domingo, 18 de março de 2007

E agora uma coisa que realmente me chateia a mim também


Nos jornais franceses e até estrangeiros tomou-se o hábito de falar de Sarko e de Ségo (aos quais veio juntar-se Bayrou). Ora, isso é profundamente injusto. Dum lado, os senhores têm direito ao nome de família, enquanto a senhora, a tal que quer se presidente, fica com o diminitivo do seu nomezinho. E porque não Nico, Ségo (e François, ou para os amantes de poesia Francisco ou Paco) ? Isso não é mais um exemplo – cuidado aqui vai sair um palavrão – da dominação masculina, mesmo desenvolvida duma forma inconsciente?
Para uma análise desse fenómeno, pode se ler o artigo no Le Monde de mais um sociólogo francês, François de Singly.

sábado, 17 de março de 2007

E agora uma coisa que realmente me chateia

Reduzido à net, gosto muito de saber que o Sporting ganhou ao Porto. Mas, agora que os cronistas desportivos têm a mania que são escritores e subordinam os textos a metáforas e a teses,

(um exemplo:

"Alguém ficou surpreendido com o golo de Tello? Com a flecha venenosa que partiu da besta disparada por «Guilherme» Tello? Ao minuto 71, o Sporting regressou de corpo e alma, com propriedade, à disputa do ceptro nacional. Porque teve atitude. Porque teve classe. Porque resistiu à pressão dos grandes momentos e superou-se continuamente, frente ao um F.C. Porto progressivamente ofensivo mas nada acutilante. Enfim, tudo se resume à transcendência do espírito de sobrevivência")

talvez ganhe a literatura. Mas quando se lê a crónica do jogo não se percebe patavina do que aconteceu dentro do campo.

Falta um certo arrojo ao Arroja

Sem querer entrar em polémica com o Victor, eu acho que as teses do Arroja sobre as razões do crescimento económico do Estado Novo até são pouco arrojadas. É que não basta dizer que havia uma "grande abertura da economia [do regime] ao exterior" (ponto 9 do decálogo). É preciso acrescentar a gestão liberal que o regime sempre fez dos mercados com que estabeleceu, digamos assim, relações comerciais privilegiadas, como era o caso de Angola ou Moçambique. É que, se não se acrescenta isto, a natureza da abertura da economia do regime de que Arroja fala fica completamente sem se perceber .

Noto a mesma falta de rigor no ponto 5. A expressão "padrões muito elevados no sistema de educação", se lida apressadamente por um leitor mais maldoso, pode fazer pensar que o autor se estava a referir aos padrões elevados de analfabetismo da população em geral. E não está: como todos sabemos, ele estava só a pensar nas boas famílias.

No mesmo ponto, é incompreensível a ausência de uma referência à política de mobilidade e internacionalização dos professores portugueses promovida pelo regime. Quantos foram os professores dos liceus e das universidades que foram, então, gentilmente convidados a combater o seu imobilismo provinciano e a sair para o estrangeiro? Se não se diz isto, o argumento de Arroja, que é bom e é subtil, resulta incompleto.

Por fim, parece-me que falta ao decálogo um 11° ponto fundamental (mas deixaria de ser um decálogo se Arroja o incluísse, pelo que aqui tem desculpa a falta de arrojo): então e a prudente política de informação desenvolvida pelo regime de Salazar? Uma política que como é sabido, foi marcada por uma tal determinação em servir o interesse nacional que, e apenas quando tal se revelava estritamente necessário, chegava ao ponto de silenciar as vozes da imprensa e da oposição? O senhor Arroja talvez respondesse a isto que a política de informação do Estado Novo nada tem a ver com o seu crescimento económico. Talvez. Mas aqui deveria entrar um argumento contra-factual: imagine-se o Estado Novo sem a política de informação coerente que adoptou (eu sei que é difícil, mas tente-se, em benefício do argumento). Haveria o perigo de as sábias políticas económicas do regime serem discutidas democraticamente, o que, possivelmente (mas eu de economia não percebo nada), seria prejudicial ao crescimento económico. Mais grave ainda seriam os efeitos sobre a memória do regime salazarista: o professor Arroja, por exemplo, que aparentemente só guardou a visão do regime que vem nos manuais de leitura da Terceira Classe, talvez ficasse a saber um pouco mais sobre o assunto.

A eficiência da ineficiência


Esse post da Cláudia relembrou-me um debate que há nesse blogue. Um estranho liberal (porque escrever num blogue liberal e repetir a propaganda do SNI parece-me paradoxal…mas aqui não é o problema e os defensores do dogma liberal já restabeleceram a ordem) iniciou uma série de posts sobre os presumidos sucessos económicos do Estado Novo. Nem vale a pena repetir o que outros já escreveram, tirando as bases desse discurso pseudo-histórico. Só fico por uma parte do racioncínio que, parece-me mas posso enganar-me, não foi discutida : a probidade e a eficácia dos servidores de Estado naquele período (Os factores 2, 3 e 4 do « novo » decálogo do Estado Novo 2. Em parte como resultado deste exemplo, uma cultura prevalecente na sociedade em que o cumprimento dos contratos (por vezes baseados na mera palavra dada) e, geralmente de todos os compromissos, se tornava uma questão de honra pessoal. 3. Funcionamento exemplar das instituições do Estado, como a justiça e a administração fiscal. 4. Elevado sentido de Estado por parte das pessoas que serviam o Estado quer nos postos da governação quer nos principais postos da administração pública. Tratava-se, em geral, de pessoas com elevado espírito público, que visavam servir o Estado e a comunidade, e não servirem-se do Estado e da comunidade - e que frequentemente o faziam com sacrifício dos seus próprios interesses pessoais).
Se o Estado Novo inspirou confiança a alguém foi aos médios e grandes proprietários rurais, aos industriais, aos comerciantes, aos financeiros, etc., etc. A grande maioria da população, ela, viveu no medo, na desconfiança e na vontade de escapar ao Estado e aos seus protegidos (fugindo por exemplo clandestinamente para França). Donde vinha a confiança dos primeiros ? Eles podiam quebrar os contratos como queriam, deixar de pagar os empregados e, melhor, impor a inexistência de contratos deixando os assalariados (rurais ou industriais) sem protecção. Sem sindicatos, com operários reprimidos à menor desobediência, com um sistema corporativa que era uma fraude como escreveu Philippe Schmitter, com tribunais do trabalho defendendo o patronato, é verdade que os empresários podiam ter confiança no Estado. Isso não há dúvida. E com a repressão do movimento operário, sem sindicatos, com salários que aumentavam menos depressa que a produtividade dos trabalhadores (a não ser no fim dos anos 60 quando o patronato, por culpa da emigração, teve que aumentar os salários), e sem Estado Providência, o tal sucesso económico do Estado Novo não é nada de extraordinário. Eficiência económica é juntar crescimento da riqueza, democracia e bem-estar para toda a população, como aconteceu no mesmo período além-Pireneus.
Quanto à dita eficiência e exemplaridade dos servidores do Estado no regime salazarista é um mito tão falso como as proezas do Stakhanov. Com uma censura que cortava qualquer artigo que apontava uma mais pequena disfunção da administração pública (por exemplo no livro do João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha há o caso de um desastre de avião que foi censurado, isso podia ser uma fonte de desprestígio para o Estado), com uma polícia política que podia perseguir qualquer pessoa que pudesse levar à cabo uma investigação crítica sobre a administração pública, essa inefiência não era conhecida do público que só podia ler uma narrativa distorcida da situação portuguesa. Mas estudos, nomeadamente aqueles baseados em arquivos públicos ou trabalhos de antropologia, mostram como o Estado Salazarista era inefiente, lento, cheio de corrupção (como se poder ler nos trabalhos do Howard Wiarda ou do José Cutileiro).
E essa ineficácia não era uma anomalia. Era uma das chaves do poder de Salazar. Salazar não precisava dum Estado eficiente, dum sistema que funcionava correctamente. Pelo contrário. O que ele queria era manter-se no poder. E isso passava pela existência de fracções antagonistas que, combatendo-se umas contra as outras, pediam a arbitragem do presidente do Conselho que ficava assim no centro do sistema e tornava-se indispensável. Quantos ministérios ou organismos não mantinham guerrilhas administrativas e burocráticas inúteis que se traduziram por inacção, superposições de competências e, por consequência, despesas acrescidas. Quantos ministérios ou organismos preferiram não fazer nada e resolver alguns problemas para não mudar as suas rotinas burocráticas. Quantos funcionários não se serviram das posições que ocupavam para ganhar uns (muitos) tostões à custa dos Portugueses que tinham que preencher toneladas de impressos burocráticos ?

Balancetes

Cartoon de GoRRo

Afinal era tudo tanga!

A questão dos "apadrinhamentos", a tal formalidade necessária para que os candidatos à presidenciais francesas se possam apresentar às eleições, e que este ano parecia poder deixar alguns fora da corrida, deu em nada. Alimentou muita imprensa, eu ainda acreditei (ingenuamente) que fosse alterar os dados, mas no fim todos reuniram as assinaturas necessárias. A única dúvida por enquanto é José Bové (apesar de tudo uma dúvida importante), mas será provavelmente confirmada segunda-feira. De resto até o representante do partido da caça e tradição se apresenta à presidenciais. No total serão 11 ou 12 candidatos.
Houve na última semana uma mudança de estratégia dos grandes partidos, no que toca aos apadrinhamentos. Inicialmente tanto a UMP de Sarkozy como o PSF de Ségolène Royal tinham colocado pressão sobre os eleitos dos seus partidos para não patrocinarem outras candidaturas. Esta semana veio primeiro Sarkozy a público afirmar que se iria bater pessoalmente para que Le Pen (Frente Nacional) e Besancenot (Liga Comunista Revolucionária) se pudesem candidatar, François Holande pelo PSF seguiu a mesma estratégia e retirou a pressão sobre os eleitos do seu partido viabilizando as "pequenas" candidaturas. Parece-me que tanto a UMP como o PSF estão já a tentar angariar votos para uma potencial segunda volta. Tanto para Sarkozy como para Ségolène o perigo não vem dos "pequenos candidatos" mas de François Bayrou. Convém não hostilizar agora os pequenos, que podem dar votos na segunda volta.
Assim na escolha do esquerdista preferido há muita diversidade na oferta, como convém: Marie-George Buffet (Partido Comunista), Olivier Besancenot (Liga Comunista Revolucionária), Arlette Laguiller (Luta Operária), Gérard Schivardi (Partido dos Trabalhadores), Dominique Voynet (Verdes) e provavelmente José Bové.

sexta-feira, 16 de março de 2007

A blogofrase da semana

Escola, fome e doutores

Uma notícia que corria ontem na comunicação social relatava o problema da fome nas escolas. Para alguns alunos, sobretudo os das zonas mais periféricas (não me refiro somente ao interior do país), a única refeição condigna que tomam durante o dia é fornecida pela escola. Pode questionar-se a qualidade do serviço prestado por muitas escolas, e a responsabilidade de algumas autarquias que não têm tido como prioridade política a alimentação e nutrição infantil. No entanto, não é esse o objectivo deste post. Estas notícias revelam que nos sectores mais pobres da sociedade portuguesa a escola tem uma função básica que está para além da sua função primordial. Questiono-me se os índices de abandono escolar não seriam ainda mais volumosos e precoces se as escolas não garantissem estes serviços básicos à população estudantil. Obviamente que não se pode pedir às escolas que resolvam o problema da pobreza e da subnutrição das crianças. Como também não se pode exigir à escola que ela resolva só por si o problema do abandono escolar. Em zonas consideráveis do país o abandono escolar não resulta somente da ineficácia pedagógica e representa muito mais do que um problema (já de si grave) de sub-qualificação.
A nossa sociedade é das mais assimétricas da Europa e, por isso, requer respostas políticas diferenciadoras. Por exemplo, analisar o problema do abandono escolar em alternativa à questão do desperdício de capital humano qualificado, não me parece fazer muito sentido. São problemas muito distintos e que extravasam em larga medida o âmbito das medidas de qualificação. Mas são dois problemas graves! Portugal precisa de pessoas mais qualificadas ao nível do ensino secundário e ensino médio, mas também necessita de rendibilizar todos os recursos humanos altamente qualificados que tem à disposição. Precisa de apostar na democratização do ensino de modo a torná-lo cada vez mais independente da origem de classe dos alunos. Mas também necessita de apostar em nichos de excelência que valorizem o mérito, a criatividade e a atitude crítica. Para tal são imprescindíveis políticas a diferentes velocidades, como já referi noutro post. E, sobretudo, são fundamentais medidas transversais que, por exemplo, não encarem a escola e as condições de formação que esta presta (desde o básico até ao superior) como, simultaneamente, a causa e a consequência de quase tudo o que tem a ver com a falta ou com o excesso de qualificação.

Debater as cidades

Neste blogue temos vindo a debater os problemas da cidade de Lisboa numa perspectiva abrangente, não só articulando as diferentes propostas sectoriais como pensando a cidade com experiências e comparações com outras cidades.
Vem este prolegómeno a propósito de 2 encontros que decorrerão esta 6.ª feira.
Começo pela Conferência Internacional A cidade é de todos, que começa às 17h no ISCTE e se prolonga pelo sábado inteiro. O subtítulo é «Democracia, integração e urbanismo», e por ele se organizam os 4 painéis. Aqui reside um 1.º ponto a favor, que é o da abertura e articulação de temáticas importantes para se pensar a cidade.
Um dos aspectos a focar será o do orçamento participativo e planeamento urbano, a partir de experiências modelares como a do Belo Horizonte. Por cá tais experiências começam também a difundir-se, e chegou agora a hora de reflectir a questão: será no Encontro Nacional Orçamento Participativo, em S. Brás de Alportel e por iniciativa do município local. Contará com Boaventura Sousa Santos, Jorge Wemans, Teresa Cunha, entre outros. O programa vem aqui e só é de lamentar que não refira todos os participantes.
A 1.ª iniciativa é da Esquerda Unitária Europeia/ Esquerda Verda Nórdica e do Bloco de Esquerda e, como se vê, teve a preocupação de suscitar um debate público combinando políticos e/ou especialistas nas áreas abarcadas pelo evento. Estarão presentes estudiosos como Isabel Guerra, Nuno Portas, João Seixas, João Teixeira Lopes, Pedro Soares, Giovanni Allegretti, Jordi Borja, Léon Krier, Tariq Ramadan, etc.. O programa completo vem aqui. Nele será focado a questão da imigração à luz dos casos francês e britânico.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Crítica construtiva; o mito e a fraude

Nota prévia: Lamentavelmente o texto que se segue não é baseado em factos verídicos, e qualquer semelhança com locais, situações ou personagens reais é infelizmente uma coincidência

A cena ocorre durante o julgamento de José da Silva, acusado de homicídio. O Ministério Público não conseguiu apresentar testemunhas ou provas materiais do crime, no entanto baseando-se num presumível móbil, numa série de provas circunstanciais e conjecturas elaboradas construiu uma sólida acusação. João da Silva, testemunha, passível de fornecer um alibi ao acusado, é chamado a depor. Segue-se o interrogatório por parte de Manuel da Silva, delegado do Ministério Público, a João da Silva.
...
MP - Então o Sr. João da Silva encontrava-se com o Sr. José da Silva no dia em que ocorreu o crime?
JS - É verdade.
- À hora do crime?
- Exactamente.
- A 300 kilómetros do local onde se deu o homicídio?
- É isso mesmo.
- O que quer dizer que o sr. José da Silva não pode ter cometido o homicídio...
- Parece-me evidente.
- Portanto na sua opinião a acusação da polícia é falsa?
- Logicamente que sim.
- Então diga-me só uma coisa: quem é que cometeu o crime?
- Hmm !?!?! Isso eu não sei...
- Como assim? Se o sr. João da Silva diz que não foi o sr. José da Silva tem que nos dizer quem foi.
- Mas eu não sei quem foi, sei apenas que não pode ter sido o sr. José da Silva, mais nada!
- O sr. João da Silva não está a fazer uma crítica construtiva, assim sendo não podemos levar em conta o seu testemunho.
- ...
- Sim, porque o sr. João da Silva limita-se a criticar, a pôr em causa a seriedade dos que com a sua dedicação conseguiram os elementos para acusar o sr. José da Silva, não é verdade?
- Não, eu limito-me a confirmar o alibi do sr. José da Silva...
- Mas não propõe nenhuma alternativa séria e credível. Eu pergunto apenas: senão é o sr. José da Silva o homicida então quem é?
- Mas não me compete a mim responder a essa pergunta, eu sou apenas uma testemunha...
- Não compete a si? Então compete a quem?
- Bem..., à polícia.
- Ah! Quando a polícia faz o seu trabalho o sr. João da Silva critica-o, mas quando lhe perguntamos se tem alguma explicação alternativa, não é a si que lhe compete responder, mas é à polícia. É isso?
- É isso, exactamente.
- Portanto o sr. João da Silva recusa-se a fazer um crítica construtiva.
- Eu sou apenas uma testemunha...
- Meretíssimo sr. Juíz António da Silva, o Ministério Público solicita que o testemunho do sr. João da Silva seja retirado dos autos, e não seja considerado para efeitos deste julgamento, devido à recusa intransigente por parte da testemunha em fazer uma crítica construtiva.

Falar de blogues

Hoje, às 19H, na Livraria Almedina, vão estar em discussão os blogues temáticos. No debate participam Pedro Mexia (Estado Civil), José Nunes (Foram-se os Anéis), Leonel Vicente (Memória Virtual ) e Daniel Melo (Não Apaguem a Memória *).
A iniciativa é organizada por José Carlos Abrantes e pela Almedina.
Dizem os organizadores: "Uma das vocações dos blogues é a de poderem desenvolver um tema e darem um contributo específico, muitas vezes personalizado. A variedade temática é uma das riquezas da blogosfera".
________
*E o «Peão» não vai à Almedina? É muito melhor que um blogue temático, é multi-temático! Toda a riqueza da blogosfera num só blogue. :) :) :)

Educação e liberdade

Por falar em apostas - eu pago um copo a quem me disser quem escreveu estas linhas:

"A educação ou a aprendizagem não são aqueles métodos organizados (...) que obrigam os jovens ao seu conhecimento durante umas horas determinadas, sentados em carteiras alinhadas (...). Este tipo de educação, dominante em todo o mundo, constitui um sistema contrário à liberdade. O ensino obrigatório de que se vangloriam os países cada vez que o podem aplicar é um dos métodos de opressão e privação de liberdade, uma anulação imposta às capacidades do Homem, e (...) contra as opções do mesmo. É uma acção ditatorial, que mata a liberdade, que limita o seu livre arbítrio, a sua [capacidade de] reacção e o seu aperfeiçoamento. Obrigar um ser humano a aprender um programa escolar não é outra coisa senão uma acção ditatorial. Impor determinadas matérias de aprendizagem é o mesmo que impor um método ditatorial".

a) Martin Luther King, Jr.;
b) Ivan Illich;
c) Muammar Khadafi;
d) Raoul Vaneigem.

Vá lá, não vale abusar da cábula da Wikipédia. Respostas aqui mesmo, na caixa de comentários.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Eu devia era ter apostado

Deixem-me lá só fazer mais uma pequena provocação.

Há uns dias numa das minhas "diatribes" contra os sindicatos escrevi:

"Os sindicatos bradam contra os baixos salários? Eu também. Quem não clama? Então se querem ser levados a sério, eles que ajudem naquilo que podem, enquanto parceiros institucionais que são, que é mobilizar jovens e adultos para regressar à escola, certificarem a sua experiência e melhorarem as suas qualificações."

Li agora no "P on-line":

O Governo e os parceiros sociais subscreveram hoje um acordo para a reforma da formação profissional, o qual não contou com a subscrição da CGTP.

E mais não digo para já - a não ser que esta questão é tão, mas tão importante para o país.

Porque Cristiano Ronaldo é um dos melhores do mundo



Vejam a trajectória da bola, e porque é que ela é indefensável. É preciso treino, muito treino para conseguir fazer isto.

Do peão ao debate do MD


Hotel Memória


Há os que escrevem. E depois há os escritores. E depois há ainda os excelentes escritores. Eu sou suspeito, mas diria que o João Tordo inclui-se indubitavelmente no grupo dos terceiros. O Hotel Memória (edição da Quidnovi) é apresentado hoje na FNAC Chiado, às 18h30, por Helena Vasconcelos.

O drama de Le Pen

O drama de Le Pen não será o de recolher os apadrinhamentos necessários para se candidatar às eleições presidenciais, ao que parece estas estão asseguradas e Sarkozy já demonstrou querer, se necessário, ajudar Le Pen obtê-las. O drama de Le Pen é, paradoxalmente, ter chegado à segunda volta nas eleições de 2002, e tê-lo conseguido com um resultado que põe ao mesmo tempo a fasquia demasiado alta e demasiado baixa. Demasiado alta para ser uma alternativa de poder, e demasiado baixa para ser um partido de protesto anti-sistema. Por um lado chegar à segunda volta foi o melhor resultado que Le Pen podia atingir, a partir daí já não pode subir mais, ora um dos grandes trunfos de Le Pen e da Frente Nacional foi até aqui a sua subida constante, lenta mas sólida, ao longo de mais de vinte anos. Ao chegar à segunda volta o passo seguinte é ganhar as eleições, para isso tem que apresentar um programa o que é incompatível com a sua natureza anti-sistema. As poucas e ambíguas tentativas da FN, e em particular com Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, e sua putativa sucessora, deixam expostas as fragilidades do partido: por um lado as suas propostas não são muito consistentes, por outro nem são assim tão diferentes das dos partidos de direita do "sistema". Por outro lado, "grande azar" de Le Pen foi o de ter como adversário à segunda volta Jacques Chirac, do ponte de vista de Le Pen não podia ser pior, Chirac conseguiu congregar os votos de todo o espectro político fora a extrema-direita. Se por hipótese o opositor tivera sido o socialista Jospin (o que não esteve assim tão longe de acontecer) Le Pen teria tido provavelmente uma votação muito superior aos 18% que teve contra Chirac, eu arriscaria qualquer coisa na ordem dos 30%. Teria sido um terramoto ainda maior à segunda volta do que foi a primeira. Com 30% dos votos Le Pen ter-se-ia tornado incontornável, e a FN teria a sua legitimação como partido integrante do sistema político francês. Aliás há pouco tempo um documentário televisivo revelou imagens de Le Pen pouco depois de receber a notícia de que tinha passado à segunda volta contra Chirac, e a sua expressão, contrariamente ao que seria de esperar por parte do vencedor surpresa dessa noite eleitoral, era uma cara de poucos amigos. No final de contas o melhor resultado que Le Pen poderia alguma vez alcançar tornou-se no pior resultado possível dadas as circunstâncias.
Arriscando um bocado de futurologia, este ano se não conseguir melhor do que conseguiu há cinco anos Le Pen está em maus lençóis. É impossível - tanto quanto há impossíveis em política - conseguir sequer igualar o feito de 2002. Segundo as sondagens, Le Pen não só não passa à segunda volta, não obtém o mesmo nível de votação, como nem sequer será o terceiro candidato mais votado, será provavelmente o quarto. A partir daqui parece-me improvável que a FN venha a subir no futuro, vai deixar de representar a franja dos descontentes, dos votos de protesto. Isto não quer dizer que Le Pen e a FN vão desaparecer do mapa político de um momento para o outro, o seu eleitorado é muito enraizado regionalmente e socio-economicamente, mas vai provavelmente definhar lentamente. Fica por saber para onde irão os votos, porque o eleitorado de extrema-direita existe e vai continuar a existir.

insónias na blogosfera

As insónias são tramadas. Antigamente, quando não conseguia dormir, ligava a televisão. Agora vou para o PC e dou uma olhadela nos blogues. Deparei-me com um post num blogue que costumo ler com interesse quando tenho tempo: womenageatrois
Depois de ter lido atentamente o post, os seus links e comentários, decidi ir ao site do assunto em questão. Entrei.. Gostaria que o Baudrillard o tivesse visto antes de morrer (se calhar viu..). Nunca me tinha deparado, desta forma, com o conceito de hiperrealidade. Segundo as cartas dos clientes do site, as bonecas são mesmo even better than the real thing. Cliquei nos products e surgiram imagens curiosíssimas, como o Flat back torso que faz lembrar o filme Boxing Helena. Além deste torso suigeneris, surge ainda um outro: o Realdoll torso, que obviamente está em saldo.
Queria concluir este post, mas sinceramente faltam-me as palavras. Espero que compreendam.
Fiquei, no entanto, com uma dúvida: o que fazer na próxima insónia? ligar a tv ou o PC?

Para os amadores de sociologia francesa…




…, como o Hugo, aconselho os blogues de François Dubet (especialista da educação e da juventude), de Éric Maurin (que escreveu um ensaio sobre a segregação social e spacial em França). E também aconselho o site Cairn onde se pode ler artigos dos Actes de la Recherche en Sciences Sociales (fundada por Pierre Bourdieu), da Revue française de Sociologie, de Genèses e de muitas revistas de História, sociologia política, economia, etc.

PS : o senhor à direita não é um actor dos Monthy Pyton é o Emile Durkheim.

terça-feira, 13 de março de 2007

DJ Peão, o blogue que faltava!

É verdade, caros amigos dos peões e restantes internautas que vindes aqui parar por distracção, vem aí mais um blogue peão, o DJ Peão!
A ideia do novo blogue surgiu quando constatámos que podíamos aproveitar este irreprimível talento DJ de vários peões para criar outra novidade na blogosfera nativa. Além disso, e como uma vantagem nunca vem só, este blogue ficará novamente menos pesado de abrir, deixando de “ruminar”, na linguagem bucólica do dj peão Z.
Para que não percais pitada do novo blogue DJ Peão, aqui fica o link: http://avezdodjpeao.blogspot.com.
Aproveitai!!
A imagem aqui do lado tem tudo a ver com o fabuloso videoclip que inseri no outro blogue, se não acreditais ide lá mirar. É muito bom!

A percepção e a realidade dos problemas

Nos últimos tempos tenho pensado por que é que muitas pessoas - isto é um impressão pessoal, não vem de nunhum estudo científico - altamente qualificadas, e mesmo politicamente à esquerda (no blogue o Daniel e o Renato já colocaram a questão algumas vezes, mas não estou a falar deles, o meu universo de referência é mais alargado - e isso tem-se visto por exemplo sistematicamente na imprensa nos últimos meses), se preocupam tanto com o desemprego dos licenciados e parecem razoavelmente insensíveis, a não ser de forma ritual, à questão do abandono escolar no ensino secundário. Sendo o desemprego da mão-de-obra qualificada muito baixo do ponto de vista estatístico (e abaixo da média europeia) - e provavelmente o existente é efeito de uma conjuntura de lenta abertura de mercados em certas áreas onde o crescimento permitirá, a prazo, uma mais firme absorção da mão-de-obra qualificada - e o abandono escolar, pelo contrário, um verdadeiro problema nacional (Portugal está nesta questão na cauda do universo OCDE), parece-me que a atenção (e a agenda) pública está realmente biased em favor da primeira questão.


Entretanto, tropecei, nas minhas leituras, nesta interessante e plausível explicação de Harvé Hamon, no seu Tant qu'il y aura des élèves (edição poche, 2004, Paris: Seuil, pp.14-15). Ele está a falar da realidade francesa, mas a análise servirá perfeitamente para Portugal:


«C'est désormais fait: le 'collège unique' est mis à mal, la pierre angulaire est fragmentée. Cela, on sentait venir. Ce qui était moins prévisible, c'était que l'affaire se déroulerait sans anicroche, presque sans protestation, sinon rituelle. Quand le contrat d'embauche des rejetons issus des classes moyennes est insatisfaisant, c'est l'émeute. Quand on chasse de la sphère scolaire les 'irréductibles' qui sont aussi les plus pauvres, c'est l'indifference. Le phénomène révèle aussi que la critique du monde politique, de son inaptitude à penser long, à viser le bien public par-delà les alternances, est à son tour insuffisante. Après tout, l'abandon du collège unique ne gène en rien les couches moyennes et supérieures qui contournent la plus élémentaire mixité sociale, gavent cord pour transformer les examens en concours. Il ne gêne pas non plus les enseignants qui préfèrent inscrire les carences des élèves au compte de ces derniers plutôt qu'à celui de l'institution».

A inveja dos outros


Fui ver finalmente a "Vida dos Outros" (de que o André já tinha falado). É bem capaz de ser o melhor filme que vi no último par de anos. Entre as muitas mensagens e lições que se retiram da história, uma das mais improváveis é que para um Estado socialista e autoritário, pior e mais merecedor de censura e controlo do que a criatividade e liberdade intelectual de um escritor, só mesmo um escritor acompanhado de uma mulher bonita (afinal, o artigo de "Laszlo" na Der Spiegel não interessava para nada; a prova é que é a morte, ou o "auto-homicídio" (!), de "CMS" - a actriz Martina Gedeck, na foto - que coloca o fim à investigação).

Curta nota sobre o desemprego dos licenciados



Em resposta ao repto do Daniel - para quem esta posta não foi suficiente -, mais uns dados (ou mais um pequeno exercício em "refinada retórica", depende sempre da perspectiva ou da boa vontade do leitor) sobre o desemprego dos licenciados (vamos combinar uma coisa: não vale exigir desemprego zero, tá?; já para não dizer que um desemprego de 4% está praticamente ao nível da linha convencionada como representando "pleno emprego").
Depois, com mais tempo, eu escrevo alguma coisa sobre isto - para dizer onde o governo é e não é "culpado"*, e o que pode fazer, tanto na área do ensino superior e do mercado (e lá vou eu ter de escrever mais uma "diatribe" - é engraçado que é sempre diatribe, nunca um argumento sério - contra os corporativismos e os "auto-intitulados" sindicatos, e a favor da liberalização dos mercados, neste caso dos serviços, pela óbvia razão porque é neste sector que a maioria dos licenciados procura emprego; é que: mercados fechados = maior desemprego).
E também escreverei sobre o programa Novas Oportunidades (cujo label atraiu várias dezenas de pessoas (!) na segunda-feira ao blogue).
* Entretanto, se o Daniel acha que eu só digo bem do Estado e do governo, etc., recupero o meu último parágrafo da posta que escrevi la atrás sobre isto:
"Mas por favor não se diga que também é responsabilidade do Estado absorver estas pessoas qualificadas; com o défice público que temos, não há margem de manobra. O que o Estado deve é regular decentemente a abertura destes cursos tanto no público como no privado para evitar a produção de bolhas de licenciados em áreas sem saída. E duvido que esta regulação tenha sido exercida com a mão-de-ferro que se exigia na última década e meia."

segunda-feira, 12 de março de 2007

Política para um país: linhas de força


Faz hoje dois anos que o actual governo tomou posse. É um bom pretexto para reflectir e propor algumas linhas para o desenvolvimento sócio-económico do país. Este governo lançou dois programas que em meu entender são estratégicos: o Programa Nacional para a Política de Ordenamento do Território (PNPOT) e o Plano Tecnológico (PT). São duas excelentes iniciativas que deveriam enquadrar e orientar todos os outros programas sectoriais.
1. Uma verdadeira estratégia para a sociedade de informação requer não só uma revolução tecnológica (em termos de meios utilizados, mas, sobretudo, de usos e procedimentos), mas uma mudança estruturante no ordenamento do nosso território. A grande novidade do PNPOT é a aposta nas cidades e numa rede urbana policentrada. As cidades (grandes e médias) são nódulos aglutinadores de desenvolvimento, urge dotá-las dos mecanismos tecnológicos e, principalmente, de capital humano necessário para dinamizar diferentes eixos de inovação. O PT deveria assumir esse papel e articular as suas áreas estratégicas tendo por base esses clusters territoriais de desenvolvimento. Não é isso que acontece! Quanto a mim, seria fundamental congregar as linhas orientadoras do desenvolvimento tecnológico e do ordenamento territorial.
2. Para tal, é determinante que a política de reestruturação do Ensino Superior se integre objectivamente nestes dois programas. Por exemplo, não faz sentido, apontar-se hipóteses de fusões entre instituições (universitárias e politécnicas) tendo somente como perspectiva a realidade circunscrita desses estabelecimentos de ensino. Não é possível incentivar os tais clusters de inovação territorial sem uma articulação efectiva com a política do ensino superior.
3. Para além do plano nacional, está contemplado na lei de bases do ordenamento do território a definição e execução dos Planos Regionais de Ordenamento do Território (PROT). Como já referi noutra ocasião, entendo que a operacionalização destes planos só faz sentido em articulação com uma efectiva reforma na administração regional do país. Isto é, torna-se necessário pensar num modelo viável de regionalização que aponte claramente para a lógica definida no PNPOT.
4. Recapitulando: entendo que uma verdadeira estratégia de desenvolvimento para o país deverá ser aglutinada e organizada a partir de quatro planos essenciais: o PNPOT, o PT, a Reforma do Ensino Superior e a Regionalização. Parcelarmente algumas coisas estão a ser feitas, mas falta decididamente a visão do todo. Ou seja, uma visão do PAÍS.

A redenção pela bomba

O filme "Dr. Strangelove" tem mais de 40 anos, e a Guerra Fria (a velha) acabou há quase 20. Mas hoje no mundo de Bush e Ahmadinejad continua a ser um filme para ver e rever. Fica aqui a cena final, exemplo máximo do magistral cinismo de Kubrick, em que o desencadear da Apocalipse Nuclear permite o milagre e o Dr. Estranhoamor esclama "Mein Führer, I can walk!", enquanto as bombas rebentam ao som de "We'll meet again".


Nota: Para quem quiser (re)ver os 5 minutos que antecedem este "grand finale", uma sequência magnífica - e porque 5 minutos é demasiado na escala de tempo blogosférica - fica aqui o link. No entanto o melhor mesmo é ver o filme todo (over and over again).

T.S. Eliot

"And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea."
dedicado à Sofia, à Clara e à Filipa

Destroços culturais

O post do Daniel fez-me lembrar outras «destruições», como a do incêndio de hoje no Cineteatro Rosa Damasceno em Santarém. O edifício já estava desactivado, mas isso só vem provar, a total ausência de vontade de criação de uma política cultural para as populações. Facto, que em Lisboa é notório, mas fora da capital ainda está mais presente. Restam, então, os centros comerciais, as aulas de hidroginástica e os concertos estivais...
P.S. - Também me parece incrível que o Presidente da Câmara, em funções há dois anos, se encontre tão «destroçado» com o destino do edifício (estou, naturalmente, a falar de Moita Flores, um homem das artes do espectáculo (?!?), como ele próprio se intitulou).

domingo, 11 de março de 2007

Os cidadãos primeiro: petição pelo bem comum

Já aqui faláramos do caso, mas novos desenvolvimentos obrigam a retomá-lo: agravou-se o mal-estar relativamente à actual gestão da Fundação D. Pedro IV no respeitante aos bairros das Amendoeiras e Lóios, na Lisboa oriental. São várias as razões: brutais aumentos das rendas, deterioração do ensino, relacionamento afrontoso, desvio dos fins da Fundação para outros fins que não o do bem comum, etc..
A contestação alastrou, e circula agora uma petição para destituir a direcção daquela Fundação e abrir uma sindicância, a entregar ao ministro do Trabalho e da Solidariedade Social. Foram ainda dinamizados os blogues de 2 comissões de moradores (o Fénix das Amendoeiras e o Bairro dos Lóios) e o do Grupo de Pais da Fundação D. Pedro IV.
O Estado tomou a decisão avisada de renegociar o protocolo assinado pelo anterior governo com a Fundação (vd. notícia desenvolvida aqui), mas tal não terá satisfeito plenamente os movimentos cívicos críticos da actual gestão, que pretendem que se vá mais longe, e se retire o património público a essa instituição. Para mais informações vd. aqui e aqui.

Também era o que faltava

Jacques Chirac annonce qu'il n'est pas candidat à l'élection présidentielle.

O que é espantoso é que a lei francesa permita tamanha fantasia.

A beleza da fragilidade

É pena que o Elliott Smith não quis ficar mais tempo nesse mundo. Mas ele teve tempo para compor 5 álbuns maravilhosos (também há um que foi posto à venda depois do seu suicídio em 2003 e outro que está para sair). Cada tema é uma pérola e as palavras são inúteis para descrever essas melodias cheias de delicadeza onde se sente a fragilidade dum homem que tinha um físico de touro.

sábado, 10 de março de 2007

Os partidos por cá, ou a falta de ideias

"Não é fácil decifrar este mistério. Mas uma das pistas possíveis é a de que os zénites da oposição e do apoio ao Governo - até pela sua permanente e perturbadora simetria - decorrem do vazio de referências e valores sólidos a que chegou a vida política portuguesa. Um vazio que o Governo socialista tem sabido explorar, ocupando quase todo o terreno ao centro e à direita e deixando para a sua esquerda - uma esquerda radical e sem vocação governativa, dividida entre o PCP e o Bloco - o território restante. Essa deslocação territorial é, aliás, também confirmada pelas sondagens: enquanto toda a direita - PSD e CDS - continua a cair, as várias componentes da esquerda - PS, PCP, Bloco - vão-se reforçando.
Mas o apoio cada vez mais explícito da direita mais avisada e pragmática (com a bênção solene do Presidente da República) à «via reformista» do Governo não só torna redundante e até anedótico o papel da direita parlamentar e respectivos partidos (seja com Marques Mendes ou sem ele, seja com Ribeiro e Castro ou com Paulo Portas) como coloca também um grave problema identitário ao PS, enquanto partido da esquerda moderada. Não é apenas a direita que se debate hoje com um vazio programático - que o déjà vu dos soundbytes de Portas não conseguirá iludir. É também o lugar da esquerda social-democrata que corre o risco de ser esvaziado, reduzindo o PS a um mero suporte decorativo do pragmatismo governamental. Entre o zénite das manifestações da esquerda de protesto e o zénite da popularidade de uma esquerda de poder que retirou utilidade política à direita, que espaço ficará?"
Vicente Jorge Silva
(«Zénite e vazio», DN, 7/III)
Alguém quer comentar?

Isto ainda vai acabar mal

François Bayrou est pour la première fois à égalité avec Ségolène Royal en terme d'intentions de vote au premier tour de la présidentielle avec 23 %, selon un sondage Ifop-Fiducial pour Le Journal du Dimanche à paraître le 11 mars et réalisé les 8 et 9 mars. Les candidats centriste et socialiste sont toutefois précédés par Nicolas Sarkozy qui reste en tête des intentions de vote à 28 %.

Lealdade a quem e a quê?

Ontem, na primeira página do Público vinha uma fotografia de uma folha em cima de uma mesa. Na folha podia ler-se uma frase familiar a todos os funcionários públicos: «Eu, abaixo-assinado(a), afirmo solenemente, pela minha honra, que cumprirei com lealdade* as funções que me são confiadas». Trata-se do compromisso que o funcionário público presta no acto de posse, aquando da sua primeira nomeação. A assinatura do respectivo termo traduz a aceitação da nomeação.
Sendo uma imposição legal, não duvido que todos os funcionários públicos já leram, uma vez na vida, aquela frase. Infelizmente, há outra frase que muitos nunca leram e cujo teor me parece mais adequado e pertinente: «No exercício das suas funções, os funcionários e agentes do Estado estão exclusivamente ao serviço do interesse público, subordinados à Constituição e à lei, devendo ter uma conduta responsável e ética e actuar com justiça, imparcialidade e proporcionalidade, no respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos» (retirada deste diploma).
Nem todas as pessoas que leram a primeira frase, aquando da aceitação da sua nomeação, perceberam a quem e a que valores devem ser leais no cumprimento das suas funções públicas. E conseguem sentir-se muito honradas por cumprirem com lealdade (a A ou a B) funções que lhes são confiadas ou que chamam a si.
Tudo isto para dizer que defendo que apenas aqueles que concordam e levam à prática o que estipula a segunda frase deviam ter vínculo de nomeação. Espero sinceramente que as medidas que o Governo está a preparar contribuam para depurar a Administração Pública dos que cumprem as suas funções com lealdade...
...a interesses particulares.
__________
*Na infopédia a definição de lealdade é a qualidade de leal; fidelidade; sinceridade. Leal = 1. quem não falta às suas promessas; 2. sincero, franco, honesto; 3. fiel, dedicado; 4. conforme à lei.
Imagem: o Imperador bizantino Aleixo recebe o juramento de fidelidade de Godofredo de Bouillon.

Diz que são estilos de jonalismo diferentes

O Office of the Inspector General (OIG) do Departamento de Justiça dos E.U.A. emitiu um relatório bastante crítico sobre os procedimentos do FBI no âmbito do "Patriot Act" (o relatório pode ser lido aqui, em formato PDF). O Público e o Le Monde publicam nas suas edições em linha notícias sobre o assunto, mas cada um ao seu estilo. À notícia do Le Monde é dado um grande destaque logo na página de entrada, a notícia do Público está refundida na secção internacional. O artigo do Le Monde sem ser muito extenso é bastante completo, já o artigozinho do P nem tanto. Por exemplo, segundo o Le Monde o tal relatório detectou ilegalidades em 22% dos dossiers analisados, segundo o P foram detectadas 17 irregularidades em 77 casos, esquece-se o P de referir que 77 casos é apenas uma amostra (lê-se no relatório "the OIG teams examined a judgmente sample of 77 counter terrorism and counterintelligence investigative cases files", sample em inglês quer dizer amostra, não sei se o/a jornalista do P conhece o significado estatístico da palavra), fica-se com a sensação que são os únicos 77 casos existentes. Lê-se no Le Monde que o uso das "National Security Letters", apenas um dos ítems específicos do "Patriot Act", deveria ser excepcional mas foi usado 56000 vezes em 2004 e 47000 vezes em 2005, no P das "Naional Security Letters" não se encontra rasto. O Le Monde faz um link para o relatório do OIG, o P bem pelo contrário. Segundo o P "Robert Mueller, director do FBI, considerou as conclusões do relatório 'inaceitáveis'", segundo o Le Monde o mesmo Mueller aceita as conclusões e recomendações do relatório.

Só há uma conclusão possível, o Le Monde sofre de anti-americanismo primário. O Office of the Inspector General provavelmente também.

Injúrias arbitrárias

Como sociólogo, e em particular, admirador da sociologia francesa, sinto-me francamente ofendido com isto :)

Num mundo perfeito

Num mundo perfeito não haveria bons selvagens, nem bons nem maus, não haveria selvagens. Num mundo perfeito a escola não seria centrada no aluno, não seria centrada em coisa nenhuma, num mundo perfeito nem sequer se colocaria a questão de saber em que é centrada a escola. Num mundo perfeito os alunos iriam à escola, iriam apenas à escola, saberiam o significado das palavras "disciplina" e "autoridade", e receberiam por isso as suas recompensas. Num mundo perfeito perfeito não haveria mestres em "ciências pedagógicas", essas teorias que conduzem apenas e só à criação de crianças-monstros de mimos e egoísmo. Num mundo perfeito não haveria técnicos do ministério da educação com apenas uma vaga "recordação teórica" da escola, não haveria técnicos no ministério da educação de todo. Haveria apenas uma hierarquia e uma cadeia de comando. Num mundo perfeito a média de agressões nas escolas não seria baixa, seria zero. Num mundo perfeito os alunos seriam todos bem comportados, e alunos bem comportados não agridem os professores, num mundo perfeito os professores também não agrediriam os alunos, porque a isso se chamaria "castigos corporais" e não "agressão" (e de qualquer modo, sendo todos os alunos bem comportados, não seria necessário). Num mundo perfeito os alunos bem comportados iriam à escola para absorver os conhecimentos debitados pelos professores, os programas seriam ditados pela cadeia de comandos do ministério da educação. Num mundo perfeito um ou dois sábios - não mais - por encomenda do ministério da educação elaborariam os programas escolares, que os professores debitariam para os alunos bem comportados, estes conscientes do seu papel de receptáculo de matérias aceitá-lo-iam sem questionar. Num mundo perfeito perguntar-se-ia a Vasco Graça Moura qual a terminologia linguística a adoptar, este do alto da sua sapiência diria de sua justiça e a sua terminologia seria adoptada como a única gramática possível, seria assim "A" gramática simplesmente, e seria "A" gramática que os alunos bem-comportados absorveriam educadamente nas escolas. Num mundo perfeito não haveria debates, muito menos polémicas sobre a TLEBS, ou sobre qualquer outro assunto, a cadeia de comando do ministério da educação trataria de informar os professores sobre as verdades a debitar aos alunos, não haveria debates, muito menos polémicas sobre quaisquer conteúdos dos programas, isso seria uma inútil perda de tempo. Num mundo perfeito, de alunos bem comportados, não haveriam várias verdades, verdades relativas, mas uma só verdade, absoluta. Num mundo perfeito os alunos bem comportados sairiam assim da escola preparados para a vida, cheios das verdades que depois lhes permitiriam executar competemente as suas tarefas profissionais.

Não sei muito bem se é este o mundo perfeito que desejaria Francisco José Viegas, já que das suas posições vagas e ambíguas, levemente demagógicas não se percebe se tem algumas propostas concretas, mas do pouco que se vê é essa a sensação que (me) fica. Só que a puta da realidade teima em dizer-nos que o mundo não é perfeito, é uma chatice de facto, mas é assim mesmo... E pior ainda, há quem já tenha tentado por este mundo perfeito em prática, e ao que parece os resultados não foram lá muito bons.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Perspectivas

Ontem, quinta-feira, a nação acordou reconciliada e agradecida à RTP1, por via do engenheiro Sousa Veloso (!?!), de jingles de sucedâneos de café e de fotos de família. Hoje, sexta, Vasco Pulido Valente na sua crónica, muitas vezes genial e virulenta, voltou a pôr tudo em perspectiva.

As primeiras cedências

Lê-se hoje no 'Local' do "P" de hoje:

"Entraves financeiros põem membros dos gabinetes da Câmara de Lisboa a andar a pé

Alguns dos contratos da autarquia com locadoras de automóveis estão a terminar sem haver condições para a substituição imediata dos veículos, como era habitual acontecer

Está a ser pedido aos gabinetes dos vereadores da câmara de lisboa que entreguem alguns dos veículos de serviço que lhes estão atribuídos. o caso nada teria de mais se a sua substituição imediata estivesse garantida, mas problemas de vária ordem, relacionados, nomeadamente, com a cabimentação de verbas, estão a gerar atrasos que vão deixar apeadas durante algum tempo dezenas de funcionários (...)."


Há os peões por convicção, como os nossos bloggers. E depois há os outros. Claro que o motivo aqui apresentado é financeiro - mas, numa leitura mais optimista, diria que aqui a campanha dos "peões por Lisboa" já começa a deixar marcas, ao ponto de alterar o comportamento dos actuais funcionários.

Ainda a violência na escola

O Francisco José Viegas teve a simpatia de colocar no seu Origem das Espécies uma parte da posta que eu havia escrito há uns dias em comentário a um texto curto seu sobre a violência nas escolas. Fê-lo sem qualquer comentário, sob o título "Médias baixas". Talvez com isso Francisco José Viegas queira mobilizar a ironia a seu favor, mas para ilustrar o meu argumento de cariz mais quantitativo, avanço aqui com um pequeno exemplo.

Eu não tenho aqui à mão neste momento dados para fazer as contas exactas sobre a realidade portugues de modo a comparar o risco de um cidadão sofrer uma agressão na rua com o risco de um aluno ou professor ser dela vítima dentro da escola, mas deixo um número relativo à realidade francesa, e que é suficiente para nos dar uma ideia da proporção destes fenómenos*. Os dados são relativos ao "longínquo" ano de 1993, mas isso não interessa muito para o caso: nesse ano, foram recenseados 1.993 casos de agressão (o número de casos é idêntico ao ano em causa, mas as coincidências têm destas coisas) entre alunos, para cerca de uma população estudantil de cerca de 14 milhões; e 3.673 casos de agressão a professores e pessoal não-docente - embora este número esteja inflacionado, dado que são incluídos nesta categoria os actos perpetrados contra as infra-estruturas (por exemplo, roubo de material) - para um total de 1.100.000 pessoas.
Fazendo as contas, vemos que a probabilidade de um aluno ser alvo de agressão na escola é de 0.014%, e de um profissional da educação é de 0,4% (número, repito, altamente inflacionado pelo motivo atrás exposto).
Ora, qual era, nesse ano, a probabilidade de uma pessoa ser agredida fora da escola, enquanto simples transeunte? O valor comparável relativo aos delitos cometidos fora da escola era de 6,5% (naquele ano, foram contados 3.703.000 delitos numa população de 57 milhões de franceses). Podemos ver que a probabilidade de um aluno ou professor ser alvo de uma agressão ou delito fora da escola é muitíssimo superior à probabilidade de ser vítima dentro do espaço escolar.

Eu vou procurar os dados mais recentes relativos à realidade portuguesa, mas não há motivo nenhum para pensar que as ordens de grandeza sejam muito diferentes entre França e Portugal - e se existe diferença, provavelmente joga a favor das nossas escolas: o risco de ser agredido dentro de uma escola em Portugal será ainda mais baixo do que o que se passa(va) em França.

*Estes números estão citados no artigo de Éric Debarbieux, "La violence à l'école", publicado em L'École. L'État des Savoirs, dirigido por Agnès Van Zanten, Paris: La Découverte & Syros, 2000, pp.399-406.

Leitmotiv - Fuck

O filme Pulp Fiction visto através da palavra mais usada no guião. Pulp Fiction Fuckin' short version

MD - número de Março



Sim até ao fim

Ontem, Dia Internacional da Mulher, foi aprovada na Assembleia da República a nova lei do aborto, que despenaliza as interrupções voluntárias da gravidez realizadas por opção da mulher nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. Votaram a favor o PS, o PCP, o BE, Os Verdes e 21 deputados do PSD; abstiveram-se 3 deputados do PSD; votaram contra as 3 deputadas independentes da bancada socialista, os restantes 51 deputados do PSD e o CDS-PP. O diploma segue agora para o Presidente da República, que o poderá ainda remeter ao Tribunal Constitucional. Porém, espera-se que Cavaco Silva promulgue a nova lei, respeitando a vontade popular expressa no referendo de 11 de Fevereiro.

A ler

Um excelente texto de Pascal Boniface, postado por Nuno Ramos de Almeida no 5dias.

Se eu soubesse



Sei que a Cláudia não queria abrir uma coluna « táxis do mundo » mas aqui vai o meu contributo. Em Kyoto, os taxistas, que são numerosos mas em menor número que as todo-poderosas bicicletas, adoram o kitsch : croché nos assentos, porta traseira abrindo-se e fechando-se sozinha, etc. Agora se eles são xenófilos, xenófobos, isso já não sei. Mas quem me dera saber.


DJ Peão

Inspiral Carpets com Mark E. Smith, vocalista da banda the fall. O tema - I Want You

quinta-feira, 8 de março de 2007

DJ Peão

O tema Suffragette City de Ziggy Stardust, aka David Bowie. Wham, Bam, thank you Ma'am!

Avis aux amateurs benfiquistas

Consta aqui pela França que o Paris Saint Germain, tendo em conta os resultados esta época vai mudar de nome, mantendo a mesma sigla. Ao que parece vai passar a ser PSG - Pas Sûr de Gagner (Não temos a Certeza de Ganhar).

A sugestão do DJ Peão para o Dia Internacional da Mulher



O tema 'Generation Sex' dos The Divine Comedy, do álbum "Fin de Siècle" (1998) .






Generation sex respects the rights of girls
Who want to take their clothes off
As long as we can all watch that's OK
And generation sex elects the type of guys
You wouldn't leave your kids with
And shouts "off with their heads" if they get laid
Lovers watch their backs as hacks in macs
Take snaps through telephoto lenses
Chase Mercedes Benz' through the night
A mourning nation weeps and wails
But keeps the sales of evil tabloids healthy
The poor protect the wealthy in this world
Generation sex injects the sperm of worms
Into the eggs of field mice
So you can look real nice for the boys
And generation sex is me and you
And we should really all know better
It doesn't really matter what you say

Emily Davison

A sufragette que se atirou à pista tendo sido atropelada plo cavalo do rei Jorge V, Anmer

Indicadores sobre a situação das mulheres em Portugal







Mais indicadores podem ser encontrados no site do INE, em particular neste documento.

Tributo às bisavós

Os meus putos ainda têm a sorte de ter duas bisavós. São mulheres extraordinárias que viveram para criar os filhos, os netos e ainda dão o melhor de si para os bisnetos. Mulheres de força cuja vida lhes foi corroendo e enrugando o corpo. O tempo entortou-lhe as mãos e os dedos, mas, apesar disso, ainda conseguem ter uma destreza espantosa: tudo lhes sai das mãos com sabedoria e naturalidade. São mulheres que viveram grande parte da vida amordaçadas pelos maridos e, antes, pelos pais. São mulheres que depois da chegada da liberdade já não se conseguiram libertar. Artífices do silêncio que construíram mundos e esperanças no íntimo segredo. A elas devemos muito… a estas mulheres de silêncio forte.

Emancipações, ou o reverso da medalha

Permitam-me o optimismo, mas a emancipação da mulher parece-me hoje uma realidade, um dado adquirido. As conquistas das mulheres, em particular na sociedade ocidental, desde os tempos de Emmeline Pankhurst (ver o post anterior) são inegáveis e enormes. Ainda há muito para fazer, é certo, mas digamos que a máquina já esta em movimento, é uma inevitabilidade, uma questão de tempo.
O desafio agora está do lado dos homens. A mulher emancipou-se, mas conseguirão os homens emancipar-se da emancipação feminina? Conseguiremos adaptar-nos a este admirável mundo em que a mulher é tratada em igualdade com o homem? Estaremos à altura do desafio? Quem é afinal o sexo fraco?

P.S. - Quem é que pôs o autocolante ali em cima à direita? Está genial!

Deeds not words

Hoje quero falar de uma mulher que considero uma heroína: Emmeline Pankhurst (1858-1928), uma das fundadoras do movimento sufragista britânico. «Mrs Pankhurst» nasceu em Manchester, filha de uma abolicionista e de uma feminista. Casou, também, com um apoiante do movimento. Fundou em 1903 a Women's Social and Political Union, cujo lema era «Deeds not words» e começou uma militância mais visível a partir de 1905. Foi presa várias vezes, fez greves de fome. Durante a Primeira Guerra, deixou o tema do sufrágio, para se dedicar ao esforço de guerra. O seu objectivo era que as mulheres pudessem ocupar os empregos deixados pelos homens, chegando a organizar uma manifestação nesse sentido que juntou 30,000 mulheres.
Em 1918, as mulheres inglesas com mais de 30 anos e, se proprietárias, começaram a votar, embora todos os homens com mais de 21 anos o pudessem fazer. Finalmente, em 1928 a igualdade de direitos, em relação ao voto, ficou estabelecida.
«Mrs Pankhurst» mudou o mundo ocidental, mudou o meu mundo e, sobretudo, faz-me acreditar que os «contextos» que tantas vezes servem de desculpa, não têm que existir, antes pelos contrário são os que vêem «fora do contexto» que tantas e tantas vezes têm razão.

Se há ismo no qual me revejo...

... é o FEMINISMO!
Sei que sou feminista desde a adolescência. O meu feminismo prende-se com a minha consciência das relações familiares, com a minha consciência histórica e com a minha consciência política.
Consciência da desigualdade entre homens e mulheres na família, na divisão das tarefas domésticas, na gestão da casa, na educação dos filhos, no tratamento diferenciado dado a rapazes e raparigas, nas expectativas criadas, nos papéis sociais impostos, nos preconceitos, nos tabus, no cerceamento da autonomia, na repressão da sexualidade.
Consciência da posição de subordinação desde sempre reservada às mulheres e da luta que começou a ser travada, sobretudo a partir de meados do século XIX, em prol da igualdade de direitos sociais e políticos entre os géneros.
Consciência da necessidade de contrariar no quotidiano, nas relações sociais, na polis, aquela desigualdade histórica; contribuir para a criação de uma sociedade mais justa e mais livre, onde cada pessoa (independentemente do género) possa realizar-se nas suas múltiplas identidades, possa sentir e dar prazer, possa decidir sobre a sua vida, possa intervir plenamente em todos os domínios da esfera pública.
_____________
Imagem AFML: Fot. Helena Corrêa de Barros, «Duas mulheres: composição», [1950-1960].

quarta-feira, 7 de março de 2007

Mudar de jogo

Para que o nosso jogo não seja sempre o xadrez, proponho uma nova modalidade: cada peão diz, numa frase, uma situação, prática social ou experiência de vida de que se lembre e que traduza a desigualdade entre géneros. Conto com todos os peões. Eu começo.
Na minha infância, pelos anos 70, entre as pessoas que conhecia, apenas a minha madrinha sabia conduzir, mas só conduzia quando estava sozinha comigo. Quando estávamos com o meu padrinho, nem se punha a hipótese de ser ela a dirigir o carocha verde (e eles eram benfiquistas).

Reinventar a roda

Há uns dias envolvi-me numa saudável e frontal polémica com o Renato sobre a "sociedade de conhecimento", o modelo de desenvolvimento para Portugal, a atitude da esquerda e da crítica em geral, entre outras coisas importantes. Sem querer voltar a este debate - que terá seguramente rounds futuros -, uma das coisas que disse numa caixa de comentários é que era importante que - mas isto não era uma crítica pessoal nem particularmente dirigida ao Renato -, quando as pessoas ultrapassavam a fase de simplesmente criticar para destruir e passam à saudável (direi mesmo: adulta) fase de pensar e/ou propor políticas e medidas alternativas, procurassem saber se aquilo que propõem por vezes como supostamente revolucionário não está já pensado, tematizado, escrito, e muitas vezes a (tentar) ser posto em prática. Não basta fazer críticas construtivas e exequíveis; é preciso que elas sejam informadas. É que muitas das coisas que as pessoas com genuína vontade de participar e intervir dizem podem ser já do domínio comum das políticas pensadas - e por vezes até em fase de implementação.

Este comentário vem a propósito do relatório que o Conselho Nacional da Educação entregou ontem na Assembleia da República e que dá conta do debate nacional sobre Educação, que decorreu pelo país e na internet entre Maio de 2006 e Janeiro de 2007. Os jornais de hoje estão cheios de informações sobre isto, por isso vou directamente ao que quero dizer: tirando algumas medidas interessantes que não fazem parte das neste momento das prioridades da actuação governativa (como por exemplo a de necessidade de valorizar mais a "educação primeira", a que vai dos 0 aos 3 anos, o que me parece uma ideia importante, dado que é nos primeiros anos de vida que as desigualdades cognitivas entre as crianças - e absolutamente decisivas no seu futuro desempenho escolar - começam, invisivelmente, a emergir), a maioria das coisas que é dita e proposta faz parte dos objectivos delineados e das medidas em curso pelo Ministério da Educação. O relatório, claro está, que se pretende independente e rigoroso, não tem que ser porta-voz do Governo. Mas a verdade é que as propostas surgem - num tom repetido pela imprensa - como se ninguém se tivesse lembrado delas antes, ou como se não houvesse, neste preciso momento, um Ministério a procurar colocar em prática inúmeras ideias ali avançadas. Em nenhum momento do relatório é dito que "a proposta X ou Y está a procurar ser implementada". É como se para além do "debate nacional da educação", não existissem medidas concretas cuja implantação começou em 2005.
Se virmos bem, isto acontece inúmeras vezes no debate político em Portugal - e representa um gasto de energias inútil, sobretudo quando a proliferação de propostas repetidas - mas nunca assumida como tais - é comparada com a ausência de avaliação justa e rigorosa - que não seja baseada no achismo ("ora eu acho que...") do costume - das medidas colocadas em prática.

Dos Estados às aves

O Hugo já deixou por cá um dos temas do Sufjan Stevens, o Chicago do Illinoise. Esse álbum fazia parte dum projecto aparentemente louco do Stevens : compor um disco por Estado americano. Começou pelo Estado onde nasceu, o Michigan, e depois foi até ao Illinois que teve direito a duas partes (Illinoise e The Avalanche). Porém parece que o Stevens abandonou essa ideia e que os outros 48 Estados vão ficar sem banda sonora (eu estava à espera do Hawaï e do Alaska). Mas Stevens continua a compor e depois de músicas de Natal vai passar às aves. Quem tive a sorte de assistir a um concerto da sua última digressão (como eu), já viu o novo look aéreo do Sufjan e da sua banda e já ouviu o tema Majesty Snowbird que deixa antever uma futura obra-prima.

Os cumpleaños da RTP

No editorial do 'P' de hoje, José Manuel Fernandes escreve:

"No cinquentenário da RTP, é necessário voltar a uma questão que a gestão mais rigorosa dos últimos anos não fez desaparecer: o "serviço público" vale o que pagamos por ele?"

Eu acho que esta é uma excelente pergunta. Não estou seguro de saber a resposta, mas a verdade é que talvez 3/4 da sua programação cairiam dentro do que o filósofo Harry G. Frankfurt chama bullshit. Ora, bullshit por bullshit, mais vale a que não custa nada aos contribuintes, certo? Depois haveria certamente mais dinheiro para o que realmente interessa financiar. Como, por exemplo, isto.

O dia que eu esperava


8 de Março (é já amanhã!) será um novo «dia inicial, inteiro e limpo», cheio de significado em termos políticos e culturais. Se não vejamos: ao início da tarde decorrerá na Assembleia da República a votação da legislação da despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez; durante todo o dia, na Biblioteca-Museu República e Resistência terá lugar um colóquio sobre "A Mulher e a Resistência", promovido pelo movimento cívico «Não apaguem a Memória!»; ao fim da tarde, será lançado um livro sobre 80 anos de feminismos; à noite, no Frágil, há debate sobre a IVG, seguido de música; na Associação 25 de Abril haverá festa pela noite dentro.


ADENDA:
>Colóquio temático «A cultura tem género?», organizado pela Estrutura de Missão do Ano Europeu Igualdade de Oportunidades para Todos 2007 (Centro de Congressos de Lisboa);
>Tertúlia organizada pela Rede Jovem, à noite, no Bairro Alto.

terça-feira, 6 de março de 2007

DJ Peão em versão fúnebre: The Divine Comedy



Esta é uma das músicas mais divertidas que conheço sobre a morte, e óptima para tocar no funeral desse simulacrólogo - chamar-lo 'sociólogo' demonstraria excessiva tolerância, e mesmo 'filósofo' revelaria injusto desrespeito pela disciplina - que se chamava Jean Baudrillard.

O que faz ler demasiado Baudrillard

Ribeiro e Castro avisa Sócrates que vai derrotá-lo depois de vencer Portas.

Laissez-les grandir ici!

Aproveitando a deixa do Victor (bem-vindo ao Peão!) sobre da imigração em França, fica aqui um filme que estreou esta semana nas salas de cinema em França:"Laissez-les grandir ici!"

As crianças que aparecem no filme são todas de famílias de imigrantes "sans papiers", e escolarizadas em França. O texto do filme foi escrito pelos filhos de "sans papiers" que aparecem no filme e outros nas mesmas circunstâncias, o filme é realizado por colectivo de cineastas e pelo "Réseau Education sans frontières". A história completa pode ser lida no Le Monde.
Nas eleições presidenciais que se aproximam a imigração vai ser um tema forte mais uma vez, mas não vai ser só a direita e extrema-direita a brandirem palavras de ordem nacionalistas e xenófobas, também há felizmente (digo eu) quem à esquerda exija uma verdadeira política de integração.

É de certeza uma simulação

Morreu sociólogo francês Jean Baudrillard

2007-03-06, 19h19


Paris, 06 Mar (Lusa) - O sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard morreu hoje em Paris aos 77 anos, indicou fonte próxima do escritor.

O escritor morreu em casa, após doença prolongada, segundo a mesma fonte.

Autor de cerca de 50 obras, Baudrillard é considerado um dos mais influentes pensadores pós-modernos, com destaque para as suas críticas aos mecanismos da sociedade de consumo.

Baudrillard publicou em 1968 "O Sistema dos Objectos", seguindo-se obras como "A Sociedade de Consumo", "Simulacros e Simulação" e "América".

Mais recentemente causou polémica com as suas posições sobre os atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos, com a obra "O Espírito do Terrorismo", defendendo que o terrorismo obedece a uma "lógica".

Nascido a 20 de Julho de 1929, em Reims, Jean Baudrillard era germanista e começou a sua carreira como tradutor de Karl Marx, Bertold Bretch e Peter Weiss.

EO.

Fonte: Agência LUSA

Vinte anos depois…


...de ter escrito uma das obras pioneiras nos estudos sobre imigração em França (Le creuset français. Histoire de l’immigration 19e-20e, Paris, Seuil, 1988), Gérard Noiriel publica agora (saída nas livrarias francesas amanhã, dia 7) Immigration, anti-sémitisme et racisme en France 19e-20e. No Creuset français, Noiriel tinha demonstrado que a França era um país de imigração que se ignorava. A focalização dos historiadores sobre as permanências das estruturas tinha impedido de pensar o contributo económico, demográfico, cultural dos homens e das mulheres que tinham vindo do estrangeiro. O livro que sai amanhã parece fazer um balanço das obras do Noiriel mas também dos numerosos trabalhos nessa área que foram escritos ao longo desses 20 anos. Esses trabalhos, contemporâneos à subida do Front National, não puderam impedir uma subida do anti-semitismo e do racismo em França. Nesse domínio, o gap entre os saberes construídos pela comunidade científica e as representações partilhadas por uma parte dos agentes sociais é enorme. Tal como se vê na forma como a imigração é tratada na campanha eleitoral.

Aqui fica um link para o capítulo VI do livro do Noiriel que trata dos anos 1930.

DJ Peão: Yann Tiersen



Em jeito de countdown para o conceto de quarta-feira, a "Valse d'Amelie", ao vivo.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Zéro de conduite


Em resposta ao post do Hugo e para os saudosos da disciplina, recomendo o visionamento do filme de Jean Vigo, Zéro de conduite: Jeunes diables au collège (1933).