - ex-desporto do povo - às grandes multinacionais (e.g. Nike, Adidas, Coca-Cola, FIFA, etc...). O futebol é um espéctaculo por um simples processo de tentativa e erro. Há milhares de desportos diferentes, praticados de todas as maneiras e feitios. Sucede que um desporto jogado onze contra onze com uma bola de pouco mais de um quilo num terreno relvado de aproximadamente um hectar em que o objectivo é introduzir a bola na baliza do adversário não podendo tocar a bola com os membros superiores é intrinsecamente mais espectacular, mais belo, do que por exemplo um desporto praticado sobre o gelo em que um jogador desliza na pista enquanto lança um calhau polido vagarosamente e dois empregados da limpeza esfregam freneticamente o piso. E dá-se ainda a feliz circunstância de muito frequentemente as equipas que jogam bonito ou espectacular são as equipas que merecem ganhar (e que ganham efectivamente, o que como já expliquei é o mesmo). Isto não impõe às equipas qualquer dever moral ou ético de submeter à componente estética a alma competitiva inerente a qualquer desporto. O jogar bonito não é uma obrigação é apenas um sub-produto de uma circunstância feliz que torna o futebol um desporto superior aos demais.
Por exemplo, veja-se o Liverpool que perdeu a final da Liga dos Campeões este ano. O Liverpool não estava na final para ganhar, estava lá para sair de cabeça erguida. Estava lá para correr, para se esgadanhar, para lutar até à última gota de sangue, e no fim poder dizer que estiveram quase. Não por acaso só marcaram um golo quando o jogo esta já perdido, mas sempre lhes permitiu continuar a lutar até ao fim. Perderam e mereceram perder. Aliás a re-edição da final de 2005 foi uma invitabilidade cósmica, para repôr a verdade desportiva. O Liverpool mereceu ganhar em 2005, mas por engano, marcaram o terceiro golo porque se tinham esquecido que já tinham marcado dois antes. Este ano repôs-se apenas a ordem natural das coisas e ganhou a única equipa que entrou em campo para ganhar, o Milan AC.
Outro exemplo, a equipa do Brazil de 1982, supostamente a melhor equipa que nunca ganhou o campeonato do mundo. Na realidade é, não melhor, mas sim a que jogou mais bonito sem conseguir ganhar o campeonato do mundo (título já de si duvidoso), e não merecia ganhar. A sua derrota não foi um cumprimento de desígnio superior que apenas demonstra a supremacia olímpica da estética sobre sobre a mundana vitória, como se uma e outra fossem incompativeis (veja-se o Brasil de 1970). A derrota de 82 foi apenas a punição merecida a quem narcisisticamente se deslumbrou com a sua própria beleza e pensou que a beleza em si, e não a vitória, era o objectivo último.

3 comments:

gr disse...

tanta conversa. o que queremos é que ganhe o Belém, e bem

josé manuel faria disse...

Somos 2, Belenenses sempre!

Zèd disse...

Eh là, o meu Belenensismo é assim tão pùblico e notório?
Que o Belenenses jogue tão bem ou melhor do que a época passada. G'anda Jesus!