segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Mote reaccionário da semana

«Um Estado que não tem os meios da sua reforma não tem os meios da sua conservação»

Edmund Burke

8 comments:

Renato Carmo disse...

Pode não ser reaccionária, mas que é uma ideia conservadora não tenho dúvida!

Hugo Mendes disse...

Depende: o que é conservador (o "reaccionário" era mais para provocar) nuns tempos pode bem ser progressista noutros. E perante o que se passa hoje em países como França ou Portugal, onde - pour aller vite - o Estado corporativo e entregue a certas clientelas poderosas (que sabemos raramente serem os que mais precisam do Estado e da sua asa protectora) cresceu em certos aspectos contra e não a favor do interesse geral, esta ideia pode muito bem ser progressista.

Renato Carmo disse...

Assim seria progressita:
«Um Estado que não tem os meios da sua reforma não tem os meios da sua transformação»

Hugo Mendes disse...

Vá lá, essa frase foi escrita no final do século XVIII, não sejamos tão exigentes :)
Esta era a altura em que os Estados caíam com alguma facilidade.

Renato Carmo disse...

Como é óbvio não me referia ao contexto histórico em que a frase foi escrita. Nem tu, quando a consideraste progressita para os tempos actuais de crise do Estado Social. De facto, a agenda política dos partidos socialistas e sociais-democratas da europa de hoje pode ser muito bem definida por essa frase. Mas essa agenda está longe de ser progressista. É conservadora porque joga na defensiva (a metáfora futebolística dá sempre jeito para estas ocasiões).
Ora bem, no meu entender uma ideia progressita deveria conceber a reforma do Estado não como um mero meio para a sua manutenção, mas como um caminho não só para a sua transformação, como para a transformação da própria sociedade. Há exemplos interessantes nos quais convinha reflectir com alguma atenção.

Hugo Mendes disse...

Nem toda a agenda dos partidos trabalhistas ou social-democratas é conservadora; aliás, mais do que no passado, em que os corporativismos pensavam que o Estado era um contínua torneira aberta para despejar fundos, os hoje os partidos de centro-esquerda no governo são obrigados a pensar nos fins do Estado, e não apenas nos meios (= normalmente a mais dinheiros para as suas diferentes clientelas). Alguns cortes não têm nada de conservador em si mesmo, nem de economicismo como hoje está na moda dizer, mas são reafectações da despesa pública para o que realmente interessa, e para acabar com regalias de alguns corpos que engoradaram à custa dos outros e da dívida pública em geral (ou seja, das próximas gerações que a vão ter que pagar). Isso é pensar nos fins e não apenas nos meios, e pode ser feito com um caracter progressista, para transformar o próprio Estado e a sociedade.

(só uma nota relativamente à conservação do Estado: não é inteiramente verdade que o Estados não vejam a sua conservação ameaçada; a ameaça é diferente do passado, é certo, não é belica; mas, por exemplo, quando 56% da dívida publica francesa está em mãos estrangeiras, é a independencia e a margem de manobra de um pais que está em causa)

Renato Carmo disse...

"Isso é pensar nos fins e não apenas nos meios, e pode ser feito com um caracter progressista, para transformar o próprio Estado e a sociedade".

Mas a questão essa: porque é que não é feito com esse carácter progressista?

Hugo Mendes disse...

Antes que comecemos a desenrolar os lençois do costume :), tens de me dar exemplos do que não são medidas progressistas (ou, inversamente, são medidas conservadoras) tomadas por governos sociais-democratas e trabalhistas, que é para não iniciarmos uma conversa de surdos. É porque o que é "progressista" ou não, como calculas, é um bocado escorregadio e, sobretudo, o seu significado alterou-se ao longo do tempo.